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Rita Lee | Doce dama do fogo, por Daniela Aragão

Certos acontecimentos da infância retornam quase incólumes num dado momento de nossa vida. Talvez, porque eu esteja já sentindo o peso do transcorrer do tempo, ou supostamente minha memória oxigenou. Vez por outra, afloram lembranças longínquas, que me permitem estabelecer um elo com minha vida presente.
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Acabo de ler a excelente biografia de Rita Lee. Optei por sorvê-la aos poucos, na tentativa de mimetizar Clarice Lispector em “felicidade Clandestina”. A leitura de “Reinações de Narizinho” lhe era tão acolhedora e irresistível, que a autora driblava a si mesma, na tentativa de macular a finitude da história. Vez por outra, comia pão com manteiga para se distrair, ou fingia que tinha perdido o livro, só para ter a alegria da surpresa de reencontrá-lo. Entreguei-me com paixão e encantamento ao universo de Rita Lee durante três semanas.
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Por volta dos quatro anos de idade, descobri que o suporte da vassoura poderia servir de microfone com pedestal. O espremedor de alho, com seu peculiar perfume, me ofereceria recursos ainda mais modernos, por sua leveza, que me favoreceu a amplitude de movimentos. Sem saber, já antecipava o microfone sem fio. Na mesma época, eu já havia aprendido a colocar na vitrola (no mínimo umas quinze vezes seguidas), um compacto da Rita Lee. Lembro-me com clareza da capa branca do disquinho, que trazia um desenho de um jeans, com fecho semi-aberto. Deliciava-me ao cantar os versos repletos de picante ironia em Arrombou a festa: “Ai ai meu Deus/ o que foi que aconteceu com a música Popular Brasileira?/Todos falam sério, todos eles levam a sério/ Ma esse sério me parece brincadeira”. Marca maior da artista, que me arrebatou bem antes de eu entender, que sorrir é a melhor atitude do mundo. O ápice de minha satisfação, se dava no instante de cantar bem alto e sapatear no chão com a citação final de Carcará: “Pega mata e come”. Nada entendia do que se passava, mas a sensação era de um prazer libertador.

Três anos depois, ouvia uma rádio extinta em Juiz de Fora denominada “Nova cidade”. O apresentador soltou uma tal de “Bolsa Nova”, com Rita Lee e João Gilberto, e eu fiquei paralisada. Na impossibilidade de ouvir a impactante canção, novamente, comentei com papai sobre a descoberta da tal “Bolsa Nova”. Apaixonado que era por música e, especialmente, por Bossa Nova, abriu um largo sorriso e brincou com o trocadilho. O primeiro disco que adquiri, resultante de minhas próprias economias, foi o inesquecível “Flagra”. Recolhi todas as moedas de meu cofrinho e saí da loja eufórica com o LP. Rita Lee e Roberto de Carvalho, ambos com o colo nu, mergulhados sobre uma piscina azul de revestimento plástico. Uma espécie de homenagem ao universo mágico Felliniano de La Nave Va.
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“Flagra” permanece em meus ouvidos, com seu impecável repertório. Reouvi por estes dias o álbum na íntegra, com emoção renovada. A canção de abertura “O circo”, com sua delicadeza singela, traz o amor platônico do soldado pela bailarina. O lirismo pede passagem em “Pirata Cigano”, bela balada romântica “Sou pirata cigano/ velho lobo do mar/ gasto tudo o que ganho/ pelo prazer de sonhar”. Destaque para o encorpado naipe de sopros, que faz contraponto com a base repleta de um softy swing. O foxtrot “Só de você”, que traz a assinatura do luxuoso arranjo de César Camargo Mariano, é um deslumbramento. A cadência rítmica é um chamado ao bailado à moda Fred Astaire e Ginger Rogers. Sapatear é o lema.
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A visionária e iconoclasta Rita Lee, abençoada pela Santa padroeira dos frascos e comprimidos, já antevia que a elegância iria perder vertiginosamente o espaço: “Um tanto quanto demodée pra hoje em dia/Antigamente, tudo era bem mais chique/Porque a gente nem sabe por que”.

Rita Lee

“Brasil com S” revela o quanto Rita Lee é portadora de uma suave elegância, naturalmente, Bossa Nova. Não foi preciso ouvir Caetano Veloso dizer que “a bossa nova é foda”. Desde este momento, tornei-me irrecuperavelmente fissurada, pelo cantar de João e seu violão, com a levada inigualável. A roqueira mais bossa nova do Brasil, se apresentava para mim em sua grandeza neste instante sonoro, perturbador e inesquecível.
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Rita, em seu relato biográfico, me comove e encanta com seu despudor. Brinca com seu id e superego, ao criar um fantasminha companheiro. Habilíssima que sempre foi para se metamorfosear em inúmeros personagens, ela inventa o fantasminha camarada, que a auxilia no resgate de fatos longínquos que retornam em fragmentos na memória.
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Deliciei-me com as narrações dos tempos de infância em São Paulo, no velho casarão com os pais e as irmãs. O encontro com os jovens mutantes Arnaldo Batista e Sérgio Batista é contado com detalhes. Colocam um ponto final nas controvérsias que rondaram por anos o drama do encerramento do grupo. A criatividade sempre falou alto, ainda mais quando os recursos financeiros e os alicerces tecnológicos eram precaríssimos. A artista retoma em pormenores suas ideias e conceitos, sempre avant garde, na invenção improvisada de figurinos e cenários para shows e capas de discos. Uma aula de criatividade e originalidade, que compõe a faceta visionária e plástica de Rita Lee.
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Rita Lee é minuciosa na retomada da proposta estética e sonora de cada trabalho. Para os fãs ardorosos é um presente conhecer o percurso de cada disco, com seus ajustes e falhas. Vida, arte, comportamento, atitude, tudo se funde na existência singular desta mulher. Talvez tudo faça parte de um modus vivendi rock and roll.
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Rita Lee compõe a safra muito pequena, daqueles seres inteligentes e raros, que são capazes de fazer humor com a tragédia do próprio destino. Em seu livro, os momentos luminosos e as fases idílicas são celebrados. Contudo, a artista não se furta de mergulhar nos vales mais vazios, escuros, profundos e dolorosos. A travessia de luta, contra a dependência etílica e os acidentes, é desvelada sem mácula “Acabei de dar um check-up na situação/O que levou a reler Alice no País das Maravilhas/Já andei de motocicleta e fiz esporte/ E numa corrida me encontrei com a morte”. Rita Lee é a fênix cor de rosa choque. Mulher sempre perto do fogo, com sua marca mutante e desafiadora. Uma artista que já fez um tanto de gente feliz. Eu te amo Rita Lee: “Como vai, tudo bem/Apesar, contudo, todavia, mas, porém/As águas vão rolar/Não vou chorar/Se por acaso morrer do coração/ É sinal que amei demais/ Mas enquanto estou viva/Cheia de graça/Talvez ainda faça/Um monte de gente feliz”.
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Daniela Aragão – foto: acervo pessoal

* Daniela Aragão (1975) é doutora em literatura brasileira pela Puc-Rio, cantora e pesquisadora musical. Há mais de duas décadas desenvolve trabalhos sobre a história do cancioneiro brasileiro, com trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Gravou em 2005 o disco “Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso”. Há mais de uma década realiza entrevistas com músicos de Juiz de Fora e de estatura nacional. Entre os entrevistados estão: Sergio RicardoRoberto MenescalJoyce MorenoDelia Fischer, Márcio Hallack, Estêvão Teixeira, Cristovão Bastos, Robertinho Silva, Alexandre Raine, GuingaAngela Ro RoLucinaTuríbio Santos… Seu livro recém lançado “De Conversa em Conversa” reúne uma série de crônicas publicadas em jornais e revistas (Cataguases, AcheiUSA, Suplemento Minas, O dia, Revista Revestrés, Cronópios…) ao longo de quinze anos. Os textos de Daniela Aragão são reconhecidos no meio musical devido a sua considerável marca autoral e singularidade, cuja autora analisa minuciosamente e com lirismo obras de compositores e cantores como Gilberto GilCaetano Veloso, Chico Buarque, Rita Lee. O livro possui a orelha escrita pelo poeta Geraldo Carneiro, prefácio do pesquisador musical e professor da Puc-Rio Júlio Diniz, contracapa da cantora e compositora Joyce Moreno e do pianista e arranjador Cristovão Bastos. Irá lançar em 2022 seu livro “São Mateus – num tempo de delicadezas”.  Colunista da Revista Prosa, Verso e Arte.
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