Zezé Gonzaga: a faxineira das canções, por Daniela Aragão

Nos idos de 2006 Sueli Costa lançava seu site, o pequeno salão de comemorações contava com a presença de alguns convidados ilustres como a cantora Zezé Gonzaga. Zezé se aproximou afetuosamente de minha tia e começaram a conversar sobre uma tal música de tia Sônia que ela havia defendido num longínquo festival. Na ocasião eu ainda não conhecia a imensidão de beleza do canto de Zezé e só me volta na cabeça a frase de minha tia: “- Vá ouvir a Zezé, ela canta pracaramba, ela canta lindo”.
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Não me sai dos ouvidos o belíssimo disco “Sou apenas uma senhora que ainda canta” que traz a intensidade do canto de Zezé Gonzaga acompanhada por João Lyra, Cristovão Bastos, Jorge Helder, Hugo Pilger e Ricardo Pontes, com a direção musical e arranjos de Cristovão Bastos. O repertório traz clássicos revisitados por essa voz que reinaugura cada canção como fruto fresco, a exemplo da tão bela “Todo o sentimento”, de Cristovão Bastos e Chico Buarque. Ouvi umas cinco interpretações distintas dessa obra prima e até o exato momento considero a gravação de Zezé a mais bela. A cantora capta com exatidão a densidade dos versos sem pesar um segundo sequer, o colorido de seu timbre passeia pelo desenho melódico dando ênfase a magnitude da canção: Preciso não dormir/até se consumar/ o tempo/ da gente/Preciso conduzir/Um tempo de te amar/Te amando devagar/E urgentemente/Pretendo descobrir/No último momento/Um tempo que refaz/O que desfez/Que recolhe todo o sentimento/ E bota no corpo uma outra vez”. O aveludado da composição se reveste de intenso substrato desde a introdução do piano de Cristovão cuja singularidade só traz mais beleza a sua própria invenção.
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“Vida de artista”, de Sueli Costa na voz de Zezé Gonzaga ganha uma interpretação com nuances de definitiva. Os versos de Abel Silva outrora cantados por Gal Costa no antológico álbum Água Viva renascem na voz de Zezé com uma dimensão mais dramática. A vida do artista no “mercado comum da vida humana”, “Cada um que conhece sua sede é artista na vida ou na morte”. Zezé é uma cantora moderna, mas que traz o legado das grandes vozes pré bossanovistas, ao ouvi-la cantar me volta aos ouvidos a memória da tradição do canto de Dalva, Angela Maria e Elizeth.

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Zezé Gonzaga

“Faxineira das canções”, composição de Joyce Moreno, consagrada na voz de Elizeth Cardoso, toma uma versão a altura no canto de Zezé que é uma espécie de ourives da palavra e do som: “Assim como quem cuida de uma casa com capricho e com carinho/cuido bem da minha voz/que saia limpa e clara da garganta/ e voe sempre mais veloz/ lavando o coração de quem escute/ feito água cristalina/aliviando toda dor/tornando mais bonita a vida rude faxineira do amor”. Versos que consistem numa espécie de metalinguagem do carinho no tratamento da voz propagadora de afeto, ternura e amor. Com propriedade Zezé Gonzaga, essa mulher despida de todas as impurezas reina plena pelo universo das canções e humildemente pede licença para que cante aquilo que conhece e reconhece ser de sua afinidade, dignidade e competência.
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Dia desses revendo um programa musical exibido na TV e comandado pela Joyce Moreno, tendo a ilustre Zezé Gonzaga como convidada, emocionei-me com a irmandade e comunhão entre as duas artistas. Zezé ali era uma espécie de professora devido à diferença geracional a comungar talento e sensibilidade com a grandiosa Joyce. É emocionante sentir quando a música atravessa gerações e entrelaça criadoras. Duas mulheres cantando o que de mais bonito se tem no cancioneiro nacional. Certamente duas faxineiras das canções.

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Cristovão Bastos, Zezé Gonzaga e Hermínio Bello de Carvalho – foto Leo Aversa

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Daniela Aragão – foto: acervo pessoal

Daniela Aragão (1975) é doutora em literatura brasileira pela Puc-Rio, cantora e pesquisadora musical. Há mais de duas décadas desenvolve trabalhos sobre a história do cancioneiro brasileiro, com trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Gravou em 2005 o disco “Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso”. Há mais de uma década realiza entrevistas com músicos de Juiz de Fora e de estatura nacional. Entre os entrevistados estão: Sergio RicardoRoberto MenescalJoyce MorenoDelia Fischer, Márcio Hallack, Estêvão Teixeira, Cristovão Bastos, Robertinho Silva, Alexandre Raine, GuingaAngela Ro RoLucinaTuríbio Santos… Seu livro recém lançado “De Conversa em Conversa” reúne uma série de crônicas publicadas em jornais e revistas (Cataguases, AcheiUSA, Suplemento Minas, O dia, Revista Revestrés, Cronópios…) ao longo de quinze anos. Os textos de Daniela Aragão são reconhecidos no meio musical devido a sua considerável marca autoral e singularidade, cuja autora analisa minuciosamente e com lirismo obras de compositores e cantores como Gilberto GilCaetano Veloso, Chico Buarque, Rita Lee. O livro possui a orelha escrita pelo poeta Geraldo Carneiro, prefácio do pesquisador musical e professor da Puc-Rio Júlio Diniz, contracapa da cantora e compositora Joyce Moreno e do pianista e arranjador Cristovão Bastos. Irá lançar em 2022 seu livro “São Mateus – num tempo de delicadezas”.  Colunista da Revista Prosa, Verso e Arte.
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