©Jacek Yerka
Sr. Prefeito:
Como dizia a v. ex.a, paguei a multa; e paguei-a com tanto maior satisfação quanto a prefeitura, que a impôs, propôs simultaneamente um negócio: se eu pagasse, não ao fim de oito anos de ação judicial, mas em oito dias, levava o desconto de trinta por cento. Ora, quem, nos dias que correm, despreza um abatimento desse vulto? Percebi que era do meu interesse pagar, e entendi mais: que se a prefeitura assim me seduzia para não retardar a quitação, era porque, mediante um sistema inteligente de sanções a quem tenha a audácia de limpar o passeio de sua casa, procurava reanimar as combalidas finanças municipais.
Ao sair de casa, munido dos setenta cruzeiros, notei que os detritos se acumulavam à porta do meu tugúrio e das habitações vizinhas. Cônscio de que o governo nada mais é do que delegação do povo, e sendo povo eu mesmo, deliberei exercer pessoalmente as funções delegadas; e, pensando sempre na situação da prefeitura, multei em mil cruzeiros, por quadra, o chefe do serviço, e em quinhentos cada um de seus fiscais, porque não mandavam remover os detritos. Mentalmente, ouvi a justificação de que não havia vassouras de piaçava no almoxarifado, porém mantive a multa, estendendo-a à Diretoria de Compras, que deixara esgotar-se o material sem renová-lo. Das entradas de serviço dos edifícios exalava-se um odor característico, e os porteiros me informaram que o caminhão de lixo andava em férias. Multei cada porteiro em oitocentos cruzeiros, porque não enterrava o lixo, uma vez que a municipalidade não estava em condições de retirá-lo, e os servidores desta, porque não estavam em condições nem tomavam providências para estar. As calçadas apresentavam buracos de maior ou menor diâmetro e profundidade, cavados há meses para mudança da rede de água e esgoto ou pesquisa de petróleo; como oferecessem perigo à vida dos populares, multei os dirigentes do Serviço Municipal de Buracos, em quantias proporcionais ao volume das crateras. E, muito satisfeito com os primeiros resultados, cheguei à 12a cf, junto ao teatro Follies, para pagar minha multinha.
Não a paguei logo, pois, ao exibir meu papel, me deram outro, mandando-me à rua Siqueira Campos. Impunha-se multar em cinco mil cruzeiros a Comissão de Planejamento e Racionalização, que, para cobrança de uma só multa, cria duas agências; também multei o Serviço de Higiene do Trabalho, porque deixava a 12a cf, como tantas outras repartições cariocas, funcionar em sede imprópria, com paredes descascadas e sujas, má iluminação e nenhum conforto; os funcionários, por sua vez, tiveram multas menores, porque se deixavam prejudicar. Tentei atravessar a rua e tomar um lotação, mas a cortina espessa de fumo, escapando-se dos ônibus, me vedou a vista e a passagem. Tive de multar em três mil cruzeiros cada empresa de transportes, por veículo enfumaçado, o Departamento de Concessões, porque os deixava trafegar nesse estado, e a Secretaria de Saúde, que vê a população intoxicar-se.
Em Siqueira Campos, onde afinal paguei minha própria multa, consultei o relógio: gastara uma hora, pelo que multei modestamente em cinquenta e cinco cruzeiros e cinquenta e cinco centavos o secretário das Finanças, valor esse de uma hora de meu trabalho no escritório a que sirvo. Saí de alma leve, porque cumprira o meu dever. À porta, mulheres passavam com latas d’água à cabeça. Senti a conveniência de ato mais severo, e multei o diretor do Departamento de Águas, o secretário de Obras, v. ex.a (desculpe) e a Câmara dos Vereadores, num total de dez bilhões de cruzeiros, por falta à obrigação milenar de servir água ao povo mediante pagamento da respectiva pena, porque a pouca água distribuída é rica em teor microbiano, e ainda porque não foi suspensa a cobrança da taxa, apesar de suspenso o abastecimento. Atravessei o túnel e dei com a favela do Pasmado: multa de cinquenta milhões ao Departamento de Urbanismo, por permitir aquela miséria exposta, e multa simbólica de cinquenta centavos a cada miserável, que assim se deixa expor.
Já na cidade, apreciei a onda de pó que, desprendendo-se do aterro da Guanabara, ia pintar de vermelho escritórios, lojas e repartições, e ainda o corpo e a alma de seus ocupantes. Lembrei-me do art. 505 (hora de pouco trânsito, sem levantar poeira) e saquei mais uns milhões dos engenheiros, fiscais e executantes da obra. Finalmente, multei em duzentos bilhões de cruzeiros, sem desconto, a população em peso do Distrito Federal, porque, vivendo em tais condições, e ainda achando graça na vida, é justo que pague um pouquinho. E cheguei feliz ao serviço, tendo obtido de momento, para a prefeitura, a fabulosa renda de trezentos e cinquenta bilhões, novecentos e noventa e quatro milhões, cinquenta e cinco cruzeiros e cinquenta e cinco centavos, que ora ponho à disposição de v. ex.a, para restauro dos cofres municipais, pagamento do abono ao funcionalismo e — se sobrar — alguns melhoramentos.
Atenciosamente.
— Carlos Drummond de Andrade, no livro “Fala, amendoeira”. Companhia das Letras, 2012.
SOBRE O LIVRO
Fala, amendoeira é uma reunião de crônicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do gênero: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. […]”. Porque a crônica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância. O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crônica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa.
FICHA TÉCNICA
Título: Fala, amendoeira
Páginas: 216
Formato: 21.4 x 13.2 x 1.6 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 05/03/2012
ISBN: 978-8535920482
Selo: Companhia das Letras
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