Tudo é canção, Tudo é invenção, Tudo é criatividade, Tudo é swing, Tudo é cor, Tudo é ritmo, Tudo é sensação, Tudo é tempo, Tudo é chegada, Tudo é saída, Tudo é noite, Tudo é dia, Tudo é calor, Tudo é amor, Tudo é precisão, Tudo é sabedoria, Tudo é alegria, Tudo é leveza, Tudo é coragem, Tudo é ousadia, Tudo é impressão, Tudo é azul, Tudo é hot, Tudo é cool, Tudo é lirismo, Tudo é harmonia, Tudo é fantasia, Tudo é Monet, Tudo é bateria, tudo é Tutty, Tudo é água, Tudo é luz, Tudo é flor, Tudo é jardim, Tudo é mar, Tudo é chuva, Tudo é lágrima, Tudo é sorriso, Tudo é moderno, Tudo é único, Tudo é Brasil, Tudo é mundo, Tudo é diversão, Tudo é melodia, Tudo é voo, Tudo é viagem, Tudo é salto,  Tudo é expansão, Tudo é parceria, Tudo é amizade, Tudo é João, Tudo é Tom, Tudo é textura, Tudo é dinâmica, Tudo é Rodolfo, Tudo é voz, Tudo é canto, Tudo é afinação,  Tudo é delicadeza, tudo é beleza, tudo é: Joyce Moreno

“Tudo” é o nome tão pequeno e tão amplo que conduz o álbum de Joyce Moreno lançado pela gravadora Biscoito Fino. A capa em fundo verde emoldura  a expressão suave da face da artista que navega por ritmos, versos e exerce seu grande dom que é a inventividade. A música criativa brasileira é seu elemento de permanente invenção e reinvenção.

A faixa de abertura inteiramente de Joyce traz uma espécie de jogo, palavra puxa palavra cujas impressões sobrepostas criam um mosaico impressionista . Sensações, percepções, estados do instante do sentir afloram em Boiou: “Vitória régia bóia na lagoa/ Lá no alto a pipa voa/ Flutuando no ar/ Beira de rio, boia uma canoa/ Dentro dela uma pessoa/ Que não sabe nadar/ Boiou…” O caráter sinestésico da composição da letra casa-se com a liberdade sonora em que Joyce exerce seu dom para passear ritmicamente.

Ao se ouvir algum  disco da cantora um dos caminhos de audição é perceber a simbiose de seu violão com a bateria de Tutty Moreno. Há mais de três décadas tocando juntos a sonoridade do violão de Joyce Moreno acopla-se a da bateria de Tuty, num exercício de complementariedade. A artista além de se apresentar só, munida de seu pinho unicamente, possui uma performance plena ao lado da bateria de Tutty.

Destaca-se a reverência ao samba que na pegada hot de Joyce ganha levadas jazzísticas. “Puro ouro” celebra as qualidades e singularidades do samba: “O samba é só magia, é puro ouro/ Cada vez mais é o tesouro/ Da juventude morena/ O samba é perdição que vale a pena/Não há quem perca o decoro/ se a alma não é pequena”. Jazz é pura invenção, permanente descoberta e o samba de Joyce é um samba jazz repleto de swing.

Outrora numa crônica dedicada a artista mencionei algumas de suas referências a exemplo de Coltrane, Charles Mingus e Miles Davis. Em “Quero ouvir João” Joyce reverencia uma de suas maiores devoções, João Gilberto. João é paradigma, inspiração. Os versos de Paulo César Pinheiro expressam uma crítica as paisagens sonoras que percorrem boa parte dos ambientes. Como tudo é substrato para a criação, a fusão do som de um vendedor na praia com “rock, metaleira, funk, reggae e pancadão” pode ser assimilada num ágape carnavalesco. A música criativa caminha na direção oposta a produção sonora massificada: “É pau na moleira/ tudo feito pra dançar/ De tanta besteira/ o que é que ainda vai ficar/ E nessa brincadeira / Inda não ouvi nada de bom / Mas o que é que tem pra se cantar/ Tudo já ficou fora do Tom”.

Em Claude e Maurice Joyce inventa imagens que compõem uma tela impressionista. Os apreços são direcionados a Claude Debussy e Maurice Ravel. Rimbaud criou cores para as vogais, A preto, E branco, I vermelho, U verde, O azul. A aquarela sonora da compositora é um passeio pictórico revestido de som: “Sons misteriosos de Ravel/ um céu que abriga e nos protege no chão/ Azul-limão / Cores luminosas de Monet/ Feito amapolas num jardim/eu e você.”

Noto que o  contraste entre o mundo interior da anima e também interior da casa em oposição ao exterior é um dos motes de Tudo, existe um movimento de introspecção que reforça a individualidade e a preservação dos valores vitais para Joyce. A natureza crua é sobretudo espaço de proteção. Enquanto o mundo lá fora ameaça acabar em acidentes climáticos,  violência, desigualdade e inúmeras carências, Joyce devolve poesia e canção: Lá fora, quantas ilhas/ O alvoroço das famílias/ Terremotos, armadilhas no ar/ E a alma quase sã”.

“Tudo é amor” pela música que se escuta e se faz, arrisco dizer que “Tudo” em sua amplitude sugestiva é um congraçamento do ofício de viver pela música e com a música. “ah como essa coisa é tão bonita, ser cantora ser artista, isso tudo é muito bom”. A fé na vida de artista pode prescindir de muitos auxílios em que a vida espiritual consiste na base essencial para o bem estar da alma e sua força criativa: “Seu guru, seu xamã / Seu avô, seu talismã/ um anjo sempre vem pra lhe atender/ eu também tenho o meu Que vem me proteger”.

Tudo é universo. – Daniela Aragão**

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Álbum “Tudo” (Joyce Moreno). 2013

DISCO ‘TUDO’ (Joyce Moreno)
1. Quero ouvir João (Joyce Moreno e Paulo César Pinheiro)
2. Estado de graça (Joyce Moreno e Nelson Motta)
3. Puro ouro (Joyce Moreno) | Participação especial: Alfredo Del-Penho, João Cavalcanti, Moyseis Marques e Pedro Miranda
4. Boiou (Joyce Moreno)
5. Aquelas canções em mim (Joyce Moreno)
6. Claude et Maurice (Joyce Moreno)
7. Tringuelingue (Joyce Moreno)
8. Domingo de manhã (Joyce Moreno)
9. Choro de anjo (Joyce Moreno)
10. Dor de amor é água (Joyce Moreno) | Participação: Zé Renato
11. Sem poder dançar (Joyce Moreno e Teresa Cristina)
12. Pra você gostar de mim (Joyce Moreno e Zé Renato)
13. Tudo (Joyce Moreno)
– ficha técnica –
Arranjos (vocais): Mauricio Maestro | Músicos: Joyce Moreno (voz, violão), Helio Alves (piano), Rodolfo Stroeter (baixo acústico e baixo elétrico), Tutty Moreno (percussão e bateria), Antonia Adnet (vilão 7 cordas – fx. 9), Mauricio Maestro (vocal – fx. 4, 6), Zé Renato (vocal – fx. 10) / Coro (fx. 3): Alfredo Del-Penho, João Cavalcanti, Moyseis Marques e Pedro Miranda / Ana Martins (fx. 11) || Produção: Joyce Moreno e Tutty Moreno || Fotografia: Philippe Leon || Gravação e mixagem: Gabriel Pinheiro || Masterização: Luiz Tornaghi || Texto (notas): Joao Joannou || Produtor associado: Kazuo Yoshida/ Japão
Selo: Biscoito Fino
Ano: 2013
Formato: CD
Outras edições: selo Omagatoki/Japão (CD/2012) | # Ouça o álbum completo no spotify e youtube.

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JOYCE MORENO NA REDE
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Daniela Aragão – acervo pessoal

** Daniela Aragão (1975) é doutora em literatura brasileira pela Puc-Rio, cantora e pesquisadora musical. Há mais de duas décadas desenvolve trabalhos sobre a história do cancioneiro brasileiro, com trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Gravou em 2005 o disco “Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso”. Há mais de uma década realiza entrevistas com músicos de Juiz de Fora e de estatura nacional. Entre os entrevistados estão: Sergio Ricardo, Roberto Menescal, Joyce Moreno, Delia Fischer, Márcio Hallack, Estevão Teixeira, Cristovão Bastos, Robertinho Silva, Alexandre Raine, Guinga, Angela Rô Rô, Lucina, Turíbio Santos… Seu livro recém lançado “De Conversa em Conversa” reúne uma série de crônicas publicadas em jornais e revistas (Cataguases, AcheiUSA, Suplemento Minas, O dia, Revista Revestrés, Cronópios…) ao longo de quinze anos . Os textos de Daniela Aragão são reconhecidos no meio musical devido a sua considerável marca autoral e singularidade, cuja autora analisa minuciosamente e com lirismo obras de compositores e cantores como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Rita lee. O livro possui a orelha escrita pelo poeta Geraldo Carneiro, prefácio do pesquisador musical e professor da Puc-Rio Júlio Diniz, contracapa da cantora e compositora Joyce Moreno e do pianista e arranjador Cristovão Bastos. Irá lançar em 2022 seu livro “São Mateus – num tempo de delicadezas”.  Colunista da Revista Prosa, Verso e Arte. #* Biografia completa AQUI!

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*Imagem (capa): Joyce Moreno – foto: Leo Aversa.

 

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