Gerard Fromanger - Corps à corps, bleu (2006)
A história das sociedades humanas é também a história das batalhas invisíveis por símbolos e significados; por séculos, reis, impérios e religiões compreenderam que a força mais duradoura não se exerce apenas pela espada ou pelo decreto, mas pela capacidade de impregnar o imaginário coletivo com imagens, narrativas e crenças que parecem naturais, inevitáveis e eternas. Hoje, a extrema-direita compreendeu com uma nitidez impressionante que o verdadeiro poder se consolida quando se controla não apenas o que as pessoas pensam, mas como elas sentem diante das palavras, das bandeiras, das cores e dos gestos; que um símbolo carregado de emoção pode mover mais do que uma biblioteca inteira de argumentos.
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Se, como ensinou Walter Benjamin, todo ato de transmissão cultural é também um ato político, então é preciso reconhecer que a guerra do nosso tempo não se trava apenas no parlamento ou nas urnas, mas nas ruas e nas redes, nos slogans e nas canções, nas metáforas que traduzem e distorcem a realidade. A extrema-direita compreendeu que cada hashtag é uma trincheira, que cada meme é uma flecha, que cada mito fabricado pode se infiltrar como verdade indiscutível nos recantos mais íntimos da consciência coletiva; e nós, tantas vezes, ficamos aprisionados na ingenuidade de repetir, corrigir, refutar, sem perceber que, ao fazê-lo, reforçamos os mesmos marcos simbólicos que nos aprisionam.
Pierre Bourdieu nos alertou sobre o poder invisível que se exerce através da linguagem, dos hábitos e dos rituais; esse poder que se disfarça de neutralidade e se apresenta como senso comum, mas que é, na verdade, um campo de disputa feroz. Quando a extrema-direita escolhe vestir-se de guardiã da tradição, da pátria e da família, ela não está apenas oferecendo um programa político, mas erguendo um altar simbólico ao redor do qual convoca devoção; e cada imagem, cada palavra e cada gesto são armas cuidadosamente calibradas para moldar um mundo que parece dado, mas que é profundamente fabricado.
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Aqueles que se opõem a esse avanço muitas vezes se dedicam a apontar erros factuais, desmontar estatísticas distorcidas ou denunciar contradições; esquecem que o terreno decisivo dessa batalha é afetivo e imaginário. Hannah Arendt nos lembraria que a verdade política não se sustenta apenas na comprovação, mas na capacidade de se enraizar no mundo como algo que as pessoas sintam como real; e isso só se conquista quando se aprende a criar símbolos que não apenas informem, mas toquem e transformem.
Max Weber descreveu a política como a lenta perfuração de tábuas duras; mas, antes de perfurá-las, é preciso identificar de que madeira elas são feitas, quais fissuras já existem, quais imagens colam na sua superfície e quais não têm aderência. Disputar sentidos é aprender a trabalhar na gramática das emoções coletivas, compreender que um símbolo não é apenas um adorno do discurso, mas o próprio campo onde a disputa se decide; e que uma palavra, se dita com a imagem e o gesto certos, pode tornar-se um estandarte que arrasta multidões.
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A resistência que se recusa a entrar nessa arena condena-se à irrelevância; quem se limita a reagir a símbolos alheios aceita as regras do jogo impostas pelo adversário. É preciso criar narrativas próprias, resgatar imagens ancestrais e reinventar outras; como ensinou Ernst Cassirer, o ser humano é, acima de tudo, um animal simbólico; portanto, abandonar essa dimensão equivale a abandonar a própria essência da política.
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Erich Fromm, ao refletir sobre a liberdade, nos mostrou que as pessoas não apenas buscam emancipar-se, mas também anseiam por referências, por sinais que as orientem no caos do mundo moderno; e a extrema-direita soube oferecer esses sinais com uma força emocional capaz de suplantar qualquer racionalidade. A esquerda e os democratas, ao negligenciarem esse território, deixam órfãos aqueles que buscam pertencimento; e sem símbolos que sustentem o afeto e a identidade, qualquer projeto político se torna frágil diante da retórica sedutora do autoritarismo.
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É nesse ponto que a música, as telenovelas, a literatura, as paixões populares e o entretenimento cotidiano revelam-se não como meros adornos culturais, mas como chaves poderosas de compreensão e abertura para o mundo dos sentidos; nelas, vivem e respiram símbolos arraigados ao coração da maioria da população no Brasil inteiro. Uma canção pode condensar décadas de dor e esperança; uma novela pode traduzir dramas sociais em tramas íntimas que falam à alma; um romance pode tornar palpável a dignidade ou a humilhação de um povo; um time de futebol pode ser o estandarte emocional de comunidades inteiras. No Brasil, artistas como Arlindo Cruz, compositor, sambista e cronista das emoções populares da cidade do Rio de Janeiro, mostram que é possível produzir sentido, compreensão, simpatia e emoção de forma tão profunda que sua obra se torna um território de pertencimento para milhões. Ele é exemplo de como a cultura popular, quando atravessa a vida cotidiana, molda a forma como as pessoas percebem o mundo e a si mesmas. Quem ignora essa dimensão simbólica abdica de dialogar com o campo mais fértil da imaginação coletiva; quem despreza a cultura popular despreza o próprio chão onde se formam as identidades e os afetos que movem a política.
Não basta achar, é preciso compreender; e compreender é mais do que decifrar intenções ou calcular interesses; é aprender a ver que cada bandeira hasteada, cada música entoada, cada cor escolhida, cada trama televisiva assistida por milhões, está inscrita em um mapa de significados onde se definem lealdades e inimizades. Aquele que conhece essa cartografia sabe que as palavras não são inocentes e que a disputa por elas é, ao mesmo tempo, a disputa por mundos possíveis; e que, sem ocupar esse território, qualquer vitória será apenas provisória e frágil.
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A disputa simbólica exige persistência, imaginação e coragem; exige a capacidade de falar para além das convicções já consolidadas, de penetrar no imaginário daqueles que ainda não se decidiram e de oferecer-lhes algo mais profundo do que um argumento correto: oferecer uma narrativa que faça sentido para sua vida, que conecte sua experiência cotidiana a um horizonte coletivo. Nessa disputa, o que está em jogo não é apenas a política, mas a própria noção de verdade, de justiça e de humanidade. Por isso, a pergunta que se coloca é urgente: vamos continuar repetindo discursos prontos, sempre respondendo aos símbolos dos outros, ou vamos aprender a criar os nossos; símbolos que inspirem, que encantem, que convoquem; símbolos que façam do ato político não apenas um cálculo, mas uma experiência de pertencimento, de esperança e de transformação? Quem domina os símbolos não apenas vence eleições; molda o horizonte do que é possível imaginar e, portanto, do que é possível viver. E é aí que se decide o futuro.
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[Cabo Frio/RJ, 12 de agosto de 2025]
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* Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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