Crianças de famílias com maior renda acumulam até 2.232 horas extras de aprendizado nas férias, enquanto estudantes de baixa renda seguem sem acesso a atividades estruturadas, diz estudo
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Com o início do recesso escolar, a desigualdade no acesso às atividades educativas, esportivas e culturais ganha ainda mais evidência no Brasil. Uma pesquisa do Itaú Social, em parceria com o Plano CDE, revela que, até o final do Ensino Fundamental, crianças de famílias com maior poder aquisitivo podem acumular mais de 7 mil horas adicionais de aprendizado em comparação com aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade — sendo 2.232 horas apenas durante o período de férias.
O levantamento “Cada Hora Importa” mostra que o tempo fora da sala de aula também pode contribuir significativamente para o processo de aprendizagem, mas não está igualmente disponível para todos. Famílias com maior renda investem em colônias de férias, cursos, viagens e programas culturais. Já aquelas em condição de vulnerabilidade enfrentam limitações como falta de recursos, tempo e acesso a opções gratuitas.
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“O tempo fora da escola representa uma oportunidade valiosa para que crianças e adolescentes pratiquem atividades esportivas, musicais e literárias, além de frequentarem espaços culturais como teatros, museus e cinemas, experiências que podem trazer benefícios para o desenvolvimento emocional e cognitivo. No entanto, o acesso a essas atividades ainda é marcado por desigualdades. Por isso, é essencial que as políticas públicas assegurem a todas as famílias, independentemente do território em que vivem ou da classe social, o direito a essas opções de lazer e enriquecimento cultural”, afirma Juliana Yade, coordenadora de Educação Infantil do Itaú Social.
Divulgado em 2021, o estudo analisa dados nacionais de diferentes fontes, como a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e o Censo Escolar de 2019, traçando um retrato da distância entre dois extremos: crianças com renda familiar média de R$ 145 per capita e aquelas com R$ 6.929. O mapeamento aponta que o ritmo de aprendizagem fora da escola está diretamente ligado à renda familiar — um fator decisivo no percurso educacional de milhões de estudantes brasileiros.
Atividades nas férias
Enquanto uma parte das crianças e adolescentes participa de atividades pagas em clubes ou escolas particulares, o acesso dos estudantes mais vulneráveis depende quase exclusivamente de iniciativas gratuitas. Em Coruripe, município alagoano a 90 km de Maceió, o projeto “Farol da Cidadania” é uma dessas alternativas. Durante todo o ano, inclusive nas férias, o projeto oferece oficinas culturais gratuitas como capoeira, danças afro-brasileiras, contação de histórias e rodas de conversa sobre identidade racial.
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“Em cada ciclo do projeto, buscamos contribuir para que crianças e adolescentes permaneçam na escola. Acreditamos que os escritórios de arte e esportes oferecidos pela organização são fundamentais para garantir seus direitos e promover o desenvolvimento integral dos estudantes”, explica Elytânya Vasconcelos, psicóloga da Avic ( Associação Vida e Cidadania), organização responsável pela iniciativa .
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Outra organização que permanecerá de portas abertas para crianças e adolescentes no período do recesso escolar é a Associação Comunitária Olavo Bilac, localizada em Santa Cruz do Capibaribe (PE). A instituição promove o “Projeto Família Titãs” em que são oferecidos cursos profissionalizantes e de informática, além de oficinas de geração de renda para estudantes e seus familiares.
“Neste ano, já oferecemos um workshop de ‘Ovos de Páscoa de Colher’ e de pirulito de chocolate como alternativa de complemento à renda familiar. Estamos programando uma capacitação de design de sobrancelhas para as mães e um curso de informática para crianças”, conta Joana Darc, coordenadora do projeto.
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Já no município de Afuá (PA), o projeto “Infância de Valor: Caminhos para a Educação” preparou uma programação de férias no Complexo de Atividades Emily Galdino. O espaço organizou momentos de brincadeiras com as crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e em medidas de proteção do território, oferecendo gincanas ao ar livre e disponibilizando brinquedos, como o pula-pula.
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“Sabemos que o nosso município não conta com espaços de lazer, como cinemas e parques, portanto, estamos trazendo esses momentos para dentro do espaço. Teremos um cinema montado aqui mesmo, com direito a pipoca, filme especial e aquele clima divertido que as crianças gostam”, explica Priscila Rodrigues, representante da organização.
Educação integral e seus benefícios
As atividades oferecidas fora da série curricular fazem parte do conceito de educação integral, previsto na BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Segundo o estudo “ Artes e Esportes: Relação com o Desenvolvimento Humano Integral ”, também liderado pelo Itaú Social em parceria com pesquisadores da Universidade de Cambridge, práticas artísticas e esportivas realizadas dentro e fora do ambiente escolar têm impacto direto no desenvolvimento das crianças.
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De acordo com a análise, atividades esportivas, por exemplo, podem promover a inclusão e o empoderamento de crianças e adolescentes. Já entre as manifestações artísticas, a música se destaca por favorecer o julgamento espacial-temporal; a dança contribui para o desenvolvimento da persistência e da autoconfiança; e as artes plásticas estimulam diferentes formas de interpretar o mundo.
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