Vinicius de Moraes (maio de 1972, aos 58 anos)- foto: Osmar Gallo
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…
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Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
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Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
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Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
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Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
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Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
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Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
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Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
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E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
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Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…
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Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
[15/4/1962]
— Vinicius de Moraes, no livro “Jardim Noturno – poemas inéditos“. Companhia das Letras, 1993.
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SOBRE O LIVRO
O vasto acervo, legado por Vinicius de Moraes, de poemas inéditos, hoje nos arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa, se parece com um jogo de armar. Debruçada sobre essa montanha de versos, a romancista Ana Miranda pinçou, com a delicadeza e o rigor que os leitores já se acostumaram a encontrar em suas ficções históricas, as preciosidades que compõem este Jardim noturno. Montado o jogo, aparece não só a força de sua poesia, mas um precioso retrato do poeta.O livro deve ser lido, antes de tudo, com um olho fixado na figura de Vinicius. Se esses são poemas que ele preferiu não publicar, ou não teve tempo de publicar, é o que menos importa. São, de fato, versos de extrema intimidade. Contorções interiores, retratos das paisagens por onde circulou, homenagens a amigos mortos, sonetos moldados pelo calor do transitório, confissões cifradas como sonhos noturnos.Há preciosidades como “O haver”, de 1962, poema que abriria O deve e o haver, livro em que Vinicius de Moraes trabalhou durante três décadas, e que o poeta morreu sem publicar. E que ficou perdido para sempre, já que as pistas deixadas no acervo de manuscritos da Casa de Rui não bastam para a aventura de sua reconstituição.Poemas mais remotos que traçam um perfil de mocidade, em que aparecem as fixações religiosas, as primeiras paixões intelectuais e os fantasmas de família. Versos de amor, inspirados em musas imaginárias ou em mulheres de carne e osso, igualadas pela mesma febre. E poemas, por fim, dedicados à última de todas as musas, que rondou desde a juventude – com uma incômoda força sedutora – o coração do poeta: a morte.Vinicius de Moraes se afirma, neste livro, como um poeta dos três temas fundamentais que lhe foram legados pela religião – vida, paixão e morte – e que ele soube, sem deixar que o viço se perdesse, transportar da metafísica para o mundo real. Um poeta indiferente a modismos, a escolas, a preceitos literários, a lutas de prestígio. Um poeta para quem os versos são, antes de tudo, um terreno para o cultivo da paixão.
Prêmio Jabuti de 1994 de Melhor Livro de Poesia
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FICHA TÉCNICA
Título: Jardim noturno
Páginas: 160
Formato: 20.8 x 12.8 x 1 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 08/11/1993 (1ª edição)
ISBN: 978-8571643376
Selo: Companhia das Letras
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