Gibran Khalil Gibran - Autorretrato con musa, 1911

“Além de atrair pelo pensamento e pelo estilo, O Profeta seduz pela filosofia da vida nele contida. Gibran não era um filósofo no sentido transcendental da palavra. Não trouxe uma nova doutrina, uma nova interpretação do universo.

Era um filósofo no sentido humano da palavra, um pensador, um guia. E trouxe o que talvez mais falte a este século … tão rico e tão pobre ao mesmo tempo: uma nova fé no homem, uma nova fé na vida.

Redescobriu o papel do coração. pregou a ternura no meio de tantas máquinas inexoráveis e da concordância impiedosa dos tempos.

‘O Profeta’ nos clama a despertar e desenvolver as reservas de bondade soterradas sob as amarguras e a dureza da existência.

E não nos convida a renunciar às boas coisas da vida, mas a sermos dignos delas, e a viver ao nível do que há de mais elevado em nós.”

“Um livro que inspira e reconforta numa época de perplexidade”
– Mansour Challita (tradutor de Gibran)

‘O Conhecimento’ – ‘O ensino’ e ‘A conversação’ – Khalil Gibran

O conhecimento de si próprio

E um homem disse: “Fala-nos do conhecimento de si próprio.”
E ele respondeu, dizendo:
“Vosso coração conhece em silêncio os segredos dos dias e das noites;
Mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração sabe.
Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.

Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos. E é bom que o desejeis.

A nascente secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando para o mar;
E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.
Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos;
E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com uma vara ou uma sonda,
Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.

Não digais: ‘encontrei a verdade.’ Dizei de preferência ‘Encontrei uma verdade.’
Não digais: ‘Encontrei o caminho da alma.’ Dizei de preferência: ‘Encontrei a alma andando em meu caminho.’
Porque a alma anda por todos os caminhos.
A alma não marcha em linha reta nem cresce como um junco.
A alma desabrocha, qual um lótus de inúmeras pétalas.”

O ensino

Então, um professor disse: “Fala-nos do ensino.”
E ele respondeu, dizendo:
“Homem algum poderá revelar-vos senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento.
O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.
Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas vos conduzirá antes ao limiar de vossa própria mente.

O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não vos poderá dar a sua compreensão.
O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo, mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.
E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos pesos e das medidas, mas não vos poderá levar até lá.

Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.

E assim como cada um de vós se mantém isolado na consciência de Deus, assim cada um deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria interpretação das coisas da terra.”

A conversação

Então um literato disse: “Fala-nos da Conversação.”

E ele respondeu:
“Vos falais quando deixais de estar em paz com vossos pensamentos;
E quando não podeis mais viver na solidão de vosso coração, procurais viver nos vossos lábios, e encontrais então uma diversão e um passatempo nas vibrações emitidas.
E em grande parte de vossas conversações, o pensamento é meio assassinado.
Pois o pensamento é uma ave do espaço que, numa gaiola de palavras, pode abrir suas asas mas não pode voar.
Há entre vós aqueles que procuram os faladores, por medo da solidão.
O silêncio da solidão revela-lhes seu Eu desnudo, e eles preferem escapar-lhe.
E há aqueles que falam e, sem saber ou prever, revelam uma verdade que eles próprios não compreendem.
E há aqueles que possuem a verdade dentro de si, mas não a expressam em palavras.
No íntimo de tais pessoas, o espírito habita num silêncio rítmico.
Quando encontrardes vosso amigo na rua ou no mercado público, deixai que o espírito que está em vós ponha em movimento vossos lábios e dirija vossa língua.
E que a voz escondida na vossa voz fale ao ouvido de seu ouvido;
Pois sua alma guardará a verdade de vosso coração, como é lembrado o sabor do vinho,
Mesmo depois que a sua cor houver sido esquecida, e a taça que o continha não mais existir.”

– Gibran Khalil Gibran, em “O Profeta” | The Prophet.[tradução e apresentação Mansour Challita]. Rio de Janeiro: Associação Cultural Internacional Gibran; José Fagundes do Amaral e Cia Ltda, 1980.

Khalil Gibran – ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor

KHALIL GIBRAN E O PROFETA

Gibran Khalil Gibran nasceu no Líbano em 1883 e faleceu em Nova Iorque em 1931, com 48 anos, registrada a causa mortis como cirrose e tuberculose. Foi ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor, com seus escritos alcançando admiração.

O tradutor e apresentador da obra, Mansour Challita diz:

“Gibran é o Líbano. Gibran foi um dos três mais importantes renovadores da literatura árabe e que o livro é uma robusta análise histórica do Líbano, dentro de contextos sociológicos que proporcionam um entendimento da importância literária desse profeta do Oriente.”

“O livro inspira e reconforta numa época de perplexidade. É um retorno simultâneo à natureza e aos assuntos básicos da vida, levando o leitor ao mais cândido de si mesmo e ao mais remoto dos seus dias, seduzindo pela filosofia da vida nele contida. Gibran era um guia espiritual que ambicionava definir um ideal de vida para si mesmo e para todos os homens, não propondo heroísmo, mas a grandeza, não convidando a renunciar à vida, mas sermos dignos dela.”

Austregésilo de Athayde, escritor que presidiu a Academia Brasileira de Letras, durante 34 anos, falecido em 1993, de Gibran Khalil disse na edição de 1975:

“O Oriente não teve poeta que exprimisse melhor a delicadeza mística de sua alma. Gibran é um desses mestres da sabedoria que ensinam a arte de viver pela conquista da paz interior nutrida na contemplação da beleza. O seu convívio intelectual apazigua as dúvidas do coração, alimenta a fé na superioridade espiritual do homem, num estilo ao mesmo tempo cheio de vida e simplicidade.”

 

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