Estátua do Drummond, em Copacabana - RJ Foto: Bruno Martins/Alamy Stock Phot
Costuma dizer-se da vida de hoje, que é tecida de egoísmo, e lhe falta espírito ou prática de comunhão. Mas o que vimos na noite de domingo foi que não há dramas estanques, pois os próprios elementos mecânicos da civilização contribuem para a formação de um todo solidário e vibrátil, uma espécie de “vida unânime”, sonhada pelo poeta, em que os casos particulares, sem perda de sua especificidade, passam a constituir casos de todos nós, multiplicando-se ao infinito.
Um edifício incendiava-se ao vento do mar, e onde quer que houvesse aparelho de rádio, pessoas participavam da situação, embora impotentes para remediá-la: não era uma notícia que entrava pela casa adentro, mas um acontecimento a que fôssemos transportados, a que aderíamos, que iria integrar-se no quadro de experiências vividas. Mais: um acontecimento metade ainda por acontecer, que se desdobrava em torno e dentro de nós, que não tínhamos forças para impedi-lo, e a ele nos sentíamos amarrados por essa sirene longínqua, ressoando no interior de nossa casa protegida.
Éramos tão frágeis e desprevenidos como esses moradores que se deixaram ficar repousando em seus quartos, e foram acordados pelo fumo; e tão pobres de recursos como esses bombeiros que, tendo escadas gigantescas, não puderam usá-las convenientemente, refletores e não puderam acendê-los, cobertas de lona e não puderam abri-las. Sabíamos que, entre a noite e a morte, alguns retardatários imploravam, de seus balcões, que uma chance comum de salvamento lhes fosse oferecida; e não podíamos dizer a esses quase desesperados que esperassem mais alguns instantes apenas, pois a adesão emocional da população saberia vencer todas as deficiências, subitamente reveladas, do serviço de combate ao fogo, do sistema de construção dos edifícios e do funcionamento normal da cidade, que não pode ser apenas um montão de casas e pistas de corrida, sem qualquer proteção para a vida humana. Tínhamos de assistir à queda de alguns corpos e à descoberta de outros, como a cenas programadas de um espetáculo; e mesmo os que não viram fisicamente tais cenas, elaboravam com horror sua representação mental. Tudo isso aconteceu no interior de cada casa do Rio, no interior de cada habitante, e não apenas num edifício que abrigava uma boate famosa e estava numa linha discutida de desapropriação.
Pela madrugada, quando todos nos sentíamos deprimidos ante o que fora menos um incêndio entre muitos do que um ensejo de apurar a extensão de nossas misérias urbanas, uma voz entrou também pelas casas, explicando e tranquilizando. Era o comandante do Corpo de Bombeiros, a atestar a qualidade moderna de seu equipamento, embora lhe admitisse a insuficiente quantidade. E distribuía à população um conselho lúgubre: que todo morador de edifício, do quinto andar para cima, tenha sempre em casa, ao alcance dos braços, uma corda. Uma corda longa e forte, atada em nó de metro em metro, não para enforcar-se, mas para salvar-se numa era em que a técnica tem poder bastante para levantar construções orgulhosas de mais de cem andares e não o tem para garantir a vida de quem habita esses altos planos. A corda passará a ser peça essencial do equipamento doméstico, e mais do que isso, individual; será uma escada privativa e portátil, colada sinistramente à nossa existência. Para usá-la, treinaremos as crianças antes de ensinar-lhes as primeiras letras, do mesmo modo que manteremos nos velhos a “forma” indispensável; quanto aos inválidos, fiquem nas mãos de Deus. É a lição do incêndio do Vogue*, e se contraria aquele princípio de fraternidade confrangida, que se manifestou nas almas, durante a noite de domingo, devemos reconhecer que a corda, pelo menos, é esperança para alguns.
* A boate Vogue, localizada na rua Princesa Isabel, em Copacabana, incendiou-se no dia 14 de agosto de 1955.
— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. Companhia das Letras, 2012.
SOBRE O LIVRO
Fala, amendoeira é uma reunião de crônicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do gênero: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. […]”. Porque a crônica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância. O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crônica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa.
FICHA TÉCNICA
Título: Fala, amendoeira
Páginas: 216
Formato: 21.4 x 13.2 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 05/03/2012
ISBN: 978-8535920482
Selo: Companhia das Letras
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.
Saiba mais sobre Drummond:
Carlos Drummond de Andrade – antologia poética
Carlos Drummond de Andrade – entrevista inédita: erotismo – poesia e psicanálise
Carlos Drummond de Andrade – fortuna crítica
Carlos Drummond de Andrade – o avesso das coisas (aforismos)
Carlos Drummond de Andrade – poesia erótica
Carlos Drummond de Andrade – um poeta de alma e ofício
Com delicadeza e ternura, Saci Wèrè nina o fim do mundo ao lado de Flaira…
Curitiba vai receber dois grandes ícones da música brasileira, em uma noite de nostalgia, emoção…
A música instrumental brasileira, em sua vertente carioca, tem como principal trunfo o equilíbrio entre…
Saxofonista e compositora britânica, Nubya Garcia se apresenta no Manouche (RJ), e na Casa Natura…
Luna Music apresenta “Il fait dimanche”, canção francesa que atravessa o tempo entre delicadeza, memória…
Um dos maiores ícones da música mundial, a seis vezes vencedora do Grammy, Dionne Warwick, anuncia sua…