sábado, janeiro 24, 2026

Tapiiraiauara – um conto de João Guimarães Rosa

Dera-se que Iô Isnar trouxera-me a caçar a anta, na rampa da serra. Sobre sua trilha postávamo-nos em ponto, à espera, por onde havia de descer, batida pelos cães. Sabia-se, a anta com o filhote. Acima, a essa hora, ela pastava, na chapada.
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Vistosa, seca manhã, entre lamas, a fim de assassinato; Iô Isnar se regozijava, duro e mau como uma quina de mesa. Eu olhava os topos das árvores. Fizera-me vir. Era o velho desgraçado.
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— “A carne é igual à da vaca: lombo, o coração, fígado…” Matava-a, por distração, suponha-se; para esquecer-se do espírito. Iô Isnar tinha problema. — “Ecô”! — deu a soltada dos cachorros, aplicados rumo arriba.
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— “Mora no beira-córrego, em capão de mato. Faz um fuxico, ali, uns ramos; nesse enredado, elas dormem.” A anta, que ensina o filhote a nadar: coça-o leve com os dentes, alongando o trombigo.
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— “Sai dos brejos, antes do sol. Sobe, para vir arrancar folhas novas de palmeiras, catar frutinhas caídas, roer cascas do ipê, angico, peroba…”

O problema de Iô Isnar era noutro nível, de dó e circunstância, viril compungência. Seu filho achava-se em cidade, no serviço militar. — “Haverá mais guerra? O Brasil vai?”… perguntara, muito, expondo a balda.
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A anta, e o filhote — zebrado riscado branco como em novos eles são — tão gentil.
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— “Ah, o couro é cabedal bom, rijo, grosso. Dá para rédeas, chicotes, coisas de arreios…”
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Sobre lá, a mil passos, a boa alimária fuçava araticuns e mangabas do chão, muricis, a vagem da faveira. Ao meio-dia buscava outros pântanos, lagoas, donde comia os brotos de taquaril e rilhava o coco do buriti, deixada nua a semente. Com pouco ia desastrar-se com os cães, feia a sungar a afilada cabeça, sua cara aguda, aventando-lhes o assomar.
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Eram horas episódicas.

De tocaia, aqui, no rechego, a peitavento, Iô Isnar comodamente guardava-a, rês, para tiro por detrás da orelha, o melhor, de morte. Dava osga, a desalma. Moeu-me. Merecia maldição mansamente lançada. Iô Isnar, apurado, ladino no passatempo.
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Havendo que o obstar?
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Levantavam-na quiçá já os cães anteiros afirmados, cruza de perdigueiros e cabeçudos. Acossada, prende às vezes o cachorro com o pé, e morde-o; despistava-os?
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— “É peta, qualquer cachorrinho prático segura uma anta!”
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Valesse-lhe, nem, andar escondida nos matos, ressabiando os descampados. Sem longe, sem triz, ao grado de um Iô Isnar, em sórdido folguedo: condenada viva.
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Mas, que, então, algum azar o impedisse — Anhangá o transtornasse!
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Só árvores através de árvores. Doer-se de um bicho, é graça. De ainda aurora, a anta passara fácil por aqui, subindo do rio, de seu brejo-de-buritis, dita vereda. Marcava-se o bruto rastro: aos quatro e três dedos, dos cascos, calcados no sulco fundo do carreiro, largo, no barro bem amarelo, cor que abençoa.

Havia urgência.
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Podia-se uma ideia.
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À mão de linguagem. A de meneá-lo, agi-lo, nesse propósito, em farsamento, súbito estudo, por equivalência de afetos, no dói-lhe-dói, no tintim da moeda!
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Iô Isnar, carrasco, jeito abjeto, temente ao diabo. A pingo de palavras, com inculcações, em ordem a atordoá-lo, emprestar-lhe minha comichão. Correr aposta.
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Ponteiro menor, a anta; ponteiro grande, os cães.
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E dependi daquilo.
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— “Sim, o Brasil mandará tropas…” — deixei-lhe; conforme à teoria. Sem o fitar: mas ao raro azul entre folhagens de árvores.
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— “Cruz!?” — ele fez, encolhera elétrico os ombros.
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Eu, mais, numa ciciota: — “É grave…” Luta distante, contra malinos pagãos, cochinchins, indochins: que martirizavam os prisioneiros, miudamente matavam. Guerra de durar anos…
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Iô Isnar, voz ingrata, já ele em outras oscilações: — “Deveras?” — coçou a nuca, conquanto. Acelerava seu sentir; pôs-se cinco rugas na testa, como uma pauta de música. Vi o capinzal, baixas ervas, o meigo amarelo do lameiro, uma lama aprofundada. Ele era um retrato.
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Tomei uns momentos.
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Devagar, a ministrar, com opinião de martelo e prego: — “Seu filho único…” Disse. Do ominoso e torvo, de desgraçados sucessos, o parar em morte, os suplícios mais asiáticos. — “Se a sorte sair em preto…” — o tema fundamental.
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Iô Isnar — a boca aberta ainda maior, porque levantara a cabeça — e um olhar homicida. Malhava-me fogo?

Só futuras sombras não logravam porém o desandamento de um cru caçador, seu coração a desarrazoar-se. Talvez a menção prática de providências vingasse sacudi-lo: — “Ajudo-o… Mas tem de vir comigo à cidade…” — propinei.
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Iô Isnar sumiu a cor do rosto, perdera o conselho; o queixo trêmulo. Valha-o a breca! Operava, o método. Vinha-lhe ao extremo dos dedos o pânico, das epidermes psíquicas. Ele estava de um metal. Ele era maquinalmente meu. Obra de uns dez minutos.
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No súbito.
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A alarida, a pouco e pouco, o re-eco — trupou um galope, em direitura, à abalada, dava vento.
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E foi que: mal coube em olhos: vulto, bruno-pardo, patas, pelo estreito passadouro — tapiruçu, grã-besta, tapiira… — o coto de cauda. Com os cães lhe atrás.
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Iô Isnar falhara, a cilada, o tiro; desexercera-se de mãos, não afirmara a vista.
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Travavam-se, em estafa, os cães, com latidos soluçados.
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Embaixo, lá a anta soltara o estridente longo grito — de ao se atirarem à água, o filhote e ela — de em salvo.
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Refez-se a tranquilidade.
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Iô Isnar rezava, feito se moribundo, se derrubado, tripudiado pelo tapir, que defeca mesmo quando veloz no desembesto: seu esterco no chão parecia o de um cavalo.
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— João Guimarães Rosa, no livro “Tutaméia: Terceiras estórias“. São Paulo: Global Editora, 2021

SOBRE O LIVRO revistaprosaversoearte.com - Tapiiraiauara - um conto de João Guimarães Rosa
O Livro publicado em Julho de 1967, reune quarenta estórias curtas e traz um aspecto peculiar: uma obstinada preocupação do escritor com o modo de apresentar suas estórias aos leitores. Tal desejo de Rosa pode ser visto, num primeiro momento, pelo modo como a configuração da duplicidade ficção/metaficção encontra-se registrada no próprio aspecto gráfico do texto, em que se diferenciam os caracteres redondos dos itálicos. Os primeiros são utilizados nos quarenta contos, ou seja, nos textos ficcionais propriamente ditos. O segundo estilo é adotado nos prefácios, epígrafes, citações.
Em Tutameia, são tecidas por Rosa insuperáveis tramas de matéria variada. Dentre a miríade de temas e assuntos tocados pelo escritor neste livro, podemos citar o amor (presente em “A vela ao diabo” e “Desenredo”), a vida dos ciganos (o caso dos contos “Faraó e a água do rio”, “O outro ou o outro” e “Zingarêsca”) e, como não poderia deixar de narrar, o cotidiano de figuras típicas do mundo sertanejo, elemento constitutivo das narrativas “Hiato”, “Sota e barla” e “Vida ensinada”.
Além dos essenciais textos introdutórios de Paulo Rónai, grande conhecedor da obra rosiana, esta edição da Global traz ao fim um estudo do crítico literário Gilberto Mendonça Teles intitulado “O pequeno ‘sertão’ de Tutameia”, publicado originalmente na revista Navegações, v. 2, n. 2, em julho-dezembro de 2009.
A Global também apresenta ao leitor o projeto de Victor Burton , que desenvolveu a capa a partir da fotografia de Araquém Alcântara, fotográfo especializado em registrar as paisagens brasileiras.

FICHA TÉCNICA
Título: Tutameia: terceiras estórias
Páginas: 256
Formato: 16 x 1 x 23 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 31/11/2021
ISBN: 978-6556121741
Selo: Global
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