Crônicas e ensaios

Tato, crônica de Rubem Alves, do livro ‘Educação dos sentidos e mais’

O tato é o sentido que marca, no corpo, a divisa entre eros e tânatos. É através do tato que o amor se realiza. É no lugar do tato que a tortura acontece.

Escarafunchei minhas memórias de leitura e não encontrei nada que se referisse ao tato, exceto na poesia e na literatura. Um dos poemas de Fernando Pessoa que mais me comovem é construído a partir de uma experiência de um toque.
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Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
.
E a retiraste.
Senti ou não?
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve! […]
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.
A mão toca o braço, sem pensar, para dizer… E daí surge um poema.
.
O olhar pode revelar amor ou morte. Mas o olhar exige distância para ver. O olhar não toca. Os olhos, para verem, têm de estar distantes da pele. O olhar promete, anuncia, ou o carinho ou o soco. Mas o olhar não é nem o carinho nem o soco. Carinho e soco são entidades do tato.

A audição também. Ouvir um poema pode ser uma experiência de amor (como no filme O carteiro e o poeta). Mas nenhum amante se contenta com a alegria que seus ouvidos lhe dão ao ouvir a voz da pessoa amada. A voz não basta. A conversa ao telefone é alegria. Mas o telefone terá de ser desligado sem que se realize a promessa de carinho que estava presente na voz. Beethoven escreveu uma sonata que recebeu o nome de Sonata do adeus. Ela se divide em três partes. Inicia-se com três acordes de profunda tristeza e que dizem vagarosamente “Le-be-wohl” – “Adeus”. O segundo movimento é a “Ausência” – um tempo melancólico de tédio. Distância vazia. E o terceiro, de esfuziante alegria, o “Retorno”. Retorno é poder abraçar de novo, tocar, acariciar, beijar, fazer amor… A alegria dos ouvidos é mendiga. Ela está sempre mendigando o toque. Recebi uma chamada telefônica a cobrar. Ao atendê-la, ouvi uma voz desconhecida que me ameaçava com um “grupo fortemente armado” caso não atendesse suas exigências. Eu não disse nada. Só desliguei o telefone. A voz, sozinha, não pode cumprir suas ameaças. A voz não pode perfurar o meu corpo.
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O tato acontece quando a pele e, portanto, o meu corpo, é tocado por algo de fora (ou por ele mesmo…). Nisso está a sua delícia! Nisso está o seu perigo!

A primeira experiência do nenezinho ao vir ao mundo é a experiência do tato. Sem nada saber, sua boquinha já mama um objeto ausente. Fome, dirão. Não tenho tanta certeza. Se fosse fome, o nenezinho pararia de chorar somente depois que o leite fizesse seu trabalho tranquilizador no estômago. Mas não é assim. O nenezinho para de chorar imediatamente quando sua boca se ajusta ao seio. É uma experiência tátil de tanto prazer que permanece gravada inesquecivelmente em nossa memória erótica. É por isso que, mesmo depois de desmamados, os nenezinhos continuam à procura da experiência tátil original, completamente dissociada do leite. Está aí o segredo das chupetas: foram inventadas para substituir o seio… Enquanto escrevia, fiz uma experiência mental: imaginei-me chupando uma chupeta. Senti-me meio ridículo, mas gostei. Imaginei, então, que talvez as pessoas que lutam para deixar o cigarro pudessem encontrar satisfação para o seu desejo chupando uma chupeta… Quem sabe o seu mal é saudade do seio, de qualquer seio…
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E não será por isso que os homens sentem prazer em beijar o seio da mulher amada? Quando se beija o seio da mulher amada, não se pode ver o seu rosto e não é preciso ouvir a sua voz.

Mas o tato é, talvez, o sentido sobre o qual menos se tenha falado. Há uma filosofia dos olhos, uma filosofia do ouvido, uma filosofia da boca. Mas desconheço uma meditação filosófica sobre o tocar. E, no entanto, a pele é lugar de tantas alegrias. Lembro-me de uma cena do filme Cidade dos anjos. Quando o anjo apaixonado resolveu tornar-se humano, mesmo ao preço de perder sua imortalidade, ele entrou no mundo desconhecido das delícias do tato. Há uma cena em que ele está tomando um banho de chuveiro. Ah! Que experiência assombrosa de prazer e alegria! E, no entanto, é uma experiência que temos diariamente. Acontece que, em nossos rituais, ela não é uma experiência erótica, mas simplesmente um automatismo prático da “caixa de ferramentas”.
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Os prazeres do tato estão em todos os lugares. Só é necessário prestar atenção. Tive uma cólica renal. No hospital me trataram com buscopan. Uma injeção. Duas. Três. Quatro. Aí eu já estava verde e comecei a vomitar de dor. O médico disse à enfermeira:
“Aplica uma dolantina…” Ela aplicou. Cinco minutos depois eu estava no paraíso. Senti, então, o insuperável prazer de simplesmente não ter dor!.

Rubem Alves, no livro “A educação dos sentidos“. Paidós, 2025

***

SOBRE O LIVRO
POESIA, MÚSICA, PINTURA, ESCULTURA, DANÇA, TEATRO, CULINÁRIA: SÃO TODAS BRINCADEIRAS QUE INVENTAMOS PARA QUE O CORPO ENCONTRE A FELICIDADE.
Em A educação dos sentidos , Rubem Alves nos convoca a redescobrir a educação como forma de arte, como um caminho sensível e poético para aprender a ver, ouvir, sentir e, acima de tudo, encantar-se com o mundo. Em cada crônica somos lembrados que ensinar não é apenas transmitir conhecimento, mas também abrir portas para o prazer da descoberta, tornando os sentidos instrumentos de amor e admiração pela vida. Com delicadeza e perspicácia, o autor desafia os modelos rígidos de ensino e propõe um olhar mais livre e amplo, em que a educação não se limita a fórmulas e regras, mas se expande em imaginação, brincadeira e beleza.
Inspirado nas próprias memórias, em reflexões filosóficas e referências literárias, Rubem Alves transforma o aprendizado em uma experiência sensorial e afetiva. Nas páginas a seguir, seremos levados a questionar se educar é formar especialistas ou ensinar a olhar; entre ciência e poesia, lógica e sonho, observaremos uma visão inspiradora ser construída, na qual a busca pelo saber se confunde com o desejo de viver intensamente.
Mais do que um livro sobre Educação – assim, com inicial maiúscula –, esta obra é um presente para quem deseja resgatar a alegria do aprendizado e voltar a ver o mundo com olhos atentos e curiosos.

FICHA TÉCNICA
Título: A educação dos sentidos
Páginas: 144
Formato: 16 x 1 x 23 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 28/04/2025 (3ª edição)
ISBN: 978-8542233292
Selo: Paidós
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LEIA MAIS SOBRE RUBEM ALVES
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