Canção

Quarteto em Cy, álbum homônimo de 1972, é relançado pela Três Selos-Rocinante

1972. No Brasil os jovens estavam mais ouriçados, atuantes, contestadores e na constante busca de liberdade e renovação. O pop nacional estava em transição e a música jovem brasileira levava sacudidas de todos os lados: Gil e Caetano voltando do exílio, Mutantes mais pirados que nunca no país do baurets, os Novos Baianos lançando sua obra-prima Acabou Chorare e o Clube da Esquina surgindo com uma nova e encantadora proposta harmônica, estética, conceitual e poética, criando uma sonoridade mineira/universal para além do confinamento do eixo Rio-São Paulo. Intérpretes como Elis Regina, Gal Costa e Clara Nunes estavam no auge de popularidade e buscavam composições de novos talentos da MPB para enriquecer seus repertórios. Parecia natural que o Quarteto em Cy, voltando ao cenário naquele 1972, também buscasse esse caminho naquela nova fase da carreira.
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A busca de novos caminhos não significava abrir mão da marca registrada do quarteto: a excelência nas vocalizações, o bom gosto no repertório e a mesma preocupação com as harmonias e as letras daquilo que estavam interpretando. Para a tão aguardada estreia pela Odeon, o repertório veio de veteranos como Dorival Caymmi, Jorge Amado, Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra até novatos como Fagner, Ricardo Bezerra, Mauro Duarte, Maurício Tapajós, Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix, Francis Hime, Paulo Cesar Pinheiro, Ronaldo Bastos, Lô e Marcio Borges.

As quatro vozes, sempre precisas e complementares, e as orquestrações impecáveis de Luiz Eça e Edu Lobo, transitam entre delicadeza camerística e vigor rítmico, espelhando a diversidade da música brasileira pós-Bossa Nova. A versão aqui contida de “Tudo Que Você Podia Ser” chegou às lojas junto da versão original dos irmãos Lô e Marcio Borges, tema de abertura do disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges.
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Quatro vozes, um só respiro. O Quarteto em Cy de 1972 atravessa tempos e territórios da música brasileira — do lirismo de Caymmi ao frescor das novas gerações. Harmonias cristalinas, arranjos esmerados e um repertório robusto, engajado com os anseios do período, fazem deste registro uma obra indispensável, que traduzia para uma nova geração as contradições de um Brasil urbano, mas também interiorano, moderno e ancestral ao mesmo tempo. Tudo que você devia ser, sem medo.
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Esta edição Três Selos-Rocinante é em vinil preto 180g, inclui reprodução do envelope original com letras e texto do jornalista e escritor Bento Araujo, autor da série de livros Lindo Sonho Delirante.

Capa do LP ‘Quarteto em Cy’ • Quarteto em Cy • Três Selos/Rocinante • 1972 / 2025

Disco ‘Quarteto em Cy’ • Quarteto em CyTrês Selos/Rocinante • 1972 / 2025
Canções / compositores
Lado A
A1. Quando o carnaval chegar (Chico Buarque)
A2. Talvez (Francis Hime, Paulo Cesar Pinheiro)
A3. Cavalo-ferro (Raimundo Fagner, Ricardo Figueiredo Bezerra)
A4. Tudo que você podia ser (Lô Borges, Marcio Borges)
A5. Incelensa (Edu Lobo, Ruy Guerra)
Lado B
B1. Sapato mole (Mauro Duarte, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)
B2. Underground (Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix)
B3. Antes da primeira hora (Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix)
B4. Zanga, zangada (Edu Lobo e Ronaldo Bastos)
B5. Cantoria (Edu Lobo e Ruy Guerra)
B6. Canto do Obá (Dorival Caymmi e Jorge Amado) | Participação especial de Dorival Caymmi
– ficha técnica original –
Quarteto em Cy é Cyva, Cynara, Dorinha Tapajós e Sonya Ferreira (vocais – todas as faixas) || Magro (orquestrações e regência – fx. A1, B1, B6) | Edu Lobo (violão – fx. A1, B1, B6) | Helvius (piano – fx. A1, B1, B6) | Luiz Eça (piano – fx. A1, B1, B6) | Danilo Caymmi (flautas – fx. A1, B1, B6) | Dorival Caymmi (voz – fx. B6) || Luiz Eça (orquestrações e regência – fx. A2, A3) | Nelson Ângelo (guitarra – fx. A2, A3) | Tavito (violão 12 cordas – fx. A2, A3) | Zé Menezes (violão – fx. A2, A3) || Edu Lobo (orquestrações e regência – fx. A4, A5, B4, B5) || Antonio Fernando Leporace (baixo elétrico – fx. A4, A5, B4, B5) | Bebeto (baixo acústico  – fx. A4, A5, B4, B5) | Quinteto Villa Lobos* (fx. A4, A5, B4, B5) | Helcio Milito (bateria e percussão – fx. A4, A5, B4, B5) | Rubinho (bateria – fx. A4, A5, B4, B5) || Antonio Fernando Leporace (orquestrações e regência – fx. B2, B3) | Tenório (piano – fx. B2) | Quarteto Rio de Janeiro (cordas – fx. B3) || *Percussão e berimbau na faixa B6 (sem identificação na ficha técnica) || Direção de produção: Milton Miranda | Direção musical: maestro Gaya | Assistente de produção: Edu Lobo | Direção técnica: Z. J. Merky | Técnico de gravação: Nivaldo Duarte | Técnico de laboratório: Reny R. Lippi | Layout: Joel Cocchiararo | Foto: Alexandre Souza Lima || Edição Três Selos/Rocinante 2025 Coordenação geral: Bruno Vieira, João Noronha, Sylvio Fraga e Wladymir Jasinski | A&R: Márcio Rocha e Rafael Cortes | Coordenação gráfica: Mateus Mondini | Coordenação técnica: Pepê Monnerat | Coordenação de prensagem: Vinicius Crivellaro | Licenciamento: Daniel Moura e Joe Lima | Texto e edição de conteúdo: Bento Araujo | Comunicação e Marketing digital: Dayw Vilar e Tathianna Nunes (Pantim) | Direção de arte: Bloco Gráfico | Design: Pedro Caldara | Masterização: Ricardo Garcia (Magic Master) | Foto do encarte: Acervo Arquivo Nacional | Agradecimento: Thiago Marques Luiz | Selo: Três Selos/Rocinante | Cat. R3-087 | Formato: LP vinil | Ano: 2025 | Relançamento: Setembro | ♪Ouça o álbum: clique aqui | ♩Comprar o LP Vinil: clique aqui.
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*Quinteto Villa-Lobos (1977) é: Paulo Sérgio Santos (clarinete); Airton Barbosa (fagote); Carlos Gomes de Oliveira (trompa); Eros Martins de Melo (oboé) e Carlos Rato (flauta)

Quarteto em CY (Cyva, Cynara, Dorinha Tapajós e Sonya Ferreira) 1972

Quarteto em Cy [1972]
por Bento Araujo
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O inverno no Rio, naquela fria noite de 30 de junho de 1964, não impediu que o pessoal aparecesse no Bottles Bar, no lendário Beco das Garrafas, para assistir Rosinha de Valença no violão, Carlos Castilho na guitarra e o Copa Trio — com Dom Um Romão na bateria, Dom Salvador no piano e Manuel Gusmão no contrabaixo. Todo esse time estava ali, reunido, para acompanhar a estreia de um novo grupo vocal, o Quarteto em Cy, formado pelas irmãs Cybele, Cylene, Cynara e Cyva. O batismo do quarteto veio de Carlos Lyra, juntando as iniciais das irmãs em trocadilho com a nota musical “dó”, ou “C” em notação internacional, sob a pronúncia “cy”.
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Não fazia muito tempo que deixaram a Bahia rumo à capital carioca para trabalhar com música. Convidadas para uma aparição musical no filme Sol Sobre a Lama, do diretor baiano Alex Viany, conheceram Vinicius de Moraes, que estava trabalhando com Pixinguinha na trilha sonora. Impressionado, o poeta foi logo avisando, “as meninas agora vão ser minhas”.
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Apadrinhadas por Vinicius, que as chamava carinhosamente de “baianinhas”, passaram a acompanhá-lo em festinhas e encontros da alta sociedade carioca, encantando a todos com suas vocalizações e harmonizações. A carreira discográfica começa naquele mesmo ano da estreia no Beco das Garrafas, 1964, com um disco homônimo lançado pelo selo Forma, que dois anos depois colocaria no mercado Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius, com participação especial do Quarteto em Cy.
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Em meio a isso tudo, Aloysio de Oliveira, fundador da Elenco, produz um show de Vinicius e Dorival Caymmi na boate Zum-Zum, também no Beco das Garrafas. Aloysio se apaixonou por Cyva e o casamento foi inevitável. Logo o Quarteto em Cy estava de casa nova, a Elenco, a estampa mais importante e imponente de todas naquele momento ao registrar e imortalizar álbuns fundamentais da Bossa Nova e seus desdobramentos, lançando obras de ícones como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Nara Leão, Edu Lobo, Maysa, Roberto Menescal e Sylvia Telles, entre outros. Aloysio vinha levando artistas brasileiros para participar do Andy Williams Show, em Los Angeles — não demorou para o Quarteto em Cy se apresentar no programa televisivo/musical mais badalado dos EUA ao lado de Marcos Valle. A Warner se anima e lança as garotas no mercado internacional como The Girls From Bahia, com o disco Pardon My English, em 1967.
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Depois de uma temporada de seis meses nos EUA, voltam ao Brasil e lançam mais um elepê pela Elenco, Em Cy Maior (1968). Quando pinta o convite para voltar aos Estados Unidos, Cynara e Cybele decidem não ir. Com o racha, formam uma dupla e ganham uma música de Chico Buarque, “Carolina”, sucesso no Festival Internacional da Canção de 1968 e no LP Cynara e Cybele. No ano seguinte Cynara ainda lançou um álbum solo, Pronta Pra Consumo. Já o Quarteto em Cy amargou um distanciamento de quatro anos do cenário musical brasileiro.
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1972. Outra década, outro mundo. No Brasil a realidade ainda era a mesma: repressão militar, censura e preconceito. Mas os jovens estavam mais ouriçados, atuantes, contestadores e na constante busca de liberdade e renovação. O pop nacional estava em transição e a música jovem brasileira levava sacudidas de todos os lados: Gil e Caetano voltando do exílio, Mutantes mais pirados que nunca no país do baurets, os Novos Baianos lançando sua obra-prima Acabou Chorare e o Clube da Esquina surgindo com uma nova e encantadora proposta harmônica, estética, conceitual e poética, criando uma sonoridade mineira/universal para além do confinamento do eixo Rio-São Paulo. Intérpretes como Elis Regina, Gal Costa e Clara Nunes estavam no auge de popularidade e buscavam composições de novos talentos da MPB para enriquecer seus repertórios. Parecia natural que o Quarteto em Cy, voltando ao cenário naquele 1972, também buscasse esse caminho naquela nova fase da carreira. A formação também havia mudado, Cynara e Cyva agora contavam com as vozes de Sonia Ferreira (que entrara no grupo em 1968, substituindo Cybele) e a recém convocada Dorinha Tapajós.

A busca de novos caminhos não significava abrir mão da marca registrada do quarteto: a excelência nas vocalizações, o bom gosto no repertório e a mesma preocupação com as harmonias e as letras daquilo que estavam interpretando.
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Para a tão aguardada estreia pela Odeon, o repertório veio de veteranos como Dorival Caymmi, Jorge Amado, Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra até novatos como Fagner, Ricardo Bezerra, Mauro Duarte, Maurício Tapajós, Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix, Francis Hime, Paulo Cesar Pinheiro, Ronaldo Bastos, Lô e Marcio Borges.
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As quatro vozes, sempre precisas e complementares, e as orquestrações impecáveis de Luiz Eça e Edu Lobo, transitam entre delicadeza camerística e vigor rítmico, espelhando a diversidade da música brasileira pós-Bossa Nova. A produção e direção artística era do time azeitado da Odeon daquele período, Milton Miranda e maestro Lindolfo Gaya, que aqui contaram com Edu Lobo como assistente — ele que teve três de suas composições gravadas no elepê: “Zanga, Zangada”, “Cantoria” e a soturnamente bela “Incelensa”.
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Lembrando que o disco de estreia do Quarteto, lançado em 1964, já trazia dois temas de autoria da dupla Edu Lobo e Ruy Guerra.

Quarteto em Cy é um disco de 1972 em todos os sentidos. Ele abre com “Quando o Carnaval Chegar”, de Chico Buarque, lançada na trilha sonora do filme de mesmo nome que estava chegando aos cinemas. Outros ares de contemporaneidade são trazidos por “Cavalo-Ferro”, lançada quase que simultaneamente com a versão original psicodélica de Fagner e Ricardo Bezerra, contida num compacto duplo com arranjos de Rogério Duprat.
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Outras canções mostravam a força da nova geração de compositores que também eram contratados da Odeon: “Antes da Primeira Hora” e “Underground”, de Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix, que naquele ano lançaram Passado Presente Futuro, o primeiro álbum do trio Sá, Rodrix & Guarabyra. A letra de “Underground” vinha carregada da mordaz irreverência de Rodrix: “Agora que nós já somos underground / Vamos morar debaixo da terra / Já que é tão bacana ser underground / Vamos deixar de cobrar nossas dívidas / Agora que todo mundo já sabe / Que nós somos underground / Vamos morar num castelo encantado”.
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“Tudo Que Você Podia Ser” chegou às lojas junto da versão original dos irmãos Lô e Marcio Borges, tema de abertura do disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. A melancólica “Talvez” é de autoria de Paulo Cesar Pinheiro e Francis Hime, ele que vinha preparando a sua estreia também pela companhia. Até a versão de “Canto do Obá”, que fecha o LP, encerrava também o disco Caymmi, lançado por Dorival Caymmi em 1972 também pela Odeon. O baiano aparece como convidado especial na recriação do Quarteto em Cy.
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Quatro vozes, um só respiro. O Quarteto em Cy de 1972 atravessa tempos e territórios da música brasileira — do lirismo de Caymmi ao frescor das novas gerações. Harmonias cristalinas, arranjos esmerados e um repertório robusto, engajado com os anseios do período, fazem deste registro uma obra indispensável, que traduzia para uma nova geração as contradições de um Brasil urbano, mas também interiorano, moderno e ancestral ao mesmo tempo. Tudo que você podia ser, sem medo.
Quarteto em Cy / por Bento Araujo.

Mais sobre o projeto Rocinante Três Selos
A paixão pelo vinil uniu, em novembro de 2023, três grandes nomes do mercado nacional em uma colaboração inédita: a fábrica Rocinante, localizada em Petrópolis, a Três Selos, renomada por sua seleção especial de lançamentos em vinil, e a Tropicália Discos, uma loja icônica do Rio de Janeiro com mais de 20 anos de expertise na divulgação da música brasileira. Desde julho de 2025, a parceria alcança novo patamar com o lançamento do Clube Três Selos Rocinante, serviço de assinatura que oferece uma experiência imersiva na música brasileira através de vinis de alta qualidade.
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Essas referências do mercado se unem para apresentar com excelência algumas das obras mais marcantes da música brasileira, incluindo nomes consagrados como Chico CésarGilberto GilHermeto Pascoal, NovelliTulipa RuizCéu, Baiana SystemBarão VermelhoAnelis AssumpçãoDona OneteAlceu ValençaOs Orixás, Chico BuarqueDjavanCólera, Tim Bernardes, Moacir Santos, Orlandivo, Alceu Valença, Cazuza, Guilherme Arantes. Com um projeto gráfico inovador e utilizando as melhores prensas de vinil do país, essa parceria promete elevar ainda mais a música brasileira, celebrando sua riqueza e diversidade em cada lançamento.

>> Siga: @tres.selos | @tresselosrocinante | @rocinantegravadora | @fabricarocinante | @tropicaliadiscos

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Série: Discografia da Música Brasileira / Canção / álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske

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