Ezra Pound (1885 - 1972)

“Ezra Pound é — com todas as honras — o maior poeta pagão neste mundo “cristão e ocidental”. Mas não se trata apenas disso. Ele é também o maior poeta “participante” dentro deste mesmo mundo “cristão e ocidental” — o maior poeta anticapitalista. E, nisso, durante diversas partes dos Cantos, sabe contrapor a naturalidade do comportamento, do estar pagão, à hipocrisia da civilização cristã. Dizia que seria legítimo substituir o Velho Testamento, como texto sagrado, pelas Metamorfoses, de Ovídio. Enfim, em matéria de criar, do fazer, constitui a sua obra um dos lances mais elevados da poesia no século atual..”
– José Lino Grünewald, na introdução de “Os cantos. Ezra Pound”. [introdução e tradução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

“Cantar um poema já é uma coisa sublime, difícil, quase impossível. Agora, escrevê-lo sem cantá-lo, mas chamá-lo de Cantos, como se escrevê-lo cantado, assim como um compositor surdo, Beethoven, tendo que imaginar sua sinfonia inteira naquelas cinco linhas de uma partitura… ah, isso é trabalho de um Hércules! Ou de um Ulisses ou qualquer outra odisséia qualquer galaxiana, física, metafísica, já que não se pode “quedar” (uso o espanhol porque o português não me parece apropriado: ficar, parar, cair…) nas meias verdades ou nas meias palavras ou meias intenções de um trabalho tão completo, mas tão completo que ele se torna VITAL.
[…]
Pound era um escritor, um poeta, um artista com um peso e VÁRIAS medidas: um predador e, ao mesmo tempo, um perseguido, um foragido. Fugia do quê? Só ele sabia. Um monstro de homem. Me sinto ridículo por ter que compará-lo a um Dante ou um Milton do século XX. Prefiro reconhecê-lo como um Noé, aquele que construiu a arca antes do dilúvio e colocou sua nau, generosamente, a disposição da sobrevivência da espécie animal. Mas Pound não foi Noé. Sua arca é mais concreta, porém impalpável, só conseguimos enxergar seus Cantos através das palavras e da rima, e da FÚRIA e da tempestade (não, não é o Sturm und Drank do século passado, pois Pound era um INDIVÍDUO e não um movimento), e mesmo essa tempestade parece não ter um fim, nunca, nunca.
Mas, como todo gênio, ele tinha a certeza concreta de que a raça humana teria que passar por um dilúvio e começar do zero. Seus Cantos são o berro primal de que tudo aquilo criado pelo homem é torto, sem nexo, pretensioso, já que Aristóteles decretou uma ordem, um início, um meio e um fim que nada valem quando confrontados com a poesia de Yeats ou um país imaginário onde quis passar seus últimos momentos de vida, o Brasil, um lugar moderno, concreto, concretista, totalmente enCANTADO pela obra dele, um lugar chamado imaginário, sobrevivente do dilúvio, aberto pr’aquilo que é novo, mesmo que predador e sofredor, cego e visionário, o refúgio definitivo das contradições do modernismo, FrutoFilho de Pound. Um lugar dos dilúvios constantes onde os Monstros são esquecidos ou onde seus berros se perdem na natureza: esse estranho país chamado nunca, onde tempestades duram pouco e a literatura nunca e o teatro pouco e a música abunda e a natureza tanta e tonta e canta e como! Como numa galáxia, aquela de Haroldo que começou aqui, nos Cantos ou em Ovídio ou em Homero ou chega!
– Gerald Thomas, na apresentação do livro “Os cantos”, de Ezra Pound. [introdução e tradução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Ezra Pound (1885 – 1972)

“uma sociedade capitalista que, no último estado de sua podridão, sempre considerou como merda a percepção inteligente ou as capacidades literárias.”
– Ezra Pound (poeta), citado por José Lino Grünewald, na introdução de “Os cantos”. de Ezra Pound. [introdução e tradução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

Poemas de Ezra Pound (edição bilíngue)

Canto I
E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.
Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.
Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.
Até o território cimeriano,
E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios de sol, nem a
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra, sobre os homens fúnebres.
Refluindo o mar, chegamos ao local
Premeditado por Circe.
Aqui os ritos de Perímedes e Euríloco e
“De espada a cova cubital escavo”.
Vazamos libações a cada morto,
Primeiro o hidromel, depois o doce
Vinho mais água com farinha branca.
E orei pela cabeça dos finados;
Em Ítaca, os melhores touros estéreis
Para imolar, cercada a pira de oferendas,
Um carneiro somente de Tirésias,
Carneiro negro e com guizos.
Sangue escuro escoou dentro do fosso,
Almas vindas do Erebus, mortos cadavéricos,
De noivas, jovens, velhos, que muito penaram;
Úmidas almas de recentes lágrimas,
Meigas moças, muitos homens
Esfolados por lanças cor de bronze,
Desperdício de guerra, e com armas em sangue
Eles em turba em torno de mim, a gritar,
Pálido, reclamei-lhes por mais bestas;
Massacraram os rebanhos, ovelhas sob lanças;
Entornei bálsamos, clamei aos deuses.
Plutão, o forte, e celebrei Prosérpina;
Desembainhada a diminuta espada,
Fiquei para afastar a fúria dos defuntos,
Até que ouvisse Tirésias.
Mas primeiro veio Elpenor, o amigo Elpenor,
Insepulto, jogado em terra extensa,
Membros que abandonamos em casa de Circe,
Sem agasalho ou choro no sepulcro,
Já porque outras labutas nos urgiam.
Triste espírito. E eu gritei em fala rápida:
“Elpenor, como veio a esta praia escura?
Veio a pé, mais veloz que os marinheiros?”
….E ele, taciturno:
“Azar e muito vinho. Adormeci
Na morada de Circe ao pé do fogo.
Descendo a escadaria distraído
Desabei sobre a pilastra,
Com o nervo da nuca estraçalhado,
O espírito procurou o Avernus.
Mas, ó Rei, me lembre, eu peço,
E sem agasalho ou choro,
Empilhe minhas armas numa tumba
À beira-mar com esta gravação:
Um homem sem fortuna e com um nome a vir.
E finque o remo que eu rodava entre os amigos
Lá, ereto, sobre a tumba.”

Veio Anticléia, a quem eu repelia,
E então Tirésias tebano,
Levando o seu bastão de ouro, viu-me
E falou primeiro:
“Uma segunda vez? Por quê? homem de maus fados,
Face aos mortos sem sol e este lugar sem gáudio?
Além do fosso! eu vou sorver o sangue
Para profecia.”
….E eu retrocedi,
E ele, vigor sangüíneo: “Odysseus
Deverás retornar por negros mares
Através dos rancores de Netuno,
Todos teus companheiros perderás.”
Depois veio Anticléia.
Divus, repouse em paz, digo, Andreas Divus,
In officina Wecheli, 1538, vindo de Homero.
E ele velejou entre sereias ao
largo e além até Circe.
….Venerandam,
Na frase em Creta, e áurea coroa, Afrodite,
Cypri munimenta sortita est, alegre, orichalchi, com dourados
Cintos, faixas nos seios, tu, com pálpebras de ébano
Levando o ramo de ouro de Argicida. Assim:

.

Canto I
And then went down to the ship,
Set keel to breakers, forth on the godly seas, and
We set up mast and sail on that swart ship,
Bore sheep aboard her, and our bodies also
Heavy with weeping, and winds from sternward
Bore us out onward with bellying canvas,
Circe’s this craft, the trim-coifed goddess.
Then sat we amidships, wind jamming the tiller,
Thus with stretched sail, we went over sea till day’s end.
Sun to his slumber, shadows o’er all the ocean,
Came we then to the bounds of deepest water,
To the Kimmerian lands, and peopled cities
Covered with close-webbed mist, unpierced ever
With glitter of sun-rays
Nor with stars stretched, nor looking back from heaven
Swartest night stretched over wretched men there.
The ocean flowing backward, came we then to the place
Aforesaid by Circe.
Here did they rites, Perimedes and Eurylochus,
And drawing sword from my hip
I dug the ell-square pitkin;
Poured we libations unto each the dead,
First mead and then sweet wine, water mixed with white flour.
Then prayed I many a prayer to the sickly death’s-heads;
As set in Ithaca, sterile bulls of the best
For sacrifice, heaping the pyre with goods,
A sheep to Tiresias only, black and a bell-sheep.
Dark blood flowed in the fosse,
Souls out of Erebus, cadaverous dead, of brides
Of youths and of the old who had borne much;
Souls stained with recent tears, girls tender,
Men many, mauled with bronze lance heads,
Battle spoil, bearing yet dreory arms,
These many crowded about me; with shouting,
Pallor upon me, cried to my men for more beasts;
Slaughtered the herds, sheep slain of bronze;
Poured ointment, cried to the gods,
To Pluto the strong, and praised Proserpine;
Unsheathed the narrow sword,
I sat to keep off the impetuous impotent dead,
Till I should hear Tiresias.
But first Elpenor came, our friend Elpenor,
Unburied, cast on the wide earth,
Limbs that we left in the house of Circe,
Unwept, unwrapped in sepulchre, since toils urged other.
Pitiful spirit. And I cried in hurried speech:
“Elpenor, how art thou come to this dark coast?
“Cam’st thou afoot, outstripping seamen?”
……………And he in heavy speech:
“Ill fate and abundant wine. I slept in Circe’s ingle.
“Going down the long ladder unguarded,
“I fell against the buttress,
“Shattered the nape-nerve, the soul sought Avernus.
“But thou, O King, I bid remember me, unwept, unburied,
“Heap up mine arms, be tomb by sea-bord, and inscribed:
“A man of no fortune, and with a name to come.
“And set my oar up, that I swung mid fellows.”

And Anticlea came, whom I beat off, and then Tiresias Theban,
Holding his golden wand, knew me, and spoke first:
“A second time? why? man of ill star,
“Facing the sunless dead and this joyless region?
“Stand from the fosse, leave me my bloody bever
“For soothsay.”
……………And I stepped back,
And he strong with the blood, said then: “Odysseus
“Shalt return through spiteful Neptune, over dark seas,
“Lose all companions.” And then Anticlea came.
Lie quiet Divus. I mean, that is Andreas Divus,
In officina Wecheli, 1538, out of Homer.
And he sailed, by Sirens and thence outward and away
And unto Circe.
……………Venerandam,
In the Cretan’s phrase, with the golden crown, Aphrodite,
Cypri munimenta sortita est, mirthful, orichalchi, with golden
Girdles and breast bands, thou with dark eyelids
Bearing the golden bough of Argicida. So that:
– Ezra Pound, em “Os cantos” {Um esquema de XXX Cantos}.. [introdução e tradução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.


§

Canto XLV
…… Com Usura

Com usura homem algum terá casa de boa pedra
cada bloco talhado em polidez
e bem ajustado
para que o esboço envolva suas faces,
com usura
homem algum terá paraíso pintado na parede de sua igreja
harpes et luz
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo projeta-se do inciso,
com usura
homem algum vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas
pintura alguma é feita pra ficar
nem pra com ela conviver
só é feita a fim de vender
e vender depressa
com usura, pecado contra a natureza,
sempre teu pão será rançosas códeas
sempre teu pão será de papel seco
sem trigo da montanha, sem farinha forte
com usura uma linha cresce turva
com usura não há clara demarcação
e homem algum encontra sua casa.
O talhador não talha sua pedra
o tecelão não vê o seu tear
COM USURA
não vai a lã até a feira
carneiro não dá ganho com usura
a usura é uma peste, usura
engrossa a agulha lá nas mãos da moça
E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo
não veio via usura
Duccio não veio via usura
Nem Pier della Francessa; Zuan Bellini não pela usura
nem foi pintada ‘La Calunnia’ assim.
Angelico não veio via usura; nem veio Ambrogio Praedis,
Não veio igreja alguma de pedra talhada
com a incisão: Adamo me fecit.
com a incisão: Adamo me fecit.
Nem via usura St Trophime
Nem via usura Saint Hilaire.
Usura oxida o cinzel
Ela enferruja o ofício e o artesão
Ela corrói o fio no tear
Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo;
O azul é necrosado pela usura;
não se borda o carmesim
A esmeralda não acha o seu Memling
A usura mata o filho nas entranhas
Impede o jovem de fazer a corte
Levou paralisia ao leito, deita-se
entre a jovem noiva e seu noivo
CONTRA NATURAM
Trouxeram meretrizes para Elêusis
Cadáveres dispostos no banquete
às ordens de usura.
.
N.B. Usura: Gravame por uso de poder aquisitivo, taxado sem considerar as possibilidades de produção; freqüentemente sem relação com as possibilidades da produção. (Daí a quebra do banco dos Médicis.)

.
Canto XLV
…… With Usura

With usura hath no man a house of good stone
each block cut smooth and well fitting
that design might cover their face,
with usura
hath no man a painted paradise on his church wall
harpes et luz
or where virgin receiveth message
and halo projects from incision,
with usura
seeth no man Gonzaga his heirs and his concubines
no picture is made to endure nor to live with
but it is made to sell and sell quickly
with usura, sin against nature,
is thy bread ever more of stale rags
is thy bread dry as paper,
with no mountain wheat, no strong flour
with usura the line grows thick
with usura is no clear demarcation
and no man can find site for his dwelling.
Stonecutter is kept from his tone
weaver is kept from his loom
WITH USURA
wool comes not to market
sheep bringeth no gain with usura
Usura is a murrain, usura
blunteth the needle in the maid’s hand
and stoppeth the spinner’s cunning. Pietro Lombardo
came not by usura
Duccio came not by usura
nor Pier della Francesca; Zuan Bellin’ not by usura
nor was ‘La Calunnia’ painted.
Came not by usura Angelico; came not Ambrogio Praedis,
Came no church of cut stone signed: Adamo me fecit.
Not by usura St. Trophime
Not by usura Saint Hilaire,
Usura rusteth the chisel
It rusteth the craft and the craftsman
It gnaweth the thread in the loom
None learneth to weave gold in her pattern;
Azure hath a canker by usura; cramoisi is unbroidered
Emerald findeth no Memling
Usura slayeth the child in the womb
It stayeth the young man’s courting
It hath brought palsey to bed, lyeth
between the young bride and her bridegroom
CONTRA NATURAM
They have brought whores for Eleusis
Corpses are set to banquet
at behest of usura.
.
N.B. Usury: A charge for the use of purchasing power, levied without regard to production; often without regard to the possibilities of production. (Hence the failure of the Medici bank.)

– Ezra Pound, em “Os cantos” {A quinta década dos Cantos XLII-LI}.. (1937). [introdução e tradução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

§

Canto XLIX
Para os sete lagos, e de homem algum estes versos:
Chuva; rio vazio; uma viagem,
Lume de nuvem gélida, chuva densa na penumbra
Sob o teto da cabine uma lamparina.
Os juncais, encharcados; arqueados;
e falam os bambus em tom de choro.

Lua outonal; colinas sobem sobre lagos
contra o ocaso
Entardecer como uma cortina de nuvem,
mancha sobre águas onduladas; e através
longas e agudas pontas do cinamomo,
uma toada fria entre juncais.
Atrás do monte, sinos dos monges
nascidos no vento.
Uma vela passou aqui durante abril;
poderá retornar durante outubro
Um bote se desbota em prata; lentamente;
Sol brilha solitário sobre o rio.

Quando a flâmula vinho capta o ocaso
Esparsas chaminés em luz cruzada sopram

Vem a crosta da neve sobre o rio
E um universo cobre-se de jade
Flutua o leve bote qual lanterna,
A água fluente coagula-se no frio. E em San Yin
está um povo de lazer.
Gansos selvagens se atiram à beira da areia
Nuvens se apinham pela fresta da janela
Água ampla; gansos partem com o outono
Alaridos de gralhas sobre as luzes
dos pescadores,
Move-se luz na linha norte ao céu;
onde os meninos chuçam pedras
à procura de camarões.
Nos mil e setecentos veio Tsing para estes lagos da colina.
Move-se luz na linha sul do céu.

Criando riquezas deve o Estado endividar-se?

Isto é infâmia; isto é Geryon.
Canal segue suave até TenShi
o velho rei porém o fez para o prazer

K E I              M E N           R A N          K E I
K I U             M A N         M A N          K E I
JITSU            GETSU           K    O       KW A
T A N              FUKU           T A N        K A I

Sol subiu: trabalho
Sol desceu; descanso
cave o poço e beba a água
cave o campo; coma o grão
Poder imperial existe? e para nós o que é?

A quarta; a dimensão do sossego.
E o domínio das feras.

.

Canto XLIX
For the seven lakes, and by no man these verses:
Rain; empty river; a voyage,
Fire from frozen cloud, heavy rain in the twilight
Under the cabin roof was one lantern.
The reeds are heavy; bent;
and the bamboos speak as if weeping.

Autumn moon; hills rise about lakes
against sunset
Evening is like a curtain of cloud,
a blurr above ripples; and through it
sharp long spikes of the cinnamon,
a cold tune amid reeds.
Behind hill the monk’s bell
borne on the wind.
Sail passed here in April; may return in October
Boat fades in silver; slowly;
Sun blaze alone on the river.

Where wine flag catches the sunset
Sparse chimneys smoke in the cross light

Comes then snow scur on the river
And a world is covered with jade
Small boat floats like a lanthorn,
The flowing water closts as with cold. And at San Yin
they are a people of leisure.

Wild geese swoop to the sand-bar,
Clouds gather about the hole of the window
Broad water; geese line out with the autumn
Rooks clatter over the fishermen’s lanthorns,

A light moves on the north sky line;
where the young boys prod stones for shrimp.
In seventeen hundred came Tsing to these hill lakes.
A light moves on the South sky line.

State by creating riches shd. thereby get into debt?
Thsi is infamy; this is Geryon.
This canal goes still to TenShi
Though the old king built it for pleasure

K E I              M E N           R A N          K E I
K I U             M A N         M A N          K E I
JITSU            GETSU           K    O       KW A
T A N              FUKU           T A N        K A I

Sun up; work
sundown; to rest
dig well and drink of the water
dig field; eat of the grain
Imperial power is? and to us what is it?

The fourth; the dimension of stillness.
And the power over wild beasts.
– Ezra Pound, em “Os cantos” {A quinta década dos Cantos XLII-LI}.. (1937). [introdução e tradução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

§

Cino
Arre! Já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei ao sol.

Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.

Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, “Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!”

Uma vez, duas vezes, um ano –
E vagamente assim se exprimem:
“Cino ?” “Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata ?”
“Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas…
(São todos a mesma coisa, esses vagabundos)
Peste! As canções eram dele ?
Ou cantava as dos outros ?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade ?”

Mas e senhor, “Meu Senhor”, bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino-Sem-Terra, tal como eu sou,
O Sinistro.

Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei do sol.
…eh?… a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei do sol.

“Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d’azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!

Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze do teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem som!

Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol…
……………………………………….
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.

E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.

.

Cino
Bah! I have sung women in three cities,
But it is all the same;
And I will sing of the sun.

Lips, words, and you snare them,
Dreams, words, and they are as jewels,
Strange spells of old deity,
Ravens, nights, allurement:
And they are not;
Having become the souls of song.

Eyes, dreams, lips, and the night goes.
Being upon the road once more,
They are not.
Forgetful in their towers of our tuneing
Once for wind-runeing
They dream us-toward and
Sighing, say, “Would Cino,
Passionate Cino, of the wrinkling eyes,
Gay Cino, of quick laughter,
Cino, of the dare, the jibe.
Frail Cino, strongest of his tribe
That tramp old ways beneath the sun-light,
Would Cino of the Luth were here!”

Once, twice a year—
Vaguely thus word they:

“Cino?” “Oh, eh, Cino Polnesi
The singer is’t you mean?”
“Ah yes, passed once our way,
A saucy fellow, but . . .
(Oh they are all one these vagabonds),
Peste! ‘tis his own songs?
Or some other’s that he sings?
But *you*, My Lord, how with your city?”

My you “My Lord,” God’s pity!
And all I knew were out, My Lord, you
Were Lack-land Cino, e’en as I am,
O Sinistro.

I have sung women in three cities.
But it is all one.
I will sing of the sun.
. . . eh? . . . they mostly had grey eyes,
But it is all one, I will sing of the sun.

“‘Pollo Phoibee, old tin pan, you
Glory to Zeus’ aegis-day,
Shield o’ steel-blue, th’ heaven o’er us
Hath for boss thy lustre gay!

‘Pollo Phoibee, to our way-fare
Make thy laugh our wander-lied;
Bid thy ‘flugence bear away care.
Cloud and rain-tears pass they fleet!

Seeking e’er the new-laid rast-way
To the gardens of the sun . . .

* * *

I have sung women in theree cities
But it is all one.
I will sing of the white birds
In the blue waters of heaven,
The clouds that are spray to its sea.”
– Ezra Pound {tradução de Mário Faustino}. do livro “Ezra Pound: poesia”. [organização, introdução e notas de Augusto de Campos; prefácio Haroldo de Campos; tradução Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983.

§

ALBA
Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
……“Levanta patife, sus!
…………Vê, já reluz
………………A luz
………………Depressa, corre,
………………Que a noite morre…”

.

ALBA
When the nightingale to his mate
Sings day long and night late
My love and I keep state
In bower,
In flower,
Till the watchman on the tower
Cry:
……“Up! Thou rascal, Rise,
……I see the white
…………Light
…………And the night
………………Flies”
– Ezra Pound {tradução Mário Faustino}. do livro “Ezra Pound: poesia”. [organização, introdução e notas de Augusto de Campos; prefácio Haroldo de Campos; tradução Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983.


§

E assim em Nínive
“Sim, sou um poeta e sobre a minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

“Vê! Não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou um poeta e sobre a minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

“Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”

.

And thus in Nineveh
“Aye! I am a poet and upon my tomb
Shall maidens scatter rose leaves
And men myrtles, ere the night
Slays day with her dark sword.

“Lo! this thing is not mine
Nor thine to hinder,
For the custom is full old,
And here in Nineveh have I beheld
Many a singer pass and take his place
In those dim halls where no man troubleth
His sleep or song.
And many a one hath sung his songs
More craftily, more subtle-souled than I;
And many a one now doth surpass
My wave-worn beauty with his wind of flowers,
Yet am I poet, and upon my tomb
Shall all men scatter rose leaves
Ere the night slay light
With her blue sword.

“It is not, Raana, that my song rings highest
Or more sweet in tone than any, but that I
Am here a Poet, that doth drink of life
As lesser men drink wine.”
– Ezra Pound. {transcriação de Augusto de Campos}. em “Antologia poética de Ezra Pound”. [organização, apresentações e traduções por Augusto de Campos; Haroldo de Campos; Mário Faustino; Décio Pignatari; José Lino Grünewald]. Lisboa: Ulisséia, 1968.

§

Envoi (1919)
Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

.

Envoi (1919)
Go, dumb-born book,
Tell her that sang me once that song of Lawes:
Hadst thou but song
As thou hast subjects known,
Then were there cause in thee that should condone
Even my faults that heavy upon me lie
And build her glories their longevity.

Tell her that sheds
Such treasure in the air,
Recking naught else but that her graces give
Life to the moment,
I would bid them live
As roses might, in magic amber laid,
Red overwrought with orange and all made
One substance and one colour
Braving time.

Tell her that goes
With song upon her lips
But sings not out the song, nor knows
The maker of it, some other mouth,
May be as fair as hers,
Might, in new ages, gain her worshippers,
When our two dusts with Waller’s shall be laid,
Siftings on siftings in oblivion,
Till change hath broken down
All things save Beauty alone.
– Ezra Pound {tradução Augusto de Campos}.. . do livro “Ezra Pound: poesia”. [organização, introdução e notas de Augusto de Campos; prefácio Haroldo de Campos; tradução Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983.

§

Cantares 81
(fragmento)

O que amas de verdade permanece,
o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado

A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade, nem coragem
Nem ordem, nem graça são obras do homem,
Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo.
Aprende com o mundo verde o teu lugar
Na escala da invenção ou arte verdadeira,
Abaixo tua vaidade,
Paquin, abaixo!
O elmo verde superou tua elegância.
“Domina-te e outros te suportarão”
Abaixo tua vaidade
Tu és um cão surrado e largado ao granizo,
Uma pega inchada sob o sol instável,
Metade branca, metade negra
E confundes a asa com a cauda
Abaixo tua vaidade
Que mesquinhos teus ódios
Nutridos na mentira,
Abaixo tua vaidade,
Ávido em destruir, avaro em caridade,
Abaixo tua vaidade,
Eu digo abaixo.

Mas ter feito em lugar de fazer
isto não é vaidade
Ter, com decência, batido
Para que um Blunt abrisse
Ter colhido no ar a tradição mais viva
ou num belo olho antigo a flama inconquistada
Isto não é vaidade.
Aqui, o erro todo consiste em não ter feito.
Todo: na timidez que vacilou.
.

Canto 81
(fragment)

What thou lovest well remains,
the rest is dross
What thou lov’st well shall not be reft from thee
What thou lov’st well is thy true heritage
Whose world, or mine or theirs
or is it of none?
First came the seen, then thus the palpable
Elysium, though it were in the halls of hell,
What thou lovest well is thy true heritage
What thou lov’st well shall not be reft from thee

The ant’s a centaur in his dragon world.
Pull down thy vanity, it is not man
Made courage, or made order, or made grace,
Pull down thy vanity, I say pull down.
Learn of the green world what can be thy place
In scaled invention or true artistry,
Pull down thy vanity,
Paquin pull down!
The green casque has outdone your elegance.

“Master thyself, then others shall thee beare”
Pull down thy vanity
Thou art a beaten dog beneath the hail,
A swollen magpie in a fitful sun,
Half black half white
Nor knowst’ou wing from tail
Pull down thy vanity
How mean thy hates
Fostered in falsity,
Pull down thy vanity,
Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
I say pull down.

But to have done instead of not doing
this is not vanity
To have, with decency, knocked
That a Blunt should open
To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
This is not vanity.
Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered . . .
– Ezra Pound. {tradução conjunta de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari}. do livro “Ezra Pound: poesia”. [organização, introdução e notas de Augusto de Campos; prefácio Haroldo de Campos; tradução Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983.

Ouça aqui Fernando Graça recitando o fragmento de Cantares 81, de Ezra Pound

A ILHA LACUSTRE
Ó Deus, Ó Vênus, Mercúrio, senhor dos ladrões,
Me dêem na hora certa, eu imploro, uma pequena tabacaria
Com as caixinhas brilhantes
empilhadas com capricho nas prateleiras
E o cavendish de suave fragrância
o tabaco picado,
E o brilhante Virginia
avulso nas vitrines brilhantes,
E duas balanças sem muita gordura,
E as putas que chegam pra dois dedos de conversa, de passagem,
Pra jogar conversa fora, e dar um jeito no cabelo.
Ó Deus, Ó Vênus, Mercúrio, senhor dos ladrões,
Me emprestem uma pequena tabacaria,
ou me ponham em qualquer profissão
Salvo esta maldita de escrever,
onde é preciso ter miolos todo o tempo.

.

THE LAKE ISLE
O God, O Venus, O Mercury, patron of thieves,
Give me in due time, I beseech you, a little tobacco-shop,
With the little bright boxes
piled up neatly upon the shelves
And the loose fragrant cavendish
and the shag,
And the bright Virginia
loose under the bright glass cases,
And a pair of scales not too greasy,
And the whores dropping in for a word or two in passing,
For a flip word, and to tidy their hair a bit.
O God, O Venus, o Mercury, patron of thieves,
Lend me a little tobacco-shop,
or install me in any profession
Save this damn’d profession of writing,
where one needs one’s brains all the time.
– Ezra Pound, em “Lustra”. [introdução, estudo, notas e tradução Dirceu Villa]. Edição bilíngue. São Paulo: Selo Demônio Negro, editora Annablume, 2011.

§

SIMULACRA
Por que a dama de rosto eqüino e idade impronunciável
Desce Longacre recitando Swinburne a si mesma, surdamente?
Por que a criancinha no falso casaco de pele com manchas brancas
Engatinha na sarjeta muito preta sob a barraca de uvas?
Por que a jovem bela pra valer se aproxima de mim em
Sackville Street
Sem se deter pela idade manifesta dos meus trapos?

.

SIMULACRA
Why does the horse-faced lady of just unmentionable age
Walk down Longacre reciting Swinburne to herself, inaudibly?
Why does the small child in the soiled-white imitation fur coat
Crawl in the very black gutter beneath the grape stand?
Why does the really handsome young woman approach me in
Sackville Street
Undeterred by the manifest age of my trappings?
– Ezra Pound, em “Lustra”. [introdução, estudo, notas e tradução Dirceu Villa]. Edição bilíngue. São Paulo: Selo Demônio Negro, editora Annablume, 2011.

§

O ENCONTRO
O tempo todo em que falavam da nova moral
Os olhos dela me exploraram.
E ao me erguer para sair
Seus dedos foram como a fibra
De um guardanapo de papel japonês.

.

THE ENCOUNTER
All the while they where talking the new morality
Her eyes explored me.
And when I arose to go
Her fingers were like the tissue
Of a Japanese paper napkin.
– Ezra Pound, em “Lustra”. [introdução, estudo, notas e tradução Dirceu Villa]. Edição bilíngue. São Paulo: Selo Demônio Negro, editora Annablume, 2011.

Ezra Pound, by Henri Cartier-Bresson (Venice, 1971)
BREVE BIOGRAFIA

Ezra Pound (1885-1972), poeta e ensaísta norte-americano, autor de Os Cantos, talvez o maior poema do século XX. Na década de 20, foi um dos líderes da vanguarda nos Estados Unidos, tendo lançado o Imagismo. Escreveu ensaios teóricos como o ABC da Literatura e A Arte da Poesia e traduziu poetas chineses da dinastia T’ang, trovadores provençais e poetas italianos do século XII, entre outros. De sua obra poética, além dos Cantos, que deixou inacabado, destacam-se Personae (1909) e Hugh Selwyn Mauberley (1920). Pound apoiou inúmeros artistas e escritores, como T. S. Eliot (que lhe dedicou A Terra Devastada), James Joyce e Louis Zukofsky. Por seu engajamento em favor de Mussolini, durante a II Guerra, Pound foi preso e julgado traidor, sendo internado num manicômio (para escapar da sentença de morte), onde faleceu em plena atividade criadora.
Fonte: POESIA. Ezra Pound. in: ZUNÁI – Revista de poesia & debates

Ezra Pound, by David Lees (Venice, 1964)
Síntese cronológica biobibliográfica de Ezra Pound

1885 – Nasce em Hailey, Idaho (30 de outubro).
1901/5 Estudos na Universidade de Pennsylvania e no Hamilton College.
1906 – Professor de letras românicas na Universidade de Pennsylvania. Viagem à Europa (Bolsa Harrison).
1907 – Leciona francês e espanhol no Wabash College, Crawfordsville, Indiana.
1908 – Itália. A Lume Spento, Veneza. Vai para Londres, onde reside até 1920.
1909 – Personae e Exultations. Primeiro estudo sobre Arnaut Daniel (“II Miglior Fabbró’).
1910 – Provença. The Spirit of Romance.
1911 – Canzoni.
1912 – The Sonnets and Ballate of Guido Cavalcanti. Rispostes.
1913 – Personae and Exultatíons. Canzoni and Ripostes. Revista Poetry (abril): A Few Don’ts, postulados do Imagismo. Colabora com Walter Morse Rummel na publicação de Neuf Chansons de Troubadours des Xlle et Xllle Siècles. que inclui a transcrição de duas canções de Arnaut Daniel localizadas por EP na Biblioteca Ambrosiana em Milão e por ele referidas no Canto 20.
1914 – Casa-se com Dorothy Shakespear. Edita a antologia Des Imagistes.
Publica Vorticism na Fortnight Review. Participa de Blast, de Wyndham Lewis. (1914-15)
1915 – Cathay. Edita a Catholic Anthology.
1916 – Lustra. Gaudier Brzeska. “Noh” or Accomplishment e Certain Noble Plays of Japan, dos manuscritos de Ernest Fenollosa. Começa a escrever os Cantos.
1917 – A primeira versão dos Cantos 1 a 111 é publicada em Nova York.
1918 – Pavannes and Divisions.
1919 – Quia Pauper Amavi e Homage to Sextus Propertius. Primeira versão do Canto IV. Começa a compor a ópera Le Testament, sobre textos de Villon.
1920 – França (Paris), até 1924. Hugh Selwyn Mauberley. Umbra. Instigations, incluindo as traduções de 10 canções de Arnaut Daniel.
1921 – Os Cantos V a VII são publicados em Dial.
1922 – The Eight Canto (mais tarde, Canto II).
1923 – Indiscretions ou Llne Revue des deux mondes. Os Malatesta Cantos (mais tarde, Cantos VIII, IX, X e XI).
1924 – Itália. Antheil and the Treatise on Harmony. O canto XIII e o trecho de “Baldy Bacorí’ do Canto XII aparecem na Transatlantic Review, de Ford Madox Ford.
1925 – Instala-se em Rapallo. A Draft of XVI Cantos of Ezra Pound for the Beginning of a Poem of some Length (Paris).
1926 – Personae: The Collected Poems of Ezra Pound. Apresentação,. em Paris, de “Parolles de Villorí’, árias e fragmentos da ópera Le Testament.
1928 – A Draft of the Cantos 17-27 of Ezra Pound. Selected Poems, com introdução de T.S Eliot.
1930 – A Draft of XXX Cantos. Imaginary Letters.
1931 – Guidg Cavalcanti: Rime. How to Read.
1932 – Profile: An Anthology.
1933 – Active Anthology. ABC of Economics.
1934 – Eleven New Cantos: XXX XLI. ABC of Reading. Make it New.
1935 – Alfred Venison’s Poems. Jefferson andlor Mussolini. Social Credit: An Impact.
1936 – The Chinese Written Character as a Medium for Poetry, por Ernest Fenollosa, introdução e notas de E.P. Ta Hio, the Great Learning (tradução).
1937 – The Fifth Decade of Cantos. Polite Fssays.
1938 – Guide to Kulchur.
1939 – Visita aos EE.UU. Doutor honoris causa pelo Hamilton College.
1940 – Itália. Cantos LII-LXXI. Começa a fazer transmissões pela Rádio Roma.
1943 – O Tribunal do Distrito de Colúmbia formula acusão de traição contra E.P.
1945 – Entrega-se em Gênova à tropas norte-americanas (maio). Internação no Campo de Pisa (Disciplinary Training Center). 3 semanas numa gaiola de aço (“gorilla cage”). Após 6 meses de pressão, é transportado de avião aos EE.UU. para ser julgado (novembro).
1946 – Declarado louco e internado no Hospital de Sta. Elisabeth, em Washington, até 1958.
1947 – The Unwobbling Pivot and the Great Digest of Confucius.
1948 – The Cantos of Ezra Pound (incluindo os Pisan Cantos).
1949 – O Prêmio Bollingen é outorgado aos Cantos Pisanos.
1950 – The Letters of E.P. (1907-1941). Patria Mia. Money Pamphlets.
1953 – The Translations of E.P.
1954 – Literary Fssays of E.P.
1955 – The Classic Anthology defined by Confucius (305 odes).
1956 – Section Rock-Drill: 85-95 de los Cantares. Women of Trachis, de Sófocles.
1958 – Libertação de Pound. Regresso à Itália.
1959 – Thrones: 96-109 de los Cantares.
1960 – Impact: Essay on the ignorance and the decline of American Civilization.
1962 – A revista The Paris Review publica fragmentos dos Cantos 115 e 116.
1963 – Concede entrevista à revista italiana Epoca (24 de março): “Io so di non sapere nulla.”.
1965 – Assiste aos funerais de Eliot em Londres (4 de fevereiro). Visita Paris, para ser homenageado pelos seus 80 anos com a edição do 1° dos dois grandes volumes consagrados a sua obra pela editora L’Herne e com o lançamento da tradução francesa dos Cantos Pisanos.
1967 – Visita o túmulo de Joyce, em Zürich.
1969 – Viaja para Nova York, onde lhe exibem o recém-descoberto manuscrito de The Waste Land, corrigido por ele. Late Cantos and Fragments.
1970 – Primeira publicação dos Cantos 1 a 117 no volume The Cantos of Ezra Pound (New Directions, Faber & Faber).
1972 – Ezra Pound morre em Veneza (1° de novembro). Sepultado no cemitério da ilha de San Michele. Á nova edição de The Cantos (New Directions) inclui um fragmento do Canto 120.
Fonte: extraído do livro “Ezra Pound: poesia”. [organização, introdução e notas de Augusto de Campos; tradução Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983.

Ezra Pound, by Wyndham Lewis (1939) 2
Obras de Ezra Pound em português

:: Lustra. Ezra Pound. [introdução, estudo, notas e tradução Dirceu Villa]. Edição bilíngue. São Paulo: Selo Demônio Negro, editora Annablume, 2011.
:: Os cantos. Ezra Pound. [tradução e introdução José Lino Grünewald; apresentação Gerald Thomas]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986; 2006; Lisboa: Assírio & Alvim, 2005.
:: Ezra Pound: poesia. [organização, introdução e notas de Augusto de Campos; prefácio Haroldo de Campos; tradução Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983.
:: A arte da poesia: ensaios escolhidos. Ezra Pound. [tradução José Paulo Paes e Heloysa de Lima Dantas]. São Paulo: Cultrix, 1976.
:: ABC da literatura. Ezra Pound. [organização e apresentação da edição brasileira Augusto de Campos; tradução José Paulo Paes e Augusto de Campos]. São Paulo: Cultrix, 1ª ed., 1970; 2013.
:: Antologia poética de Ezra Pound. [tradução Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Lisboa: Ulisséia, 1968.
:: Cantares de Ezra Pound. [prefácio Haroldo de Campos; tradução Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari]. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação ­MEC, 1960.

Ezra Pound, by Wyndham Lewis (1920)

Em antologias
:: Tradução e versão. [introdução e tradução Abgar Renault]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Record, 1994.
:: Antologia da nova poesia norte-americana. [seleção, tradução e notas Jorge Wanderley]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
:: Folhetim: poemas traduzidos. [tradução Nelson Ascher et al.; apresentação Matinas Suzuki Jr.], São Paulo: Editora da Folha, 1987.
:: Poetas norte-americanos: antologia bilíngue. [tradução Paulo Vizioli]. Rio de Janeiro: Lidador, 1976.
:: Poesia dos Estados Unidos. [organização, prólogo e tradução Oswaldino Marques]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1966.
:: Obras-Primas da Poesia Universal. [introdução, seleção, notas biográficas e tradução de Sérgio Milliet]. São Paulo. Livraria Martins Editora, 1954; 1957.

Poesias em sites e revistas
POESIA. Ezra Pound. in: ZUNÁI – Revista de poesia & debates. Disponível no link. (acessado em 20.4.2018).

Ezra Pound , by Pifal

Fortuna crítica
CARVALHO, Pedro Luso de.. Ezra Pound – A Arte da Poesia. in: Panorama-Direito Literatura, 1.8.2013. Disponível no link. (acessado em 20.4.2018)
DAMASCENO, Rodrigo Lobo. Situação do autor na poesia moderna: Fernando Pessoa e Ezra Pound. (Dissertação Mestrado em Literatura). Universidade de São Paulo, USP, 2015. Disponível no link. (acessado em 20.4.2018).
CAMPOS, Haroldo de. Pound paideuma (prefácio). em “Cantares de Ezra Pound.” [prefácio Haroldo de Campos; tradução Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari]. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação ­MEC, 1960. Disponível no link. (acessado em 20.4.2018)
MATTUS, Jessica Romanin. As homenagens de Pound e Faustino a sextus propertius: tradição clássica e tradução criativa. (Dissertação Mestrado em Estudo Literários). Universidade Estadual Paulista, UNESP, Campus Araraquara (SP), 2017. Disponível no link. (acessado em 20.4.2018).
REBELLO, Gilson. Uma entrevista com José Lino Grünewald, tradutor de “Cantos”, de Ezra Pound. in: Jornal da Tarde, 26.10.1985. Disponível no link. (acessado em 22.4.2018)
ROTHE-NEVES, Rui. As “variações sobre Ezra Pound” de Helmut Heissenbuettel. Cadernos de Literatura em Tradução nº 4, 2001, p. 159-171. Disponível no link. (acessado em 20.4.2018).
SCRAMIM, Susana Célia Leandro. Para além do “Cisco do sol no olho”. (Dissertação em Literatura). Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, 1991. Disponível no link. (acessado em 20.4.2018).

Ezra Pound (1885 – 1972)

EXCERTO DO LIVRO “A ARTE DA POESIA”
“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.

Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.

Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.

Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.

Não permita que a palavra influência signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas cinzentas como pombas, ou então lívidas como pérolas, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum.”
– Ezra Pound, em “A arte da poesia: ensaios escolhidos.” [tradução José Paulo Paes e Heloysa de Lima Dantas]. São Paulo: Cultrix, 1976, p.11-12.

Poema de Haroldo de Campos
Ezra Pound by Houseof Chabrier

O poeta ezra pound desce aos infernos
não para o limbo
dos que jamais foram vivos
nem mesmo
para o purgatório dos que esperam
mas para o inferno
dos que perseveram no erro
apesar de alguma contrição
tardia e da silente senectude
– diretamente com retitude –
o velho ez
já fantasma de si mesmo

e em tanta danação
quanto fulgor de paraíso
– Haroldo de Campos, em “Crisantempo: no espaço curvo nasce um”. São Paulo: Perspectiva, 2004.

“Ele foi para a poesia do século o que Einstein foi para a física.”
e. e. cummings

AMIZADES LITERÁRIAS E FAMÍLIA

James Joyce, Ezra Pound, Ford Maddox Ford and John Quinn, in Pound’s Paris studio, ca. 1923
Victor Plarr, Thomas Sturge Moore, William Butler Yeats, Wilfrid Scawen Blunt, Ezra Pound, Richard Aldington and F. S. Flint – photograph: Fitzwilliam Museum, Cambridge
Ezra Pound, Allen Ginsberg and Fernanda Pivano, Portofino, September 23, 1967
Ezra Pound e Pier Paolo Pasolini

 

Edmondo Casadidio, Ezra Pound e Tullio Colsalvatico – Tolentino, 15 Marzo 1960
Ezra Pound and Olga Rudge (violinist)
Ezra Pound junto com os netos Patrizia e Walter Siegfried.

 

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Revista Prosa Verso e Arte
Literatura - Artes e fotografia - Educação - Cultura e sociedade - Saúde e bem-estar

COMENTÁRIOS