Gustavo Ortiz - foto: Diogo Mar
EP ‘Desafogo’ de Gustavo Ortiz, reúne composições feitas ao longo de 16 anos. Com produção de Romulo Fróes e participações de nomes como Thiago França e Rodrigo Campos, o trabalho parte do cotidiano para imaginar outras formas de viver. O lançamento chega acompanhado do videoclipe da faixa ‘Desafogo’, que dá nome ao álbum
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Gustavo Ortiz lança o EP Desafogo, que marca sua estreia em gravações autorais. O projeto começou a ser gestado em 2009 e foi retomado em 2023, após um encontro com o cantor e compositor Romulo Fróes. “O termo desafogo também diz respeito ao meu próprio desafogo de colocar, enfim, minhas canções no mundo”, comenta o artista.
As músicas partem do violão e da voz como elementos estruturantes, reforçados por percussões de Daniel Antonio, parceiro de longa data de Ortiz. Por sugestão de Romulo Fróes, o projeto ganhou novos contornos com as contribuições de Rodrigo Campos (cavaquinho) e Thiago França (sopros). “Trata-se de um trabalho de canção, essa força estruturante da música brasileira. O coração do EP reside nas histórias que cada faixa conta”, explica Ortiz.
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Duas faixas já foram lançadas previamente como singles. A primeira, Trago, saiu em março e integrou playlists editoriais das principais plataformas de streaming. A segunda, José, João, chegou em 1º de maio, Dia do Trabalhador, e contou com participação vocal de Romulo Fróes. O clipe da música utiliza imagens de arquivo do aniversário de 3 anos do artista, homenageando figuras trabalhadoras de sua família, incluindo seu pai, falecido após a aposentadoria durante a pandemia.
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A canção Desafogo, que dá nome ao EP, ganha um videoclipe no mesmo dia do lançamento. Com direção de Marco Escrivão, direção criativa de Gabriela Loreti e coreografia de Marina Sanches, o vídeo foi gravado em uma construção em ruínas adaptada cenograficamente para remeter a uma casa. A fotografia é de Iasha Salerno, que utilizou recursos analógicos para criar uma ambiência distanciada de tempo e lugar. A dança percorre três estados: contenção, tensão e desafogo, acompanhando o movimento da música.
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“O videoclipe quer expressar a criação de uma vida possível em meio àquela casa em ruínas, uma dança que deseja um desafogo”, explica Ortiz. A produção foi realizada com recursos da Lei Paulo Gustavo do município de São Carlos (SP).
O repertório do EP reflete inquietações sobre formas de existir e resistir. “O tema que conecta as músicas é o desafogo – a necessidade de criarmos modos de viver em que não nos sentimos sufocados”, afirma o artista. O projeto parte da vivência cotidiana, do trabalho, das relações e do corpo para propor pequenas fugas e possibilidades.
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Ainda em 2025, está previsto o lançamento da versão instrumental do EP. A divulgação do trabalho está sendo feita pelo selo TRUQ, com comunicação e identidade visual da Buzz Music Content.
EP ‘Desafogo’ • Gustavo Ortiz • Selo Independente • 2025
Canções / compositores
1. Trago (Gustavo Ortiz)
2. Desafogo (Gustavo Ortiz)
3. Casca cascata (Gustavo Ortiz e Thiago Ribeiro)
4. José, João (Gustavo Ortiz)
5. Botafé (Gustavo Ortiz)
– ficha técnica –
Faixa 1 – Voz e violão: Gustavo Ortiz; Percussão: Daniel Antônio; Cavaco: Rodrigo Campos; Saxofone: Thiago França | Faixa 2 – Voz e violão: Gustavo Ortiz; Flautas e saxofone: Thiago França; Pandeiro e efeitos: Daniel Antônio; Cavaquinho: Rodrigo Campos; Coro: Bruna Lucchesi, Mari Tavares e Tati Burg | Faixa 3 – Voz e violão: Gustavo Ortiz; Percussão: Daniel Antônio; Cavaco: Rodrigo Campos | Faixa 4 – Voz e violão: Gustavo Ortiz; Voz: Romulo Fróes; Percussão: Daniel Antônio; Cavaco: Rodrigo Campos | Faixa 5 – Voz e violão: Gustavo Ortiz; Percussão: Daniel Antônio; Cavaco: Rodrigo Campos; Sopros: Thiago França; Coro: Bruna Lucchesi, Mari Tavares e Tati Burg | Produção musical e direção artística: Romulo Fróes | Engenharia de som, mixagem e masterização: Frederico Pacheco | Gravado no estúdio O&O | Foto de capa e divulgação: Diogo Mar | Arte da capa: Guilherme Boldrin || Videoclipe – Produção: Águaviva Produções; Concepção e roteiro: Gustavo Ortiz e Gabriela Loreti; Direção: Marco Escrivão; Direção de fotografia e operação de câmera: Iasha Salerno; Direção de Arte e Figurino: Gabriela Loreti; Coreografia e Performance: Marina Sanches; Montagem: Carlos Corrêa; Colorização: Demilson Jr.; Acessibilidade: ETC Filmes; Fotografia Still: Diogo Mar; Co-produção: Kaburé Filmes e Oficina Corisco; Apoio: O Novo Lab || *Projeto realizado com apoio do Edital Lei Paulo Gustavo Municipal São Carlos/ SP 2023.|| Assessoria de imprensa: Sarah Martins e Junior Costa / Assessoria Bianco | Selo: Independente | Distribuição digital: Tratore | Formato: EP digital | Ano: 2025 | Lançamento: 20 de junho | ♪Ouça o EP: youtube / spotify | ♩Assista o clipe ‘Desafogo’: clique aqui.
FAIXA A FAIXA
Trago: A faixa se inicia com um saxofone preparando o clima para a entrada de um riff de violão que desemboca numa batida com influência de João Gilberto e um cavaco executado menos como função harmônica do que como uma lança certeira que atravessa a canção e pontua acentos, ou uma agulha rija costurando seu tecido, um pouco como algumas guitarras do Radiohead. Além da conga tocada por Daniel Antonio, que já apresenta a importância da percussão no meu trabalho e as influências das matrizes rítmicas africanas. A letra curta flutua num jogo semântico em torno da primeira pessoa do singular dos verbos trazer e tragar, como uma ode ao prazer de cantar o que já trazemos em nós e o que tragamos do mundo para dentro de nós. Quando a letra se repete, um pandeiro chega para marcar a intensificação tanto dos vocais quanto dos instrumentos, especialmente do cavaco, que acentua suas flechadas e agulhadas, e do saxofone, que delineia o caminho da canção e então finaliza com um solo com influências de John Coltrane enquanto se ouve como algo quase distante: “Tanto faz o que trago, se vem chegando um trago a mais”.
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Desafogo: Faixa título do EP, composta em 2009, quando eu tinha apenas 21 anos. É minha canção mais antiga a ser gravada e também aquela que me despertou a atenção para uma autenticidade em minhas composições, que até então não passavam de cópias dos músicos que ouvia. “Desafogo” gerou também um videoclipe. A faixa traz uma introdução com uma levada de violão com influências de Baden Powell que subitamente se transforma em uma espécie de samba-canção, acompanhado por flautas e percussão ambientando a canção, além de um cavaco com efeitos. A letra começa por narrar imagens de um cotidiano estafado e afogado na estagnação para então chegar em pitacos que devem soar não como opiniões julgadoras, mas como conselhos sussurrados ao pé do ouvido, com o intuito de cantar que haveremos de criar nossos próprios desafogos, individualmente e coletivamente. O arranjo acompanha a crescente da canção, especialmente a percussão, o coro que enfatiza o caráter coletivo da mensagem e o saxofone que lança o convite para uma dança insubmissa: a dança cotidiana que permite criar os desafogos.
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Casca Cascata: Parceria com Thiago Ribeiro, poeta e esquizoanalista. A letra de Thiago tem apenas duas orações, que quando pronunciadas soam exatamente iguais, mas com significados diferentes e complementares (A casca tá dentro, que caiba tendo / uma cascata dentro, que cai batendo). Apenas um violão acompanha a melodia das frases que se repetem numa crescente e decrescente, buscando destacar cada sílaba a fim de atentar para a mensagem central da canção: as cascatas que trazemos dentro de nossas cascas e que precisam ser desafogadas para que possam correr livremente. A faixa funciona como um interlúdio do EP, o que é realçado pelo efeito e timbre escolhidos, imprimindo a sensação de uma enunciação de um narrador mais etéreo.
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José, João: “José, João” é um samba urbano com nuances de samba-baião e uma forte influência do partido-alto nos refrões. Na faixa, tive o prazer de dividir os vocais com Romulo Fróes, por sugestão dele, inclusive, o que me deixa honrado. O cavaco do Rodrigo (Campos) é crucial na condução da narrativa com frases melódicas que dialogam com a mensagem da canção, enquanto tamborim, pandeiro e surdo sustentam a base rítmica com sutileza e tensão. O violão traz a cadência bem marcada do samba tradicional, reforçando o caráter coletivo da canção e convidando os instrumentos a jogarem em favor da letra. A canção começou a ser escrita em 2022, no ano seguinte à morte de meu pai. Caminhoneiro, zagueiro de futebol de várzea e amante de palavras-cruzadas, ele começou a trabalhar aos dez anos e se aposentou pouco antes de falecer, durante a pandemia, poucos dias antes de tomar a vacina. A canção nasceu desse luto e também das memórias dos trabalhadores da minha família — com boias-frias, professoras da rede pública, pedreiros, operários etc. Então a letra foi construída a partir dessas lembranças pessoais, mas também de referências literárias (algo sempre presente em meu trabalho), pois em 2024, li o livro “O que é meu”, de José Henrique Bortolucci — também filho de caminhoneiro. A obra reforçou em mim o desejo de cantar sobre essas vidas que muitas vezes passam despercebidas, as vidas desses trabalhadores, a partir de meus entes próximos, ainda que o título faça referência a nomes comuns, escolhidos para representar uma coletividade. Ela é a tentativa de contar a história de dois personagens que são, na verdade, a de tantos e tantos trabalhadores. Neste EP, ela é a que mais revela minha formação em Ciências Sociais e Antropologia, por conta do tema, e sinto que ela toma outra proporção em tempos em que o trabalho com carteira assinada virou motivo de deboche entre jovens, e num momento em que a redução da jornada de trabalho voltou a ser uma pauta relevante no debate público.
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Botafé: Foi a faixa escolhida para fechar o EP, ela também traz o tema do desafogo, embora de um jeito mais velado, até mais enigmático, e um pouco apoteótico no final, o que senti que fazia sentido pra terminar o EP. É uma canção com tempos um tanto quebrados, em 5/4, 9/8 e que desembocam em “refrões” – que não são bem refrões pois não se repetem – em 6/8, um tempo bem característico do candomblé e de outras matrizes rítmicas africanas. A letra tem também um quê de conselho sussurrado (“Bota fé no ser”), para então criar imagens não convencionais, sugerindo que esse botar fé no ser diz respeito a modos de ser desviantes que podemos criar (“Ser a dança nos varais / Ser ruído em recitais / Ser esquina a batucar/ Ser batuque em pleno altar”), essas brechas de existência que criamos e nas quais podemos ser outras coisas. Como a literatura exerce grande influência em minha escrita, essa letra surgiu durante um exercício de escrita em fluxo de consciência realizado em um curso da atriz e escritora Letícia Bassit. Tanto o saxofone do Thiago (França) quanto o coro (Bruna Lucchesi, Mari Tavares e Tati Burg) foram cruciais para dar o tom quase apoteótico do final da canção, uma apoteose que diz respeito, assim como todo o EP, não à narrativa dos vencedores, mas sim dos desacreditados que ainda buscam seus desafogos. Como uma ode épica ao triunfo do desejo dos oprimidos e de uma coletividade por vir.
SOBRE GUSTAVO ORTIZ
Cantor e compositor do interior paulista, Gustavo Ortiz é um artista da Nova MPB que tem como alicerce de seu trabalho autoral o formato canção, sendo influenciado especialmente por artistas do samba e da MPB dos anos 60 e 70. O violão é seu principal parceiro nas composições. A formação como cientista social e antropólogo contribui para a variedade dos temas de suas canções. Além disso, Gustavo também é escritor, com contos e ensaios publicados, o que deságua na construção de suas letras. Em 2021, lançou seu primeiro trabalho autoral, o single “Porvir (uma rapsódia de carnaval)”, que soava como uma pintura do panorama sócio-político do país naquele momento. Com isso ganhou destaque em veículos de mídia especializados e em playlists de streaming.
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Em 21 de abril e 1 de maio lançou, respectivamente, “Trago” e “José, João”, dois singles de seu primeiro EP de composições autorais, “Desafogo”, que será lançado em junho de 2025 pelo selo TRUQ. O trabalho conta com produção e direção musical de Romulo Fróes (vencedor do Grammy Latino pela direção artística do álbum “Mulher do fim do mundo” com Elza Soares e do prêmio de melhor lançamento de MPB no 31º Prêmio da Música Brasileira pela produção do álbum Coração Bifurcado, de Jards Macalé). A ficha técnica conta ainda com voz e violão de Gustavo Ortiz; cavaco de Rodrigo Campos (Criolo, Elza Soares, Passo Torto); sopros de Thiago França (Charanga do França, Metá Metá, Criolo); percussão de Daniel Antônio e coro de Bruna Lucchesi, Mari Tavares e Tati Burg. Engenharia de som por Frederico Pacheco – gravado, mixado e masterizado no O&O estúdio.
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O EP abre caminho para um álbum, já em processo de pré-produção com a mesma ficha técnica do EP, além de outros músicos convidados; o álbum foi contemplado pelo Edital PNAB 24/2024 – Gravação e lançamento de álbum musical inédito – e tem previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2026.
> Siga: @gustavo.ortiz._
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Série: Discografia da Música Brasileira / Canção / EP digital.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske
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