LITERATURA

Suspeita – Carlos Drummond de Andrade

Quando José Alves viu Brandão chegar a sua porta, pensou em coisa má, porque boa não devia ser. Brandão era senhorio, vinha talvez aumentar o aluguel. Ou, então, dizer que os meninos estragavam muito a casa, a começar pelo lado de fora. José Alves pagava mais ou menos em dia, salvo ocasiões de doença. Era condutor de bonde, vale dizer, tinha dinheiro curto. Mas o jeito de Brandão era benigno, e sua voz, logo às primeiras palavras, denotava algo que parecia emoção ou, mais simplesmente, embaraço.
— Bom dia, Zé. Seu pessoal vai bem? Tudo legal? Vim aqui cedinho com medo de não encontrar mais você. Careço de um favor seu.
— Vamos ver, seu Brandão.
— Até não queria vir, para não amolar um cristão, mas a patroa insistiu. A patroa disse assim: Procura o Zé Alves que ele atende. O Zé Alves é camarada e compreende essas coisas. Acontece o seguinte, Zé, nós tínhamos lá em casa um cachorro de estimação, o Sentinela, não sei se você reparou nele, nem era cachorro, era um amigo da gente, com perdão do exagero, até parecia um filho de rabo. Criação, quando a gente se apega, é o diabo. Pois o Sentinela morreu ontem de noite.
— Sinto muito, seu Brandão.
— Obrigado. Ele merecia. Mas agora está um caso sério, porque eu não vou jogar o bichinho no lixo nem dar sumiço nele. Tenho de enterrar, não acha? E lá em casa, você sabe, é apartamento de instituto, sem um palmo de terra. Então a patroa lembrou: O Zé Alves tem um quintalzinho, fala com ele.
— Tá certo, seu Brandão, disponha.
O outro agradeceu e saiu afobado para voltar uma hora depois, com um caixotinho fechado e um crioulo munido de enxada. Não quis abrir o caixote, por causa da exalação. Num átimo, a cova estava pronta e o sepultamento se fez. José tinha saído para o batente. Brandão agradeceu muito à senhora dele.
No batente, José ficou pensando aquilo que não tivera tempo de pensar na rapidez da conversa. História esquisita, essa de enterrar cachorro no quintal dos outros. Enfim, cada um com sua mania. Mas à noite, na cama, ideias estranhas lhe afloraram à cabeça. A mulher de Brandão era parteira, tinha fama de fazer anjinho. Era muito possível que… Minha Nossa Senhora, em que burrada me meti. E não dormiu um segundo, pensando naquela coisinha humana no frio da terra, e ele preso, processado, poxa! A mulher tinha o mesmo pensamento negro. Ia dar bode.

No outro dia, José madrugou no distrito e contou ao primeiro sujeito com cara de autoridade que lá encontrou. O sujeito coçou o queixo, indagou aborrecido: “Tem certeza?”. Ele respondeu: “Quer dizer, certeza mesmo não, mas estou quase jurando que ali tem coisa”. Um investigador foi buscar Brandão, que apareceu de cara amarrada, veio também um médico-legista, e a caravana partiu para a ruinha de subúrbio, onde já estava apinhada pequena multidão em frente à casa de Zé Alves. O povo tem radar para esses casos.
Abriu-se a cova, apareceu o caixotinho lambuzado de terra. O mau cheiro não perturba aqueles homens habituados, mas a qualidade do mau cheiro não passou despercebida ao médico. O círculo de curiosos tapou o local da diligência. “Desafasta!” resmungou um investigador. Abriu-se o caixotinho. O doutor se debruçou profissionalmente. Brandão tapou os olhos, apertou os lábios…
Era cachorro.

— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. Companhia das Letras, 2012.

SOBRE O LIVRO
Fala, amendoeira é uma reunião de crônicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do gênero: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. […]”. Porque a crônica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância. O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crônica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa.

FICHA TÉCNICA
Título: Fala, amendoeira
Páginas: 216
Formato: 21.4 x 13.2 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 05/03/2012
ISBN: 978-8535920482
Selo: Companhia das Letras
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.

Saiba mais sobre Drummond:
Carlos Drummond de Andrade – antologia poética
Carlos Drummond de Andrade – entrevista inédita: erotismo – poesia e psicanálise
Carlos Drummond de Andrade – fortuna crítica
Carlos Drummond de Andrade – o avesso das coisas (aforismos)
Carlos Drummond de Andrade – poesia erótica
Carlos Drummond de Andrade – um poeta de alma e ofício

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Saci Wèrè lança single ‘Manginha’, com participação de Flaira Ferro

Com delicadeza e ternura, Saci Wèrè nina o fim do mundo ao lado de Flaira…

18 horas ago

The Fevers e Renato & Seus Blue Caps em celebração à Jovem Guarda no Guairão

Curitiba vai receber dois grandes ícones da música brasileira, em uma noite de nostalgia, emoção…

1 dia ago

Rodrigo Lessa e Edu Neves lançam álbum instrumental ‘Tempo de Samba’

A música instrumental brasileira, em sua vertente carioca, tem como principal trunfo o equilíbrio entre…

2 dias ago

Queremos! traz ao Brasil a saxofonista, compositora e bandleader britânica Nubya Garcia

Saxofonista e compositora britânica, Nubya Garcia se apresenta no Manouche (RJ), e na Casa Natura…

2 dias ago

Jana Linhares lança single ‘Il fait dimanche’, pela Luna Music

Luna Music apresenta “Il fait dimanche”, canção francesa que atravessa o tempo entre delicadeza, memória…

2 dias ago

Dionne Warwick se despede dos palcos com a turnê “Over and Out: A Farewell Tour” em outubro no Brasil

Um dos maiores ícones da música mundial, a seis vezes vencedora do Grammy, Dionne Warwick, anuncia sua…

2 dias ago