Manoel Bomfim, Vianna Moog e Gilberto Freyre
Há um país que sonha, mas que esqueceu de se lembrar de seus próprios sonhadores. O Brasil que se repete em ciclos de esperança e desilusão parece ter deixado no esquecimento três dos espíritos mais luminosos e ousados de sua história intelectual. Manoel Bomfim, Vianna Moog e Gilberto Freyre são os nomes que compõem essa tríade de intérpretes que ousaram pensar o Brasil antes que o Brasil soubesse pensar-se. Não apenas o país empírico, mas o Brasil imaginado, o Brasil moral, o Brasil possível. Em suas obras, o pensamento é gesto, o gesto é crítica, e a crítica é amor. Eles escreveram não para explicar o país aos estrangeiros, mas para devolvê-lo a si mesmo.
A história, porém, é implacável com aqueles que chegam cedo demais. Bomfim foi lido como moralista, Moog como diletante, Freyre como conservador. Todos foram, de alguma maneira, cancelados antes que a palavra existisse. O cancelamento intelectual não é novo, apenas mudou de roupa. O século XXI o pratica com hashtags, o século XX o fez com silêncio. Bomfim, Moog e Freyre foram silenciados por não pertencerem aos clubes teóricos, por não submeterem o pensamento às cartilhas. Foram punidos por pensar com liberdade, e a liberdade, no Brasil, sempre custou caro.
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Mas há algo nesses três que resiste. Uma centelha de futuro atravessa suas páginas. Bomfim, o crítico feroz da colonização moral da América Latina. Moog, o comparatista das Américas que percebeu a dignidade de uma cultura mestiça. Freyre, o sociólogo-poeta que viu beleza onde o mundo via degradação. Eles não se deixaram domesticar por modelos importados. Foram, cada um a seu modo, decoloniais antes da palavra. A decolonialidade, hoje tão celebrada nas universidades, em Bomfim, Moog e Freyre não era discurso, era experiência.
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Bomfim viu que o atraso da América não estava na raça, mas na moral. O problema não era biológico, mas ético. A servidão estava nos costumes, na herança de um espírito submisso que confundia poder com privilégio. Ele denunciou as elites que imitavam o colonizador enquanto oprimiam o povo. Sua escrita é um bisturi que corta o tumor da hipocrisia nacional. Bomfim compreendeu que a América Latina precisava libertar-se da tutela europeia e do servilismo interno. Ele foi o primeiro a falar de libertação intelectual, moral e política como uma só luta.
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Moog, por outro lado, fez da comparação um instrumento de revelação. Em Bandeirantes e Pioneiros, contrapôs o Brasil ibérico aos Estados Unidos protestantes. Não para hierarquizar, mas para compreender as matrizes do comportamento. O que ele percebeu, com espantosa lucidez, é que o Brasil se fundou sobre o afeto, não sobre o contrato. Que a relação precede a norma. Que aqui a lei é maleável porque o homem é antes relação do que indivíduo. Essa leitura, longe de ser um elogio ingênuo, é uma denúncia sutil. O Brasil ainda vive sob a tirania da afetividade, onde a proximidade justifica a corrupção e o favor substitui a justiça.
Freyre, por sua vez, transformou a casa em nação. Em Casa-Grande & Senzala, a vida privada é o espelho da formação social. Ele descobriu o Brasil na carne, no cheiro, no toque, na língua. Sua sociologia é sensorial. Freyre mostrou que o Brasil nasceu do encontro, do choque, do amor e da violência. A mestiçagem não é metáfora, é substância. E é nela que se encontra o drama e a beleza do país. Ele escreveu o Brasil como quem descreve uma alma: contraditória, generosa, cruel e sensual.
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Os três partem de lugares diferentes, mas convergem num mesmo gesto: a recusa da subordinação intelectual. Bomfim insurge-se contra o moralismo europeu que vê a América como cópia imperfeita. Moog recusa a submissão cultural que mede a civilização pela régua anglo-saxã. Freyre rejeita o racismo científico que reduz o trópico a degeneração. Eles pensam o Brasil com categorias nascidas da própria experiência. São intérpretes do mundo vivido.
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O que os une é uma coragem rara: a de pensar com a própria cabeça. E é essa coragem que falta ao pensamento brasileiro contemporâneo, domesticado por teorias que se proclamam críticas, mas que repetem, de modo elegante, o velho gesto colonial. Bomfim, Moog e Freyre não pediam autorização à Europa nem aos Estados Unidos. Eram, antes de tudo, criadores de conceitos.
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Hoje, quando as universidades se dividem entre o tecnicismo e o panfleto, reler esses autores é um ato de resistência. O verdadeiro pensamento crítico nasce da observação, não da adesão. Bomfim observava o atraso como médico das almas, Moog observava as nações como psicólogo das culturas, Freyre observava as casas como antropólogo da intimidade. Nenhum deles descreveu de longe. Pensaram o Brasil com o corpo dentro do Brasil.
Essa imersão é o que faz deles precursores do que hoje chamamos pensamento decolonial. Não apenas por denunciarem a herança colonial, mas por praticarem um método de inversão epistemológica: olhar o centro a partir das margens, compreender o universal a partir do particular, subverter a hierarquia do saber. Bomfim escreveu a partir do sul moral do mundo, Moog a partir da periferia cultural, Freyre a partir do trópico sensorial. Cada um produziu um saber insurgente.
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Mas o Brasil, sempre apressado em buscar legitimação no exterior, preferiu esquecê-los. Bomfim não figura nas listas oficiais da sociologia. Moog é lembrado mais como ensaísta literário do que como pensador. Freyre, reduzido a caricatura de conservador, é estudado menos por sua genialidade interpretativa e mais por seu suposto “pecado” de conciliação. O cancelamento é o mesmo de sempre: o moral travestido de ideológico.
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Por que recuperá-los agora? Porque o Brasil adoeceu daquilo que eles diagnosticaram. O país sofre de autonegação. Não acredita em sua própria inteligência, nem em sua própria experiência. Vive de importar ideias e modas críticas como quem troca de roupa. Bomfim, Moog e Freyre são a lembrança de que pensar o Brasil exige fidelidade ao real, e que o real é sempre mais complexo do que qualquer teoria importada.
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Eles são, portanto, os nossos clássicos de uma modernidade que ainda não aconteceu. São pensadores de um Brasil por vir. Ler Bomfim é reencontrar o sentido ético da crítica. Ler Moog é recuperar o gosto pela reflexão comparativa. Ler Freyre é reconciliar o saber com a beleza.
O pensamento deles não envelheceu porque não foi moda. Foi fundação. E toda fundação é intempestiva, vive fora de época. Bomfim, Moog e Freyre não escreveram para o seu tempo, mas para o tempo em que o Brasil quisesse, enfim, compreender-se. Talvez esse tempo seja agora.
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A redescoberta desses autores não é arqueologia, é profecia. Eles nos anunciam o que ainda não somos, mas podemos ser. E o que podemos ser é maior do que o que temos sido. O Brasil, país das repetições, precisa desses pensadores do recomeço. Eles nos ensinam que o futuro se constrói com a memória, que a crítica precisa de amor, e que o amor, quando pensa, transforma-se em justiça.
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O Brasil precisa de Bomfim para recuperar a vergonha, de Moog para recuperar a medida, de Freyre para recuperar o encantamento. O Brasil precisa, enfim, reconciliar-se consigo mesmo.
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Bomfim acreditava que o Brasil podia ser uma república moral antes de ser uma república política. Ele via na educação o instrumento de regeneração da alma pública. Para ele, a ignorância era o terreno fértil da servidão e o conhecimento o único antídoto possível contra a corrupção do espírito. A verdadeira independência, dizia ele, não era a que se proclamava em datas, mas a que se construía na consciência. O atraso brasileiro, em sua análise, não vinha das massas, mas das elites. Eram as classes dirigentes que perpetuavam o parasitismo, que cultivavam o privilégio como se fosse destino. Bomfim denunciou essa estrutura como o verdadeiro mal de origem da América Latina. E, ao fazê-lo, revelou que a modernidade sem ética é apenas uma forma disfarçada de barbárie.
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Vianna Moog via o Brasil por outro ângulo, mas com a mesma profundidade. Seu olhar comparativo era também uma forma de ética. Em Bandeirantes e Pioneiros, ele confronta a formação norte-americana e a brasileira. Vê nos Estados Unidos a ética do trabalho e no Brasil a ética da convivência. Mas, em vez de julgar, compreende. Cada uma dessas éticas produz uma civilização diferente. A americana, racional e pragmática, cria instituições sólidas e indivíduos solitários. A brasileira, afetiva e maleável, cria laços, mas dissolve responsabilidades. Moog percebe que não há superioridade entre os modelos, apenas destinos distintos. E propõe que o Brasil aprenda a transformar a sociabilidade em consciência, o afeto em justiça. Seu pensamento é de um humanismo sereno, avesso ao ressentimento e ao servilismo.
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Gilberto Freyre, por sua vez, devolveu humanidade ao Brasil. Em seu tempo, a sociologia se via como ciência fria, inimiga do sentimento. Freyre ousou misturar método e poesia. Em Casa-Grande & Senzala, transformou a observação social em narrativa sensorial. Fez da história um corpo. Reconstituiu a vida colonial em seus detalhes mais íntimos, da arquitetura às culinárias, dos gestos aos afetos. E, ao fazê-lo, libertou o Brasil do complexo da inferioridade tropical. Mostrou que a mistura é força, não fraqueza. Que a convivência entre raças e culturas, por mais violenta que tenha sido, também gerou formas inéditas de sociabilidade.
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Sua leitura do país foi acusada de idealização, mas na verdade era uma forma de realismo poético. Freyre sabia que a mestiçagem era também ferida. Mas compreendia que negar essa ferida seria negar a própria identidade nacional. Sua prosa, tão bela quanto precisa, ensinou ao mundo que é possível fazer ciência com emoção e literatura com rigor.
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Os três autores, em suas diferenças, partilham de uma mesma intuição: o Brasil é mais complexo do que suas caricaturas. Nenhum deles acreditava em teorias salvacionistas, nem em soluções fáceis. Eles viam o país como processo, como drama e como promessa. Para Bomfim, o problema era moral. Para Moog, era cultural. Para Freyre, era simbólico. Mas todos concordavam que o caminho da cura passava pelo autoconhecimento.
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Hoje, mais de meio século depois, o Brasil continua prisioneiro dos mesmos dilemas. Continuamos a importar teorias como quem importa mercadorias. Continuamos a confundir crítica com desprezo. Continuamos a temer o que é nosso. O pensamento acadêmico se globalizou, mas o país continua invisível em seus próprios espelhos.
É por isso que o resgate de Bomfim, Moog e Freyre é urgente. Eles nos lembram que pensar o Brasil é mais do que aplicar modelos; é um ato de escuta. O Brasil não cabe nas fórmulas, precisa ser lido como um texto vivo, cheio de silêncios, nuances e contradições. Bomfim o leu como médico. Moog o leu como viajante. Freyre o leu como poeta. E os três, cada um a seu modo, o amaram.
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Essa capacidade de amar o objeto é o que falta à crítica contemporânea. Hoje, o pensamento se tornou burocrático, programático, movido por palavras de ordem. Falta-lhe encanto, falta-lhe piedade. Bomfim, Moog e Freyre pensavam com ternura e indignação. E é dessa mistura que nasce o verdadeiro pensamento crítico.
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Em 2025, suas obras ressurgem com a força dos presságios. Bomfim nos oferece um diagnóstico que continua atual: a corrupção moral das elites. Moog nos convida à reflexão madura sobre o destino civilizatório. Freyre nos devolve a beleza da convivência humana. Eles formam o tripé de uma sociologia que ainda não concluímos.
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Bomfim é o eixo da razão ética, Moog é o eixo da razão cultural, Freyre é o eixo da razão estética. Reunidos, eles compõem uma filosofia do Brasil. Uma filosofia que não se reduz à universidade, mas atravessa a vida. O pensamento deles é um modo de existir: olhar o mundo com curiosidade, com cuidado e com coragem.
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E talvez o maior ensinamento que deixaram seja este: o Brasil precisa de intelectuais que tenham a humildade dos poetas e a ousadia dos santos. O pensamento, quando verdadeiro, não é sistema, é testemunho. Bomfim testemunhou a decadência moral do império e a esperança republicana. Moog testemunhou a perplexidade do encontro entre mundos. Freyre testemunhou a eternidade da casa como metáfora do país.
O tempo tentou apagá-los, mas suas ideias continuam a germinar nos subterrâneos da cultura. Todo pensamento vital resiste ao esquecimento. Bomfim volta quando a ética desaparece. Moog volta quando a comparação se torna necessária. Freyre volta quando a convivência se quebra. Eles voltam como faróis em tempos de trevas.
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Talvez o Brasil precise, antes de qualquer reforma política, de uma reforma simbólica. De um reencontro com o seu próprio imaginário. Bomnfim, Moog e Freyre representam esse reencontro possível. Suas obras são pontes entre passado e futuro, entre o real e o sonho, entre o corpo e a alma.
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O Brasil não pode se entender sem emoção. E não há emoção verdadeira sem pensamento. Neles, o pensamento é uma forma de amor. A crítica é uma forma de fé. A análise é uma forma de esperança.
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Bomfim acreditava que o povo podia educar-se e libertar-se. Moog acreditava que a cultura podia reconciliar as civilizações. Freyre acreditava que a vida podia ensinar mais do que os tratados. Os três acreditavam que o Brasil, apesar de tudo, valia a pena.
E é essa fé que precisamos reencontrar. Porque sem fé na inteligência nacional, o país continuará dependente. Sem confiança na própria experiência, continuará colonizado. A verdadeira independência é espiritual.
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Eles nos deixaram o mapa dessa independência. Mas cabe a nós segui-lo. O caminho é longo e sinuoso, mas é o único que leva à maturidade.
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Há uma palavra que percorre silenciosamente as obras de Bomfim, Moog e Freyre: esperança. Não uma esperança ingênua, mas uma esperança lúcida, que nasce do enfrentamento. Para eles, o pensamento era o último refúgio do futuro. Acreditavam que a inteligência podia ser revolucionária, que compreender o país era uma forma de transformá-lo. Em tempos de cinismo, essa fé parece inocência, mas é força. Bomfim, Moog e Freyre pensaram o Brasil não para adaptá-lo, mas para redimi-lo.
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Bomfim acreditava na pedagogia da regeneração. Seu sonho era ver o Brasil educado na virtude, alfabetizado em consciência cívica. A República, para ele, não era um regime político, mas um projeto moral. Sua fé na educação era uma forma de revolução pacífica. Ele via no povo uma energia latente, sufocada por séculos de tutela. Queria libertar essa energia pela instrução e pela ética. Seu livro A América Latina: males de origem não é um tratado, é um grito. Bomfim escrevia como quem tenta acordar um país adormecido.
Moog, ao contrário, não grita, mas argumenta. Seu estilo é o da razão serena, o da observação paciente. Ele vê o Brasil não como um erro, mas como uma experiência inacabada. Seu método é o da comparação, mas sua intenção é o autoconhecimento. Ele queria que o Brasil se olhasse sem medo. Queria libertar o país do complexo de inferioridade que o condenava a se medir pelos outros. Sua esperança estava em ver o Brasil reconciliar-se com sua vocação de convivência.
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Freyre, por sua vez, acreditava que a beleza podia ser uma forma de sabedoria. Ele fez da sensualidade uma categoria sociológica. Ao descrever a casa-grande, a senzala, os costumes e as palavras, construiu uma teoria da formação nacional que ainda hoje desafia o pensamento hegemônico. Sua obra é uma defesa da delicadeza. Para Freyre, compreender é cuidar. Sua escrita transforma o ato intelectual em gesto de amor.
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Os três autores não propuseram utopias distantes, mas possibilidades próximas. O Brasil deles é um Brasil possível, que depende apenas de um olhar novo. Um olhar capaz de unir razão e afeto. Bomfim ofereceu a razão ética, Moog a razão comparativa, Freyre a razão estética. Três formas de inteligência que, reunidas, poderiam formar um pensamento verdadeiramente brasileiro.
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Mas o país sempre temeu o pensamento livre. Preferiu a segurança das teorias importadas à aventura do autoconhecimento. E assim fomos nos afastando daquilo que tínhamos de mais original. A elite intelectual brasileira, desde o século XX, oscilou entre a subserviência e o desprezo. Ora imitava a Europa, ora se negava. Nunca se olhou.
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Por isso o resgate desses três autores não é apenas acadêmico. É existencial. É a tentativa de recuperar a dignidade do olhar. Porque, sem olhar próprio, não há identidade. E o Brasil tem vivido de olhos emprestados.
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Reencontrar Bomfim, Moog e Freyre é um exercício de libertação. Eles nos ensinam que a emancipação não começa nas leis, mas na imaginação. A imaginação é o primeiro território da liberdade. Bomfim imaginou uma América moralmente emancipada. Moog imaginou um Brasil culturalmente soberano. Freyre imaginou uma civilização mestiça e afetiva. Suas imaginações eram políticas.
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O que fizeram foi, na verdade, fundar uma ética da interpretação. Bomfim ensinou que pensar é um dever cívico. Moog mostrou que compreender o outro é compreender a si mesmo. Freyre demonstrou que a convivência pode ser método. Eles transformaram o ato de pensar em ato de esperança.
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O tempo passou, mas suas vozes permanecem. Bomfim ainda ecoa nas discussões sobre desigualdade. Moog ainda inspira os debates sobre identidade. Freyre ainda ilumina as reflexões sobre cultura e corpo. Eles resistem porque tocaram o essencial: o humano.
O Brasil de 2025 vive um novo tipo de colonização, mais sutil, mas igualmente devastadora. É a colonização do sentido. A avalanche de teorias estrangeiras, de modismos acadêmicos e de discursos prontos substitui o pensamento pela repetição. A retórica tomou o lugar da reflexão. Bomfim, Moog e Freyre não caberiam nesse cenário. Seriam vistos como hereges.
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E, no entanto, são justamente os hereges que salvam as tradições. Eles nos lembram que a liberdade de pensamento é o primeiro passo para a liberdade política. Nenhum país pode ser democrático se não for intelectualmente livre.
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Por isso, revisitar suas obras é também um gesto político. Bomfim nos convida à indignação moral, Moog à ponderação inteligente, Freyre ao encantamento civilizatório. Juntos, formam a trindade da esperança brasileira.
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A esperança, para eles, não era abstração. Era método. Bomfim acreditava que educar era o caminho da redenção. Moog acreditava que comparar era o caminho da compreensão. Freyre acreditava que narrar era o caminho da cura. A soma dessas três ações — educar, comparar e narrar — forma o que poderíamos chamar de pedagogia da nação.
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O Brasil ainda não aprendeu essa lição. Continuamos a repetir slogans sem pensar. Continuamos a admirar o que vem de fora e a desconfiar de nós mesmos. Continuamos a confundir erudição com estrangeirismo.
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É por isso que Bomfim, Moog e Freyre são contemporâneos. Eles falam de um Brasil que ainda está por nascer. Um Brasil capaz de unir o rigor ao encanto, a crítica à ternura, a política à estética.
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Suas obras são chaves que abrem portas ainda fechadas. São mapas de um território que só existe quando olhado com amor. São as vozes que nos ensinam a acreditar no país sem idealizá-lo.
Ler Bomfim é reencontrar a moral como força transformadora. Ler Moog é reaprender a pensar sem servidão. Ler Freyre é descobrir a beleza como forma de resistência.
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E o que mais falta ao Brasil, talvez, seja justamente isso: beleza. A beleza como categoria moral. A beleza como prova de verdade. Bomfim acreditava que a feiura da corrupção era a negação do belo. Moog acreditava que a inteligência sem beleza se torna arrogância. Freyre acreditava que a beleza era a substância da convivência.
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Eles nos convidam a reencontrar o Brasil como obra inacabada e viva. Um país que precisa ser escrito de novo todos os dias.
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O Brasil não está pronto. E é isso que o torna fascinante.
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Há um instante em que o pensamento se torna canto. É o momento em que a razão toca o mistério e a crítica se converte em oração. Bomfim, Moog e Freyre chegaram a esse ponto. O pensamento deles não é apenas discurso, é oferenda. Cada um escreveu o Brasil como quem escreve uma confissão. Em suas obras, o país deixa de ser objeto e se torna sujeito.
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Bomfim é o profeta da moral pública. Sua escrita é febril e justa, feita de indignação e esperança. Ele acreditava que o Brasil poderia se redimir pelo conhecimento e pela virtude. Sua crítica às elites ociosas e ao parasitismo político continua a ecoar. Em um tempo de burocracias sofisticadas e corrupção emocional, a lucidez de Bomfim volta a ser necessária. Ele nos ensina que a ignorância coletiva não é destino, mas projeto, e que a emancipação do povo começa pela emancipação do pensamento.
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Moog é o diplomata da consciência. Seu olhar é o do viajante que observa com empatia. Ele entendeu que o Brasil é, antes de tudo, um estado de espírito. Entre a rigidez puritana e a fluidez tropical, ele viu a possibilidade de um novo humanismo. Seu método é o da comparação, mas sua conclusão é a da reconciliação. Ele acreditava que a inteligência brasileira, liberta dos complexos coloniais, podia criar uma ética própria, fundada na generosidade. Moog é o pensador da medida e da harmonia.
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Freyre é o poeta da convivência. Sua sociologia é uma celebração da vida. Ele fez do cotidiano uma metáfora da civilização. Mostrou que a história do Brasil não é apenas de opressão, mas também de resistência afetiva. Em seus livros, o corpo é protagonista. A pele, o cheiro, a voz e o gesto se tornam categorias analíticas. Ele viu que o país se constrói não apenas pela força, mas pelo contato. E nesse contato, mesmo atravessado pela dor, há criação.
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Os três, cada um à sua maneira, escreveram para que o Brasil existisse espiritualmente. E talvez essa seja a maior tarefa do pensamento: dar alma àquilo que existe apenas como forma. Bomfim deu consciência à política, Moog deu dignidade à cultura, Freyre deu sensualidade à sociedade. Eles completam um triângulo invisível onde a ética, a inteligência e a beleza se encontram.
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Mas a beleza, em Bomfim, Moog e Freyre, nunca é superficial. É a beleza da lucidez. É a beleza que nasce da coragem de ver o país como ele é, sem filtros nem autoengano. Essa beleza é dura, mas redentora.
O Brasil moderno vive cercado por novas colônias: a colonização das palavras, das emoções, das ideias. A retórica do progresso substituiu o pensamento da emancipação. O país fala muito, mas diz pouco. Analisa tudo, mas compreende quase nada. E é por isso que essas vozes antigas soam tão novas.
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Bomfim nos devolve o rigor moral, Moog o equilíbrio da razão, Freyre o encanto da sensibilidade. Três remédios para uma nação adoecida pela pressa e pela superficialidade. Eles nos curam da vergonha de sermos nós mesmos.
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Ler Bomfim, Moog e Freyre é como caminhar por uma paisagem esquecida, onde as palavras ainda têm peso e as ideias ainda têm alma. Cada frase deles é uma semente de futuro. Eles escreveram o Brasil como quem planta, e agora é tempo de colher.
O país precisa reaprender a falar de si com ternura e rigor. Precisa reaprender a imaginar-se. Precisa de novos intérpretes que saibam pensar com amor e sentir com razão. Bomfim, Moog e Freyre nos ensinaram essa arte difícil e urgente: a arte de compreender sem desprezar.
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Eles foram os primeiros decoloniais do Brasil, ainda que não usassem o nome. Pensaram o mundo a partir da periferia, a partir do trópico, a partir da carne. Não aceitaram ser eco do Norte. Produziram uma epistemologia da diferença, nascida da experiência viva.
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Bomfim libertou o pensamento do biologismo racista. Moog libertou o comparatismo do servilismo cultural. Freyre libertou a sociologia da rigidez positivista. Eles abriram as janelas de uma casa que ainda habitamos sem perceber.
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O Brasil é essa casa, ao mesmo tempo generosa e trágica, que precisa ser habitada com consciência. A leitura deles é o retorno ao lar. Um lar de palavras, ideias e afetos. Um lar onde o pensamento não exclui o sentimento, e a crítica não exclui a poesia.
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Há uma dimensão espiritual em tudo o que escreveram. Não no sentido religioso, mas no sentido simbólico. Eles compreenderam que o Brasil precisa ser salvo não apenas por reformas, mas por reconciliações. A reconciliação entre corpo e alma, entre razão e imaginação, entre o passado e o futuro.
Bomfim, Moog e Freyre nos convidam a essa travessia. Eles nos dizem que o Brasil é, antes de tudo, uma promessa. E toda promessa só se cumpre quando há memória.
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A memória é a matéria-prima da liberdade. Um país que esquece seus pensadores esquece o próprio destino. O cancelamento deles não é apenas injustiça, é sintoma. É o sintoma de uma cultura que teme o espelho. Mas quem foge do espelho foge da cura.
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É preciso ter coragem de se ver. É preciso ler Bomfim e sentir a vergonha necessária. Ler Moog e perceber a diferença entre orgulho e arrogância. Ler Freyre e entender que a beleza não é adorno, é fundamento.
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Eles são os mestres da lucidez afetiva. Ensinaram-nos que compreender é o primeiro gesto de amor. Que pensar é cuidar. Que escrever é resistir.
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No fundo, Bomfim, Moog e Freyre formam o que poderíamos chamar de uma trindade civilizatória. Bomfim é o fogo da consciência, Moog é o ar da inteligência, Freyre é a terra da sensibilidade. O quarto elemento, a água, somos nós, os leitores, os intérpretes que reanimam o sentido.
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Cabe a nós continuar o que eles começaram. O pensamento deles não é herança, é convocação. Eles nos chamam a pensar o Brasil de novo, a partir do Brasil.
O verdadeiro progresso começa na imaginação. E a imaginação começa quando o pensamento se atreve a ser amoroso.
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Bomfim, Moog e Freyre não nos pedem reverência, mas continuidade. Querem que sejamos dignos do país que imaginaram. Um país em que o saber seja generoso, o poder seja ético e a convivência seja bela.
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O Brasil ainda pode ser esse país. Ainda pode cumprir a promessa que carrega em sua mistura, em sua língua, em sua música, em sua ternura.
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Um dia, quando formos capazes de unir a lucidez de Bomfim, a serenidade de Moog e a delicadeza de Freyre, talvez o Brasil desperte.
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E então, nesse instante, tudo o que eles escreveram deixará de ser passado. Tornar-se-á futuro.
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Porque o Brasil que sonharam ainda não nasceu, mas pulsa. Está vivo no silêncio das bibliotecas, no brilho das vozes esquecidas, no desejo de um povo que, mesmo cansado, ainda quer compreender-se.
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Esse é o Brasil que espera. O Brasil que pensa. O Brasil que ama.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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