Sueddeutsche Zeitung Photo / Alamy Stock Photo/Reprodução
Hesitações do lado de fora da porta
.
1
Estou contando as mentiras erradas,
elas sequer são úteis.
As mentiras certas pelo menos
seriam chaves, elas abririam a porta.
A porta está fechada; as cadeiras,
as mesas, a tigela de aço, eu
amassando pão na cozinha, esperamos
do lado de fora.
.
2
Também era mentira,
que eu poderia entrar se quisesse.
De quem é essa casa
onde nós dois vivemos
sem nenhum dos dois ter a posse
Como se pode esperar
que eu ponha as coisas do meu jeito aqui
Eu poderia entrar se quisesse,
esse não é o ponto, eu não tenho tempo,
Eu deveria me ocupar de outra coisa
além de você.
.
3
O que você quer de mim
você que anda na minha direção sobre o piso de tábuas
seus braços abertos, seu coração
luminoso entre as costelas
em sua cabeça uma coroa
de sangue reluzente
Este é o seu castelo, esta é sua porta de metal,
estas são suas escadas, seus
ossos, você distorce todas as possíveis
dimensões em suas próprias
.
4
Versão alternativa: você avança
pelas ruas cinzentas desta casa,
as paredes se despedaçam, os pratos
derretem, as videiras crescem
no refrigerador descongelando
Digo, deixe-me
sozinha, este é o meu inverno,
Ficarei aqui se eu quiser
Você não escutará
as resistências, você me cobre
com bandeiras, uma estação
vermelho-escura, você apagou de mim
todas as outras cores
.
5
Não me deixe fazer isso com você,
você não é aquela outra pessoa,
você é quem é
Abandone as assinaturas, os falsos
corpos, este amor
que não combina com você
Isso não é uma casa, não há portas,
caia fora enquanto está
aberta, enquanto você ainda pode
.
6
Se inventarmos histórias um para o outro
sobre o que há no quarto
nunca teremos que ir lá dentro.
Você diz: minhas outras esposas
estão lá, elas são todas
lindas e felizes, elas me amam, por que
perturbá-las
Eu digo: é só
um armário, minha coleção
de envelopes, meus ovos
pintados, meus anéis
Em seus bolsos as mulheres fragilizadas
pendem em seus anzóis, desmembradas
Pendurada em meu pescoço uso
a cabeça do amado, prensada
entre vidros e metais como uma flor colhida.
.
7
Nós deveríamos entrar nele
juntos/ Se eu entrar
com você jamais sairei
Se esperar do lado de fora posso preservar
esta casa ou o que sobrar
dela, posso manter
minhas velas, meus parentes mortos
minhas condições
mas você vai entrar
sozinho, qualquer
caminho é perda
Diga-me para que isso
No quarto nós nada encontraremos
No quarto nos encontraremos
.
———————-———————-———————-———————
Hesitations outside the door
.
1
I’m telling the wrong lies,
they are not even useful.
The right lies would at least
be keys, they would open the door.
The door is closed; the chairs,
the tables, the steel bowl, myself
shaping bread in the kitchen, wait
outside it.
.
2
That was a lie also,
I could go in if I wanted to.
Whose house is this
we both live in
but neither of us owns
How can I be expected
to find my way around
I could go in if I wanted to,
that’s not the point, I don’t have time,
I should be doing something
other than you.
.
3
What do you want from me
you who walk towards me over the long floor
your arms outstretched, your heart
luminous through the ribs
around your head a crown
of shining blood
This is your castle, this is your metal door,
these are your stairs, your
bones, you twist all possible
dimensions into your own
.
4
Alternate version: you advance
through the grey streets of this house,
the walls crumble, the dishes
thaw, vines grow
on the softening refrigerator
I say, leave me
alone, this is my winter,
I will stay here if I choose
You will not listen
to resistances, you cover me
with flags, a dark
red season, you delete from me
all other colours
.
5
Don’t let me do this to you,
you are not those other people,
you are yourself
Take off the signatures, the false
bodies, this love
which does not fit you
This is not a house, there are no doors,
get out while it is
open, while you still can
.
6
If we make stories for each other
about what is in the room
we will never have to go in.
You say: my other wives
are in there, they are all
beautiful and happy, they love me, why
disturb them
I say: it is only
a cupboard, my collection
of envelopes, my painted
eggs, my rings
In your pockets the thin women
hang on their hooks, dismembered
Around my neck I wear
the head of the beloved, pressed
in the metal retina like a picked flower.
.
7
Should we go into it
together/ If I go into it
with you I will never come out
If I wait outside I can salvage
this house or what is left
of it, I can keep
my candles, my dead uncles
my restrictions
but you will go
alone, either
way is loss
Tell me what it is for
In the room we will find nothing
In the room we will find each other
.
— Margaret Atwood, no livro “Políticas do poder: poemas”. tradução Stephanie Borges. Rocco, 2020
***
SOBRE O LIVRO
Publicado originalmente em 1971, Políticas do poder, de Margaret Atwood, surpreendeu os leitores ao apresentar a imprescindível dança entre uma mulher e um homem. E ainda surpreende hoje, sendo tão iconoclasta quanto há mais de quarenta anos.
Ao mesmo tempo, seus poemas ocupam esferas de foro íntimo, político e mítico. Neste livro, Atwood nos faz perceber que podemos pensar que nossas dicotomias pessoais são únicas, mas na verdade elas são múltiplas e universais.
Claro, direto, amargo e implacável, os poderes poéticos da autora de O conto da aia estão afiados rumo à perfeição neste texto seminal ― e inédito no Brasil ― dos primeiros anos de sua carreira literária.
FICHA TÉCNICA
Título: Políticas do poder: poemas
Páginas: 144
Formato: 14 x 2 x 21 cm
Acabamento: brochura
Lançamento: 16/11/2020 (1ª edição)
ISBN: 978-6555320381
Tradução: Stephanie Borges
Selo: Rocco
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