LITERATURA

Quanto mais avançamos na vida, mais nos convencemos de duas verdades… – Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Quanto mais avançamos na vida, mais nos convencemos de duas verdades que todavia se contradizem. A primeira é de que, perante a realidade da vida, soam pálidas todas as ficções da literatura e da arte. Dão, é certo, um prazer mais nobre que os da vida; porém são como os sonhos, em que sentimos sentimentos que na vida se não sentem, e se conjugam formas que na vida se não encontram; são contudo sonhos, de que se acorda, que não constituem memórias nem saudades, com que vivamos depois uma segunda vida.

A segunda é de que, sendo desejo de toda alma nobre o percorrer a vida por inteiro, ter experiência de todas as coisas, de todos os lugares e de todos os sentimentos vividos, e sendo isto impossível, a vida só subjectivamente pode ser vivida por inteiro, só negada pode ser vivida na sua substância total.

Estas duas verdades são irredutíveis uma à outra. O sábio abster-se-á de as querer conjugar, e abster-se-á também de repudiar uma ou outra. Terá contudo que seguir uma, saudoso da que não segue; ou repudiar ambas, erguendo-se acima de si mesmo em um nirvana próprio.

Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espectáculo externo de todas as impressões alheiam. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.

O campónio, o leitor de novelas, o puro asceta — estes três são os felizes da vida, porque são estes três que abdicam da personalidade — um porque vive do instinto, que é impessoal, outro porque vive da imaginação que é esquecimento, o terceiro porque não vive, e, não tendo morrido, dorme.

Nada me satisfaz, nada me consola, tudo — quer haja sido, quer não — me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero.

.
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. – 420.

“Fase confessional”, segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Mais sobre e com Fernando Pessoa:
Fernando Pessoa – o poeta de múltiplos eus
Fernando Pessoa (poemas e textos)

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Casa do Choro | Orquestra Furiosa Portátil apresenta ‘Os choros do Guerra-Peixe’

O sexto concerto da Temporada 2026 da Orquestra Furiosa Portátil traz um panorama da música…

41 minutos ago

Show “Samba em Família” leva Marianna Leporace à Sala Nelson Pereira dos Santos

Marianna Leporace apresenta o show Samba em Família no dia 24 de setembro, quinta-feira, às…

2 dias ago

Emmanuele Baldini rege e atua como solista no Teatro Colón, em concerto pelos 80 anos da Filarmónica de Buenos Aires

O violinista e maestro Emmanuele Baldini será o regente e solista convidado da Filarmónica de Buenos Aires no concerto Ecos…

3 dias ago

Pitty lança single ‘Sobremesa’

“Sobremesa”, primeiro single do novo álbum ⚡PITTY⚡, já está disponível em todas as plataformas de…

3 dias ago

Duo Azú: Luíza Abe e Rodrigo Zanettini lançam álbum ‘Aonde Vamos Daqui’

AZÚ investiga contradições humanas com refinamento estético em álbum de estreia 'Aonde Vamos Daqui'. Duo…

4 dias ago

Queremos! Anuncia shows de Joshua Redman no Brasil

Saxofonista e compositor americano se apresenta dia 29 de setembro no Teatro Bradesco (SP) e…

4 dias ago