Vitor Araúo - foto: Manoel Borba
No disco Toró, o compositor e pianista Vitor Araújo junta-se à Metropole Orkest para fundir a tradição sinfônica às pulsações rítmicas do Nordeste. O trabalho equilibra improviso, ancestralidade e a potência poética da música brasileira contemporânea em uma sonoridade vibrante e inovadora.
.
O projeto audiovisual inclui também um filme-concerto dirigido por Paulo Camacho e Yara Ktaishe, com pré-estreias realizadas na Sala São Paulo e no Cinema São Luiz, no Recife. O álbum e o filme estão disponíveis nos canais de YouTube do artista e da Metropole Orkest.
.
Texto de Pietro Scaramuzzo:
Antes de ser um título, TORÓ é um presságio. A palavra vem de raízes indígenas e, em Pernambuco, descreve a tempestade repentina que surge do nada, rasga o céu em minutos e se retira, deixando para trás o cheiro de terra molhada. Nessas gotas, Vitor Araújo mapeia uma geografia de tambores e cordas — ritual e cidade capturados no mesmo relâmpago. O instinto terreno de Villa-Lobos encontra a leveza urbana de Jobim em uma partitura aberta onde a chuva se transforma em música e a música, ao evaporar, torna a ser chuva.
.
Encomendado pelo Holland Festival, Araújo produziu TORÓ como uma suíte de polirritmias e sutis tensões tímbricas, escrita para a Metropole Orkest (regida por Jacomo Bairos) e um pequeno grupo de colaboradores próximos — músicos brasileiros capazes de sustentar tanto o pulso selvagem da percussão popular quanto o senso refinado do diálogo orquestral. Desta vez, o piano recua do centro do palco: torna-se um ostinato discreto, uma base harmônica, um espaço que permite que outros instrumentos respirem.
.
No centro de tudo, um núcleo percussivo de couros e madeiras coloca a obra em movimento. Mauro Refosco, percussionista brasileiro radicado em Nova York há mais de três décadas, traz a precisão da ancestralidade rítmica que o tornou parceiro de David Byrne, Red Hot Chili Peppers e Atoms for Peace — transformando cada figura rítmica em uma topografia que a orquestra atravessa sem perder a fluidez. Aduni e Amendoim, ambos enraizados nas tradições afro-brasileiras de Recife, evocam danças ancestrais e energia ritual. Coco de roda, afoxé, maracatu, boi do Maranhão: um compêndio do Brasil profundo que abre novos caminhos e convoca a tempestade a cada batida de baqueta.
.
A sonoridade é constantemente reinventada por Charles Tixier (bateria, sintetizador, MPC, samples), produtor francês criado na cena experimental de São Paulo (Ava Rocha, Liniker, Tim Bernardes). Seus elementos eletrônicos não são meros adereços; eles abrem novos espaços.. E dentro dessa textura, o guitarrista Felipe Pacheco Ventura se equilibra entre linhas de baixo e frases melódicas, entre a ressonância das cordas e uma delicadeza pop — uma ponte que permite à orquestra roçar na canção sem adentrá-la por completo.
A voz de Araújo — um falsete que flutua como vapor sobre os tambores — não busca o virtuosismo; busca a altitude. É aí que TORÓ encontra sua gramática: construída sobre ritmo e canto, sem uma narrativa explícita. A linhagem brasileira — o sopro orquestral de Villa-Lobos, a clareza harmônica de Jobim — encontra um presente poroso: reflexos de Sakamoto ou uma melancolia à moda do Radiohead que não é confrontadora, mas uma qualidade de luz.
.
Em uma das faixas, um pequeno rádio de pilha se torna um instrumento completo, enquanto um órgão de tubos amostrado é fragmentado em cacos sonoros que Tixier monta e rearranja como um vitral em mutação. Pela orquestra, doze gestos para cordas se desdobram — amplos glissandos oferecidos ao próprio tempo, na fronteira entre partitura e acaso. Esta é uma música onde a chuva não apenas cai: ela circula, evapora e se condensa novamente.
.
Toda a obra foi gravada ao vivo no Holland Festival em 12 de junho de 2024. Vinte músicos no palco, dois dias de ensaio unindo a orquestra holandesa à percussão brasileira, o que exige um delicado equilíbrio de dinâmicas. A gravação carrega o fôlego e o risco de um concerto ao vivo — a textura humana do som mantida intacta. E há uma história que já parece mito: na manhã anterior ao show, uma infecção súbita e violenta no dedo da mão direita do artista. Os médicos aconselharam o festival a cancelar a apresentação. O artista recusou e reescreveu suas próprias partes de piano durante a tarde para fazê-las funcionar com nove dedos. A ferida tornou-se parte do gesto — uma tempestade que passa e altera a luz.
.
Se a Metropole Orkest oferece a massa elástica — décadas de jazz, pop cult e trilhas sonoras para o cinema, com colaborações que vão de Brian Eno a Jacob Collier —, o grupo de Araújo traz a direção e a fricção. O resultado não soma tradições — faz com que elas conversem até que as fronteiras desapareçam.
.
Nascido no Recife e prodígio precoce, Vitor Araújo transitou por diversos palcos e disciplinas: duos com Caetano Veloso, João Donato, Naná Vasconcelos; um álbum com Arnaldo Antunes (‘Lágrimas no Mar’), que o levou em turnê pelo mundo; e outro, ‘Levaguiã Terê’, trabalho solo que o consolidou como compositor sinfônico. Sua atuação se estende também ao cinema internacional (“Que Horas Ela Volta?”, e o indicado ao Oscar “Democracia em Vertigem”) e, mais recentemente, a uma intensa presença teatral na Europa (Odéon–Théâtre de l’Europe, Comédie de Genève, Avignon, Biennale di Venezia).
.
Com TORÓ, ele reúne todas essas experiências em um único gesto — onde cidade e ritual, eletrônica e tradição, orquestra e couro de tambor se espelham na mesma correnteza.
.
Quando a música esvanecia, o cheiro permanece: ombros úmidos, o tremor das cordas como gotas de chuva no vidro da janela, um rádio murmurando no quarto ao lado. A chuva para; o mundo — sutil e silenciosamente — já é outro.
– Pietro Scaramuzzo (Jornalista musical nascido em Matera (Itália). Atualmente baseado em Paris, escreve para a revista Musica Jazz. Pesquisador de música brasileira e autor do livro ‘Tom Zé – O Último Tropicalista’ – 2019) / Original em inglês aqui.
Disco ‘Risco’ • Vitor Araújo e Metropole Orkest • Selo Risco • 2026
Músicas / compositores
1. Toque N.1 (Vitor Araújo e Vinícius Sarmento) 08:21
2. Toque N.3 (Vitor Araújo) 08:21
3. Toque N.2 (Vitor Araújo) 06:26
4. Canto N.5 (Vitor Araújo) 05:44
5. Canto N.1 (Vitor Araújo) 10:34
6. Toque N.4 (Vitor Araújo) 04:26
7. Toque N.6 (Vitor Araújo) 07:11
8. Canto N.6 (Vitor Araújo) 06:38
9. Canto N.3 (Vitor Araújo) 07:01
– ficha técnica –
Vitor Araújo — Piano, sintetizador, voz, rádio e samples | Aduni Guedes — Percussão | Amendoim — Percussão | Charles Tixier — Bateria, MPC e samples | Felipe Pacheco Ventura — Guitarra elétrica | Mauro Refosco — Percussão | Orquestra / Metropole Orkest – 1ºs Violinos: Vera Laporeva, Jasper van Rosmalen, Sarah Koch, Pauline Terlouw; 2ºs Violinos: Ewa Zbyszynska, Willem Kok, Herman van Haaren, Leonid Nikshin; Violas: Mieke Honingh, Isabella Petersen, Iris Schut; Violoncelos: Joel Siepmann, Jascha Albracht; Contrabaixo: Erik Winkelmann / Regente: Jacomo Bairos || Produção musical — Vitor Araújo | Arranjo de cordas — Mateus Alves e Vitor Araújo | Orquestrações: Vitor Araújo, Mateus Alves e Felipe Pacheco Ventura | Arte / Projeto gráfico — Praia Preta | Engenheiros de gravação — Pedro Vitturi e Marc Shots | Mixagem e masterização — Martin Scian | Gravado ao vivo no Bimhuis, Amsterdã / Concerto encomendado pelo Holland Festival | Fotos: Manoel Borba | Selo: Risco | Distribuição digital: Altafonte | Formato: CD digital / LP | Ano: 2026 | Lançamento: 8 de abril | ♪Ouça o álbum: clique aqui | ♩ Bandcamp: clique aqui | ♪Assista audiovisual aqui.
.
.
.
.
Série: Discografia Brasileira / Música instrumental / Música Contemporânea / álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske/Templo Cultural Delfos
O espetáculo Alegrai, um musical circense brasileiro estreia dia 1º de outubro, às 19h, no…
Um dos artistas brasileiros mais celebrados da dança internacional, Thiago Soares retorna aos palcos do…
Alice Caymmi e Nina da Costa Reis transformam inadequação em ousadia no videocast “Arruíne-se Comigo”.…
A tão esperada quarta edição da Brava Arena Jockey acontece de 4 de novembro a…
Manu Lafer resgata 14 canções que sobreviveram a um incêndio no disco “Outro mundo”. Com…
A inédita “A Água Que Faltou no Céu”, que chega às plataformas no dia 17…