Maracanã não se vende: pelo estádio-símbolo do povo do Rio de Janeiro e do Brasil, por Paulo Baía
A ideia de vender o Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã, representa um equívoco histórico, social e afetivo de proporções imensuráveis. Trata-se de um monumento do povo carioca, um patrimônio público que resiste ao tempo e às transformações, e que não pode, não deve, ser relatado como simples bem de mercado. O anúncio de que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) poderia autorizar a alienação do Complexo do Maracanã, por meio do Projeto de Lei Complementar 40/2025, torna-se, portanto, motivo de alerta e indignação. Ouvi-lo como cidadão, como carioca, como brasileiro, é assumir uma postura firme: o Maracanã pertence ao Estado do Rio de Janeiro, pertence ao Brasil, pertence ao coração do futebol e à memória coletiva nacional.
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O Maracanã é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde dezembro de 2000 no Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, e o conjunto que forma o Complexo do Maracanã (incluindo o Maracanãzinho, o Célio de Barros, o Júlio Delamare) é por decreto municipal tombado desde 2002. Esse reconhecimento oficial confirma aquilo que o povo carioca já sabe no íntimo: o estádio não é apenas cimento, arquibancadas e gramado. É matriz simbólica de identidade e convocação popular. Transformar esse lugar em objeto de venda é adotar lógica oposta à democracia cultural, ao direito à cidade, ao pertencimento coletivo.
A relevância do Maracanã extrapola os limites geográficos do Rio de Janeiro. Foi palco da Copa de 1950 com público oficial de 173 850 pessoas, num símbolo da história do futebol mundial. Foi sede da final da Copa do Mundo de 2014. Recebeu as cerimônias de abertura e encerramento da Olimpíada Rio 2016, projetando o Brasil ao mundo. Ele não é apenas o estádio dos clubes, é o palco público onde o futebol brasileiro encontra a sua paixão, a sua multidão, o seu rito social. Vender esse espaço é vender um fragmento essencial da cultura brasileira.
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Mas a importância vai além dos grandes eventos. O Maracanã integra o cotidiano carioca e fluminense. É roteiro turístico oficial. Oferece visitas de memória, é destino de excursões escolares, palco de shows, manifestações cívicas, encontros populares. É lugar onde gerações se conheceram, onde famílias se reuniram, onde torcedores celebraram vitórias e sofreram derrotas. A afetividade pela arquibancada amarela-ouro, pela curva vermelha, pela voz que ressoa no concreto, é algo que não se compra ou se vende. Ensinar-se-ia nas escolas a história desse estádio se ele fosse propriedade privada? Ou se perderia parte do significado intacto que hoje possui?
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Nos últimos anos, o Maracanã funciona sob concessão estatal. O governo do Estado do Rio de Janeiro assinou contrato de 20 anos com o consórcio formado por Flamengo e Fluminense, com outorga anual e investimentos previstos em milhões. Essa modalidade de parceria público-privada permite que o estádio mantenha seu caráter público e a iniciativa privada participe de sua operação eficiente. Assim ele continua servindo ao público, à cidade, ao estado e aos clubes, sem que se descaracterize como patrimônio de todos. Essa fórmula deve ser preservada, não substituída pela alienação pura e simples.
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É inaceitável que se tente, por via legislativa, permitir a venda de bens públicos do Estado. E que o Complexo do Maracanã seja incluído entre os 62 imóveis elencados na PLC 40/2025 para possível alienação com o objetivo de abater dívida com a União. A lógica de tratar o Maracanã como ativo financeiro, fatiável, negociável, é radicalmente oposta à lógica de bem comum, de uso coletivo e de memória viva. A proposta, aprovada na CCJ da Alerj e aguardando votação em plenário, constitui uma ameaça à história e à identidade carioca, fluminense e brasileira.
Do ponto de vista técnico e sócio-antropológico, o Maracanã é elemento estruturante do habitus carioca: campo de sociabilidade, integração, resistência cultural. No aspecto psico-social, ele representa segurança de pertencimento: as arquibancadas funcionam como comunidade temporária, onde a distinção entre classe, cor ou procedência se dissolve no grito de gol, na bandeira agitada, no gesto de pertença. Privatizar esse espaço tornaria esse comum vulnerável à lógica de exclusão. Em vez de acesso amplo e democrático à manifestação popular do futebol e da cultura, poderíamos ver tarifas, restrições, mudanças de função que limitem o uso coletivo.
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No âmbito jornalístico e político, a proposta é ousada, até irresponsável. Submeter à lógica mercantil um monumento que é referência mundial em futebol e em cultura de massas é ignorar o fato de que a concessão existente já atende ao interesse público estatal e popular. É ignorar que muitos protestos populares, como os de 2013 no entorno da Aldeia Maracanã e outras áreas, foram organizados porque o público sentiu que seu patrimônio estava em risco, e reagiu. Tornar o Maracanã mercadoria mata parte da memória, desmonta parte da cidade, retira do povo aquilo que é do povo.
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A venda do Maracanã implicaria perda simbólica. O Rio de Janeiro perderia um dos pilares de sua identidade, o Brasil perderia um símbolo público de sua grandeza no esporte, e o futebol perderia um de seus palcos mais democráticos, aquele onde o acesso ainda pode refletir o povo e não apenas elites. A manutenção do estádio como patrimônio público, operado via concessão estatal, representa, tecnicamente, socialmente e antropologicamente, o caminho correto. A venda seria um tiro no pé da cultura do futebol, da cultura carioca e da democratização da cidade-espaço.
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Por isso manifesto veementemente a minha contrariedade à venda do Estádio do Maracanã. Que o poder público estadual preserve o estádio como patrimônio do povo, que a concessão vigente continue, que a chancela pública permaneça, que o Maracanã continue sendo nosso, do Rio, do estado, do Brasil. Que a lógica do comum prevaleça sobre a lógica do mercado. Que o grito de gol siga ecoando na massa, livre, vibrante, inclusiva, e que esse símbolo permaneça conforme sempre foi: de todos nós.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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