Instrumental

Walmir Gil Quinteto lança álbum ‘João Donato, sempre presente’

João Donato, sempre presente
Tom Jobim, o grande maestro e compositor da bossa nova, chamava-o de gênio. Craques do jazz, como Horace Silver, Bud Shank e Cal Tjader, estavam entre seus declarados admiradores. Já entre os astros e estrelas da música popular brasileira, havia quase uma unanimidade: de compositores, como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Marcos Valle, a seus intérpretes, como Nana Caymmi, Gal Costa e Marisa Monte, foram inúmeras as declarações de amor à música de João Donato (1934-2023).
.
Quem se depara com a extensa discografia e o grande número de parcerias musicais, que esse mestre em unir simplicidade e beleza nos deixou, não imagina as dificuldades enfrentadas por ele durante as primeiras décadas de sua trajetória. Foi por essa razão que Donato decidiu deixar o Brasil, em outubro de 1959: frustrado, queria tentar a carreira nos Estados Unidos, com a esperança de que sua música pudesse ser mais compreendida do que em seu país.

“Eu não conseguia tocar, nem dar canja, porque era tudo muito difícil”, me disse Donato, em 2006, durante um bate-papo aberto à plateia do Auditório Ibirapuera, em São Paulo. “Eu precisava esperar até às 3h ou 4h da manhã, para que o Milton Banana e outros colegas me dissessem que eu já podia tocar meu piano. O público só queria ouvir música cantada ou aquele sambinha ‘telecoteco’. Eu achava tudo aquilo horroroso”, desabafou o precursor da bossa nova.
.
Em Nova York, Donato tentou tocar piano em bares e clubes de jazz, mas a concorrência também era muito dura. Seu plano B foi se aproximar dos músicos latinos – o primeiro emprego que conseguiu era de pianista da banda do percussionista cubano Mongo Santamaria. Uma curiosidade que poucos sabem: naquela época, Donato também tocava trombone. Como andava com esse instrumento a tiracolo, logo começou a dar canjas em shows da banda La Perfecta, do pianista Eddie Palmieri, tocando mambos, cha-cha-chás e pachangas, às segundas-feiras, no bairro do Bronx.

O talento e a originalidade de Donato acabaram vencendo as adversidades que encontrou na América do Norte. Além de estabelecer parcerias musicais com outros mestres da música afro-cubana, como Tito Puente, Johnny Martinez e Ralph Peña, o pianista e, eventualmente, trombonista brasileiro também tocou e fez gravações com diversos músicos de jazz de alto calibre, como Bud Shank, Ron Carter, Ernie Watts e Don Menza, entre outros.
.
Quando a saudade o levou a se decidir pelo retorno ao Brasil, em 1972, Donato trouxe consigo algo que nem poderia ter imaginado: a enriquecedora influência da música afro-cubana e latina, que passou a fazer parte de seu universo musical. Também se mostrou um profissional mais maduro para realizar uma necessária guinada musical em sua carreira, para que ela pudesse decolar, enfim, no Brasil.

Quem indicou a ele o caminho das pedras foi o cantor Agostinho dos Santos (1932-1973), morto tragicamente, meses depois, em um acidente aéreo. Donato já estava gravando o álbum “Quem É Quem” (lançado em 1973), que seria mais um de seus discos com temas instrumentais, quando o intérprete paulistano sugeriu a inclusão de letras naquelas composições, para que ele e outros cantores pudessem gravá-las.
.
“Foi uma grande sacada. Saí correndo atrás de quem fizesse as letras”, comentou Donato, na mesma conversa que tivemos, em 2006. A boa repercussão desse álbum, que já trazia futuros sucessos do cancioneiro de Donato, como “Até Quem Sabe” (parceria com o letrista Lysias Ênio, seu irmão) e “Chorou, Chorou” (com letra de Paulo César Pinheiro), mostrou que ele encontrara, finalmente, o que faltava para que sua música pudesse ser apreciada por uma parcela bem maior de ouvintes.
.
Os versos de grandes letristas e músicos brasileiros, como Gilberto Gil (“A Paz”, “Bananeira”, “Lugar Comum” e “Emoriô”), Caetano Veloso (“A Rã”, “Nua Ideia” e “Surpresa”), Chico Buarque (“Cadê Você”), Abel Silva (“Simples Carinho” e “Brisa do mar”), Paulo Sérgio Valle (“Quem Diz que Sabe”) e João Gilberto (“Minha Saudade”), entre outros, abriram as portas para que a beleza e a simplicidade da música de João Donato conquistassem, enfim, o reconhecimento que ele já merecia, há muito tempo, em seu país.

Walmir Gil – foto: André Jung

Walmir Gil
Trompetista, arranjador e educador musical, Walmir Gil já teria garantido um lugar especial na história da música popular brasileira por ser um dos fundadores da cultuada Banda Mantiqueira, com a qual se apresenta há mais de três décadas. Essa original big band de São Paulo, criada em 1991, é motivo de orgulho para os paulistas e fãs de outros estados do país que apreciam música instrumental de alto quilate e jazz com sotaque brasileiro.
.
A Mantiqueira é a cereja do bolo, na longa folha de serviços prestados por Gil à música brasileira e ao jazz, em suas cinco décadas de carreira. Nos anos 1980, ao integrar o naipe de metais da afiada big band do 150 Night Club do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, ele acompanhou astros do jazz, como Anita O’Day, Benny Carter, Bobby Short e Paquito D’Rivera, entre outros.
.
Na década de 1990, Gil fez parte da suingada banda que tocava com Djavan em suas turnês, assim como acompanhou nos palcos outros grandes intérpretes e compositores da música brasileira, como Caetano Veloso, Gal Costa, Rosa Passos, João Bosco, César Camargo Mariano, Fafá de Belém, Simone e Milton Nascimento. Já neste século, além de gravar dois discos como solista (“Passaporte” e “Novas Histórias”) e de defender seu mestrado em música pela Unicamp, ele ministrou centenas de workshops e oficinas de trompete pelo país adentro.
.
A afinidade de Gil com a música de Donato remonta à década de 1970, quando já tocava um arranjo de “Lugar Comum”, em bailes na cidade de Santos, no litoral paulista. “As músicas que você gosta de tocar sempre serão tocadas com o coração”, diz ele, explicando que teve a ideia de homenagear Donato, em um disco com arranjos instrumentais de suas composições, não só por admirá-lo como músico e compositor, mas também pelo prazer que sente ao tocar essas músicas.

“Fui convidado a tocar com ele algumas vezes, mas eu sempre estava viajando. Perdi a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente”, lamenta Gil, que diz apreciar a música de Donato, especialmente, por sua simplicidade. “Ele era um cara muito simples, que não usava uma harmonia complexa, mas conseguia transmitir o que queria. Sempre gostei muito dele”.
.
Elogiando também o suingue de Donato, ao comentar as afinidades que tem com seu homenageado, Gil menciona o princípio minimalista “menos é mais”, que já foi adotado na arquitetura, no design e em diversos campos artísticos. “É como a música do Miles Davis”, compara o músico paulista, referindo-se ao genial trompetista e compositor norte-americano, outra de suas referências musicais.

Da esquerda para direita – Bruno Cardozo – Cuca Teixeira – Caro Cohen – Walmir Gil – Carlinhos Noronha – Crédito: André Jung

O disco: simplicidade com temperos afro-latinos
Para as gravações do álbum, Gil convocou seu Quinteto Afro Latin Jazz, que destaca outros três craques da cena instrumental e jazzística de São Paulo: o tecladista Bruno Cardozo, o baterista Cuca Teixeira e o baixista Carlinhos Noronha, que já tocam com Gil há mais de vinte anos. Mais recente no grupo, a percussionista argentina Caro Cohen traz muita energia e intimidade com o rico universo dos ritmos afro-cubanos e da música latina.
.
“A ideia é temperar a música do Donato com ritmos afros e latinos”, diz ele, sintetizando o conceito do álbum. Um saboroso exemplo dessa receita sonora é o arranjo de “Emoriô”. Essa faixa é introduzida pela sonoridade grave e etérea do clarone do convidado Nailor Proveta, outro antigo parceiro de Gil e fundador da Banda Mantiqueira. Na sequência, a clave cubana e a percussão de Caro Cohen criam uma atmosfera de polifonia tribal, em ritmo de rumba.
.
A doce “Lugar Comum” começa com sons de água corrente, como se o quinteto estivesse na beira de um rio. Caro, a percussionista, puxa um hipnótico ritmo de guaguancó e, ao fundo, Gil sopra a conhecida melodia de maneira suave, como se ela flutuasse. Na seção de solos, tanto o trompetista como Bruno Cardozo (piano elétrico) e Carlinhos Noronha (baixo) soam bem jazzísticos.
.
Outro clássico de Donato, a dançante “Bananeira” é introduzida por um breve solo do baterista Cuca Teixeira. Nesta faixa, Gil recebe outro convidado especial: o trombonista François de Lima, também seu parceiro na Mantiqueira. “Nós tocamos juntos há 58 anos”, festeja o trompetista. E chama atenção para um detalhe bem-humorado de seu arranjo: a primeira parte da melodia surge com o ritmo alterado, “com um pé quebrado”, segundo ele, “como se escorregasse numa casca de banana”.
.
Composição de Donato, que deu título a seu último disco, “Blue Changa” estimulou Gil a fazer um segundo convite a Proveta. “Essa música foi inspirada em ‘Night in Tunisia’, aquele clássico do bebop. Coloquei um ritmo de cha-cha-chá ali no meio e chamei o Proveta para tocar sax alto. Ele mandou muito bem no bebop. Proveta é um grande músico”, elogia o líder, dizendo que gosta de compartilhar seus melhores trabalhos com os amigos. “O François e o Proveta são brothers, meus irmãos. A gente morou junto durante 17 anos”, relembra.

Um músico de jazz poderia até chamar a canção “Até Quem Sabe” de balada, mas no suave arranjo de Gil, que a interpreta com elegância e emoção contida, ela soa como um romântico bolero, especialmente pelo ritmo e pela sonoridade das congas de Caro. Já em “Minha Saudade”, o pianista Bruno Cardozo sugere na introdução o andamento lento de uma balada, mas o ritmo e o andamento logo mudam: o que se ouve é um suingado samba, sem exageros ou histrionismos.
.
Walmir Gil já tocava “Quem Diz Que Sabe”, no final dos anos 1970, quando integrava o naipe de metais da orquestra regida pelo maestro Branco, na casa noturna Ópera Cabaré, em São Paulo. Foi naquela época que ele se inspirou para criar o arranjo, em andamento mais rápido. “Optei por fazer assim, com uma influência latina, para o disco não ficar arrastado, com outra balada lenta”, justifica.
.
Uma das canções mais líricas de Donato, “A Paz” é a única faixa do álbum sem improvisos mais extensos. “A melodia fala por si só”, justifica Gil, que esboça já ao final da gravação uma breve citação de “A Child Is Born”, clássica balada do repertório jazzístico, assinada pelo trompetista Thad Jones. Em tempo de guerras e tantas mortes sem sentido, a mensagem pacifista de Gil também merece aplausos, nesta bela homenagem ao grande João Donato. Que sua música continue presente em nossos ouvidos e corações.
—————-
*Carlos Calado é jornalista e crítico musical, autor dos livros “O Jazz como Espetáculo” e “Tropicália: Uma Revolução Musical”, entre outros. Escreveu durante três décadas para a “Folha de S. Paulo”. Desde 2009 escreve em seu blog Música de Alma Negra

Capa do disco ‘João Donato, sempre presente’ • Walmir Gil Quinteto • Selo Independente/ dist. Tratore • 2025

Disco João Donato, sempre presente’ • Walmir Gil Quinteto • Selo Independente/ dist. Tratore • 2025
Canções / compositores
1. Emoriô (João Donato e Gilberto Gil)
2. A paz (João Donato e Gilberto Gil)
3. Que diz que sabe (João Donato e Gilberto Gil)
4. Bananeira (João Donato e Gilberto Gil)
5. Lugar comum (João Donato e Gilberto Gil)
6. Até quem sabe (João Donato e Lysias Ênio)
7. Minha saudade (João Donato e João Gilberto)
8. Bluchanga (João Donato)
– ficha técnica –
Walmir Gil – trompete e flugel-horn | Bruno Cardozo – piano elétrico | Carlinhos Noronha – baixo elétrico | Cuca Teixeira – bateria | Caro Cohen – congas, cajón peruano, campana, bongô | Convidados: Nailor Proveta – sax alto e clarone | François de Lima – trombone | Coro: Caro Cohen; Daniela Volcànica; Marcos Khoriati e Walmir Gil | Arranjos e produção musical: Walmir Gil | Produção artística: Walmir Gil, Carlos Calado e Luciana Machado | Produção executiva: Luciana Machado | Gravado no BRC Estúdio, São Paulo/SP, em 3, 4, 6 e 7 de março de 2025 | Gravação, mixagem e masterização: Luiz Paulo Serafim | Textos: Carlos Calado | Fotografia: André Jung | Assistente de fotografia: Leonardo Marco | Arte: Paolo Barbera | Selo: Independente | Distribuição digital: Tratore | Formato: Vinil e digital | Ano: 2025 | Lançamento: 31 de outubro | ♪Ouça o álbum: clique aqui.

Walmir Gil – foto: André Jung

> Siga: @gilwalmir / @instituto.joaodonato / @joao_donato

Série: Discografia da Música Brasileira / Música instrumental / Jazz brasileiro / Jazz latino e afro-cubano / Álbum
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Marinho Boffa lança álbum ‘Oferenda’, celebrando Luiz Eça

Sétimo álbum de Marinho Boffa, Oferenda celebra os 90 anos do nascimento de Luiz Eça,…

2 dias ago

Maria Luiza Jobim lança álbum ‘Rosa no Céu’

Chegou em todas as plataformas digitais “Rosa no Céu”: Maria Luiza Jobim, seu terceiro álbum…

2 dias ago

Guinga lança EP ‘Catonho’

Guinga comemora 76 anos com lançamento de 'Catonho'. EP percorre paisagens afetivas do Rio de…

2 dias ago

Angela Ro Ro inspira coletânea de contos e poemas lançada em São Paulo

Volume da coleção “Leia esta canção” reúne 41 autores em homenagem a uma das vozes…

2 dias ago

Pedro Luís estreia videoclipe ‘Vem Amar Comigo’

Estreia no Youtube o novo videoclipe de Pedro Luís. A música “Vem Amar Comigo” (Pedro…

2 dias ago

Pedro Miranda e Forró da Gávea lançam álbum ‘Amor Verdadeiro’

Álbum de estreia do coletivo recebe Francis Hime, Mônica Salmaso, Moreno Veloso, Moyséis Marques, Teresa…

2 dias ago