SOCIEDADE

Idosas viviam com ração de gato, por Fabrício Carpinejar

Se você não tem família, pode morrer sozinho. A sociedade não cuida de ninguém.
Como tenho pais de 86 anos, sofro com o descaso aos mais velhos como se arrancassem parte da minha carne.
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Em 2025, até 30 de junho, foram contabilizadas 332 ocorrências, mantendo uma média de quase dois abandonos por dia.
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O país envelhece — e cresce junto a negligência com os idosos, obrigados a resistir com uma renda mínima da aposentadoria, incapazes de se deslocar para suprir suas necessidades básicas.

O salto da longevidade não é acompanhado por políticas públicas.
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Na zona sul de Porto Alegre, no bairro Nonoai, foram resgatadas duas irmãs, de 90 e 92 anos, que sobreviviam dividindo a ração com seu gato. Ainda se preocupavam em repartir a porção de modo igual com o bichinho.
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A intervenção ocorreu na sexta-feira (11), pela Polícia Civil, informada do caso pelo Ministério Público.
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Elas não compreendiam o que estava errado, mergulhadas no mais fundo desamparo, acreditando que era normal se sustentar com a comida do felino.
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Surgiram desnutridas e adoecidas, com problemas de diabetes, correndo sérios riscos de intoxicação. Não se encontravam na pobreza, mas na miséria.

Quanto tempo suportaram a mendicância em seu próprio apartamento? Quanto tempo conviveram com o odor de urina, de esgoto, de alimentos podres, com as roupas sujas e as cortinas fechadas, no mais completo blecaute da civilidade? Meses? Anos?
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Quantas folhinhas foi preciso destacar do calendário para que os vizinhos desconfiassem da extrema penúria?
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Como pararam de sair devido à limitação física, ficaram isoladas, sem conseguir mais fazer compras.
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Não tinham filhos nem parentes próximos. Jamais recebiam visitas.
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Uma alicerçava a outra no impossível.

Tudo o que estava naquela casa — na mesa, na geladeira, na cama — se equivalia em mofo e passado. Nada ali estava mais dentro da data de validade. Nem a esperança.
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As irmãs foram levadas para atendimento médico no Hospital Vila Nova, na capital, onde seguem internadas.
O hospital é o único lugar onde elas serão percebidas. Por um breve período.
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Pior do que a morte é o esquecimento: a morte em vida.
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*Publicado originalmente no Zero Hora.
ocorrência – 11.7.2025

Revista Prosa Verso e Arte

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