LITERATURA

Tempo de viver – Lya Luft

O tom de nossa vida

Se houver um tempo de retorno, eu volto. Subirei, empurrando a alma com meu sangue por labirintos e paradoxos – até inundar novamente o coração.

(Terei, quem sabe, o mesmo ardor de antigamente.) (Mulher no palco, quis escrever um livro pequeno e prático sobre a permanente reinvenção de nós mesmos. E Nele eu disse – antes de tudo para mim mesma: não sejamos demasiadamente fúteis nem medrosos, porque a vida tem de ser sorvida não como uma taça que se esvazia, mas que se renova a cada gole bebido.

Enquanto houver lucidez é possível olhar em torno e dentro de nós: um intervalo que seja entre a correria do cotidiano, os compromissos, o shopping, a tevê, o computador, a lanchonete, a droga, o sexo sem afeto, o desafeto, o rancor, a lamúria, a hesitação e a resignação.

Refletir é transgredir a ordem do superficial. Mas se eu estiver agachado num canto tapando a cara não escutarei o rumor do vento nas árvores do mundo – que eu sempre quis tanto entender mesmo por um só dia, quem sabe o último dia. Nem saberei se o prato das inevitáveis perdas pesou mais do que o dos possíveis ganhos.

Somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo. Estamos nele como as árvores da floresta: uma é atingida em plena maturidade e potência, e tomba. Outra nem chega a crescer, e fenece; outra, velhíssima, retorcida e torturada, quase pede para enfim descansar… mas ainda pode ter dignidade e beleza na sua condição.

Nestas páginas falei da passagem do tempo que aparentemente tudo leva e tudo devolve como as marés, mas que só nos afoga na medida em que permitimos. Falei do tempo que faz nascer e brotar, porém é visto como ameaça e sofrimento – o tempo que precisa ser domesticado para não nos aniquilar.

Falei de perdas e ganhos que dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. Anunciei que precisava encontrar aqui o tom para dialogar com o leitor, assim como todos buscamos o tom segundo o qual queremos – ou podemos – existir.

Pode ser um tom que nem é o nosso, mas falso, imitado; um tom desafinado porque superficial, ou harmonioso por brotar da alma, raiz de nosso desejo, o nosso jeito, a nossa inteira possibilidade. Talvez a gente não o encontre nunca. Algumas pessoas não conseguem seguir seu ritmo pois nem escutam nem compreendem, ocupadas em tapar o sol com a peneira. Outras o descobrem e acompanham os seus movimentos: alegre, sereno, apaixonado, solene, trágico, tedioso e de novo alegre.

Não dançam com o espantalho dos preconceitos e ilusões, mas com sua amante – a vida. Escutar o tom positivo é mais fácil aos 40 anos do que aos 20, aos 60, mais ainda. Imagino que aos 80 tenhamos suficiente silêncio e espaço interior para que ele baixe, se instale e cante.

Volto ao início deste livro, como gosto de fazer: O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é recriar-se a cada momento. Arte e artifício, exercício e invenção no espelho posto à nossa frente ao nascermos. Algumas visões serão miragens: ilhas de algas flutuantes que nos farão afundar. Outras pendem em galhos altos demais para a nossa tímida esperança. Outras ainda rebrilham, mas a gente não percebe – ou não acredita. A vida não está aí apenas para ser suportada ou vivida, mas elaborada.

Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Não é preciso realizar nada de espetacular. Mas que o mínimo seja o máximo que a gente conseguiu fazer consigo mesmo.

Termino o livro e fecho o computador sabendo que por mais que os escritores escrevam, os músicos componham e cantem, os pintores e escultores joguem com formas, cores e luzes -, por mais que o contexto paralelo da arte expresse o profundo contraditório sentimento humano, embora dance à nossa frente e nos convoque até o último fio de lucidez, o essencial não tem nome nem forma: é descoberta e assombro, glória ou danação de cada um.

Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2023.

SOBRE O LIVRO
Mais do que romancista, poeta, cronista e contista, Lya Luft é um gênero literário em si. Perdas e ganhos, narrativa que transita entre a ficção, a crônica e a reflexão, parte de um desejo, primeiro manifestado no premiado O rio do meio, de conversar diretamente com o leitor ― ao pé do ouvido, como a um amigo imaginário, que consegue ouvir a voz dela através das páginas ― sobre os dramas existenciais do ser humano, temas intrínsecos à sua produção literária: dor, morte, tristeza, mas também esperança, família, ternura. O sucesso dos quase um milhão de exemplares vendidos no Brasil e no mundo revela a universalidade da mensagem, o alcance da sensibilidade e a compreensão arguta que a grande escritora possuía da condição humana.

Segundo Nélida Piñon, Lya Luft “ajusta-se às inquietações contemporâneas, compromete-se com o visível e com o que se furta ao nosso exame”. Nesta edição comemorativa dos 20 anos de lançamento de Perdas e ganhos, Lya mais uma vez convida o leitor a compartilhar com ela a experiência de quem compreendeu a teia de perdas e a sucessão de ganhos que compõem o enredo de nossas vidas.

“O que escrevo aqui não são simples devaneios. Sou uma mulher do meu tempo e dele quero dar testemunho do jeito que posso: soltando minhas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza; sobre doença e morte.”

“Uma escrita aberta, franca, poderosa, conversando diretamente com o leitor […] Lya é universal a todas as idades.”- Fabrício Carpinejar, no prefácio deste livro.

FICHA TÉCNICA
Título: Perdas e ganhos
Páginas: 176
Formato: 13.5 x 0.9 x 20.5 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 26/6/2023
ISBN: 978-6555876765
Selo: Record
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.

Saiba mais sobre Lya Luft:

Lya Luft – entrevista
Lya Luft – senhora absoluta de um universo
Lya Luft (crônicas e contos)

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Vitor Araújo e Metropole Orkest lançam álbum ‘Toró’

No disco Toró, o compositor e pianista Vitor Araújo junta-se à Metropole Orkest para fundir…

8 horas ago

Alegrai, um musical circense brasileiro | Do picadeiro ao palco, o circo ganha adaptação teatral no Teatro Carlos Gomes

O espetáculo Alegrai, um musical circense brasileiro estreia dia 1º de outubro, às 19h, no…

11 horas ago

Thiago Soares apresenta “Carmem” no Rio de Janeiro

Um dos artistas brasileiros mais celebrados da dança internacional, Thiago Soares retorna aos palcos do…

17 horas ago

Alice Caymmi e Nina da Costa Reis estreiam videocast “Arruíne-se Comigo”

Alice Caymmi e Nina da Costa Reis transformam inadequação em ousadia no videocast “Arruíne-se Comigo”.…

18 horas ago

Brava Arena Jockey | Capital Inicial, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo são as novas atrações confirmadas

A tão esperada quarta edição da Brava Arena Jockey acontece de 4 de novembro a…

18 horas ago

Manu Lafer lança álbum ‘Outro Mundo’

Manu Lafer resgata 14 canções que sobreviveram a um incêndio no disco “Outro mundo”. Com…

1 dia ago