©Camille Pissarro
Mandei um telegrama para o Brasil me demitindo. Agora estou sozinho em minha sala, no sétimo andar, olhando o movimento da Rua Agustinas, lá embaixo. São sete horas, e o sol primaveril ainda é vivo e alegre; pela esquina de Ahumada flui a multidão. E eu compreendo que vou ter saudade desta rua, desta esquina, desta cidade.
“ Le gusta Chile? Se acostumbra?” — São as perguntas ingênuas que todo chileno faz ao forasteiro. Respondo agora: sim, eu gosto do Chile; eu estava me acostumando com o Chile. Não será um fato raro; tenho carinho por muitas cidades, me comovo à toa pensando numa rua de Cachoeiro, numa ponte de Paris, numa fonte de Roma. E me acostumar até hoje só não me acostumei com cadeia.
Mas um amor não tem nada a ver com outro; dentro do meu coração multifiel, Santiago ficará como a lembrança da mulher muito linda que só me fez bem. Aqui vivi muitos meses, e não deixo nem levo nenhum amor. Amizades, sim; ternuras, muitas.
E agora, que me disponho a partir, essas ternuras se fazem mais doces. Penso principalmente em duas ou três pessoas e me pergunto, com melancolia, se meu destino não seria amar longamente essa moça alta, bela e simples que me fez estremecer desde o primeiro instante em que a vi — ou aquela outra de testa séria e nome inglês a quem deixo como herança meu cavalete de aluno de desenho.
Vou-me. Esquecerei, com certeza, seus nomes; tenho a triste experiência dos homens maduros e viajados e, como sempre, no fundo do velho coração cigano, sinto aquela estranha, indefinível, amarga volúpia de partir. Olho lá embaixo a esquina de Agustinas e Ahumada fervilhando de gente no fim da tarde de ouro. Um homem, entre centenas, dobra a esquina, some-se, no rumo de seu destino banal. Aquele homem sou eu — e do alto de minha janela solitária eu me despeço dele com um olhar em que talvez haja alguma pena.
Santiago, janeiro, 1956.
— Rubem Braga, no livro “Ai de ti, Copacabana”. Global, 2019
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SOBRE O LIVRO
“Ai de ti, Copacabana!” é o livro mais lembrado quando o nome do imbatível cronista Rubem Braga vem à tona. O livro traz crônicas do autor que se tornariam célebres como “História triste de tuim”, “Os trovões de antigamente”, “O padeiro”, “Quem sabe Deus está ouvindo”, “A minha glória literária”, “História de pescaria”, além da surpreendente crônica que dá nome ao livro – “Ai de ti, Copacabana!” -, na qual Rubem faz uma espécie de ode ao bairro carioca, destacando seus vícios e virtudes.
A vista inebriante da Cordilheira dos Andes, a empolgação inocente de um taxista português no Rio acompanhando um navio cruzando a orla carioca, a notícia da separação de um casal amigo. Toda sorte de acontecimentos, grandiosos ou não, é ternamente transmutada por Rubem Braga nas crônicas de “Ai de ti, Copacabana!”.
FICHA TÉCNICA
Título: Ai de ti, Copacabana
Páginas: 176
Formato: 20.6 x 13.8 x 1.2 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 10/02/2019 (32ª edição)
ISBN: 978-8526024175
Selo: Global
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Saiba mais sobre Rubem Braga:
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