Sem título, desenho de 2016- ©Felipe Stefani

Verso.
Queria assim o verso,
extremo.
Mais que extremo,
inaudível.
Do abismo mais profundo
à luz sem margens,
sem limites.

Mas no trabalho lapidar do olvido,
A musa suspira:
“Impossível”.
– Felipe Stefani, em “Cultuar (blog)”, 2010.

Desenho e poesia no traço de Felipe Stefani e textos dos escritores

“As palavras seriam alegria nas mãos do poeta.”
– Felipe Stefani, do poema “Um poeta…”.

Retrato de Gregório de Matos, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

E pois coronista sou.
Se souberas falar também falaras
também satirizaras, se souberas,
e se foras poeta, poetaras.

Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar,
por quem de mim não tem mágoa?
Verdades direi como água,
porque todos entendais
os ladinos, e os boçais
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?

Permiti., minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou lá Poeta converso

Mas amo por amar, que é liberdade.
Gregório de Matos, em ‘Obra poética’. [organização James Amado; preparação e notas Emanuel Araújo; apresentação Jorge Amado]. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

Retrato de Alphonsus de Guimaraens, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

É necessário amar
É necessário amar… Quem não ama na vida?
Amar o sol e a lua errante! amar estrelas,
Ou amar alguém que possa em sua alma contê-las,
Cintilantes de luz, numa seara florida!

Amar os astros ou na terra as flores… Vê-las
Desabrochando numa ilusão renascida…
Como um branco jardim, dar-lhes na alma guarida,
E todo, todo o nosso amor para aquecê-las…

Ou amar os poentes de ouro, ou o luar que morre breve,
Ou tudo quanto é som, ou tudo quanto é aroma…
As mortalhas do céu, os sudários de neve!

Amar a aurora, amar os flóreos rosicleres,
E tudo quanto é belo e o sentido nos doma!
Mas, antes disso, amar as crianças e as mulheres…
Alphonsus de Guimaraens, em “Obra completa”. [organização Alphonsus de Guimaraens Filho]. Biblioteca luso-brasileira – Série brasileira, 20. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960.

Retrato de Augusto dos Anjos, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

Versos íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos, em “Eu e outras poesias”. 42ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Retrato de Cruz e Sousa, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

Alma ferida
Alma ferida pelas negras lanças
Da desgraça, ferida do Destino,
Alma, de que a amargura tece o hino
Sombrio das Cruéis desesperanças;

Não desças, Alma feita das heranças
Da Dor, não desças do teu céu divino.
Cintila como o espelho cristalino
Das sagradas, serenas esperanças.

Mesmo na Dor espera com clemência
E sobe à sideral resplandecência,
Longe de um mundo que só tem peçonha.

Das ruínas de tudo ergue-te pura
E eternamente na suprema Altura,
Suspira, sofre, cisma, sente, sonha!
Cruz e Sousa, em “Antologia dos poetas brasileiros – Poesia da fase simbolista. [organização Manuel Bandeira]. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1996.

Retrato de Clarice Lispector, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”
Clarice Lispector, último bilhete escrito no hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, em 7.12.1977.

Retrato de Ana Cristina Cesar, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

Estou atrás
do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.
Ana Cristina Cesar (28.5.69), em “Inéditos e dispersos”. [organização Armando Freitas Filho]. São Paulo: Editora Ática/IMS, 1999.

Retrato de João Guimarães Rosa, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

“Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.”
João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz – “Dialogo com Guimarães Rosa”.

Retrato de P. Leminski. desenho de 2014 – ©Felipe Stefani

Sintonia para pressa e presságio
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
O silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
Paulo Leminski, no livro “La vie en close”. 4ª ed., São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 18.

Retrato de Karleno Bocarro com seu gato, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

[…]

Retrato de Alexandre Soares Silva, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

“O Paraíso não é um estado de espírito. É um lugar. Se você der dois passos pra fora, está fora; se der dois passos pra dentro, está dentro. Uma vez lá dentro, você pode pisar à vontade na grama, dar cambalhotas, pode até se machucar dando cambalhotas, porque o chão não é de ectoplasma, não é de nenhuma espécie mística de fogo, não é de gelatina amorfa; é matéria, pura e sólida e dura matéria. Mesmo os Anjos são matéria. Se você perguntar a eles se acreditam em algo que não seja matéria, eles vão rir da sua cara. Logo, eles não só são matéria, como são materialistas; e não só são materialistas, como são ateus.”
– Alexandre Soares Silva, em “A Coisa Não-Deus”. São Paulo: Beca Produções Culturais, 2000.

Retrato de Marcelo Ariel, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

A luz era
A luz era
um filtro de silêncios,
pousada em nosso rosto
como a insônia de um pássaro
desde o início
Ela foi a claridade profunda
da brisa interior
imóvel como eram
na infância
as fugas
onde o tempo
imitava a eternidade
e evocava
o poder da brisa oceânica
que através da fragilidade
também ama com
cabelos de chama,
outra luz
que na porta de sonho
respira uma chave
de sombra.
Marcelo Ariel, no livro “Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio”. São Paulo: Editora Patuá, 2014.

Retrato de Dostoiévski, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

“Em meio a trevas profundas abre-se de repente a porta de ferro da prisão e o próprio velho, o grande inquisidor, entra lentamente com um castiçal na mão. Está só; a porta se fecha imediatamente após sua entrada. Ele se detém por muito tempo à entrada, um ou dois minutos, examina o rosto do Prisioneiro. Por fim se aproxima devagar, põe o castiçal numa mesa e Lhe diz: ‘És tu? Tu?’. Mas, sem receber resposta, acrescenta rapidamente: ‘Não respondas, cala-te.’.”
– Dostoievski, em “Os Irmãos Karamázov”. [tradução Paulo Bezerra]. São Paulo: editora 34, 2012.

Retrato de Ezra Pound, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

E assim em Nínive
“Sim, sou um poeta e sobre a minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.
“Vê! Não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou um poeta e sobre a minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.
“Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”
Ezra Pound. [transcriação de Augusto de Campos]. em “Antologia poética de Ezra Pound”. [organização, apresentações e traduções de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Mário Faustino; Décio Pignatari e José Lino Grünewald]. Lisboa: Ulisséia, 1968.

Retrato de Tristan Corbière, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

Duelo das camélias
Eu vi o sol duro de encontrar aos tufos
Esgrimir. – Vi a esgrima ensolarar,
Fazendo paradas em lances bufos;
Melros de negro assistiam brilhar.
Um senhor em camisa se apromtava;
Parecia uma camélia, todo branco;
No ramo outra flor rosa vicejava
Como… E o florete vergou num flanco.
– Raiva, estou roxo!… Ah! ele me degola –
… Camélia branca – lá – como Sua gola…
Camélia amarela, – aqui – mastigada…
Meu amor morto, da lapela caiu.
– Eu , chaga aberta, flor primaveril!
Camélia viva, de sangue matizada!
.
Veneris Dies 13 ***
Tristan Corbière, em “Os amores amarelos”. [introdução, tradução e notas de Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Editora Iluminuras, São Paulo, 1996.

Retrato de Arthur Rimbaud, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

A estrela chorou rosa…
A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.
Arthur Rimbaud. em “Rimbaud Livre”. [introdução e tradução Augusto de Campos]. Coleção Signos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2ª ed., 2002, p. 38.

Retrato Friedrich Nietzsche, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

O canto e o pensamento
Ao Princípio era o Ritmo, a Rima a terminar,
E a Música entra nisto qual seu almo Pio:
A tão divino riquiquio
Chama-se Canto. Mas, para encurtar,
Um Canto, isso é “Palavras para pôr em Música”.

O Pensamento é de uma outra esfera.
Se ele troça, ou se exalta, ou se encanta,
Jamais, é claro, um pensamento canta.
É “Sentido sem Canto” o Pensamento.
As duas coisas juntas: minha audácia é tanta?
– Friedrich Nietzsche, em “Poesia de 26 séculos: De Arquíloco a Nietzsche”. [antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena]. Colecção ‘Antologias Universais’, 1. Porto: ASA, 2001.

Retrato de Fernando Pessoa, desenho de 2015 – ©Felipe Stefani

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa, no livro “Fernando Pessoa – Obra Poética”, Cia. José Aguilar Editora – Rio de Janeiro, 1972, pág. 164.

Retrato de T. S. Eliot, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

V – Burnt Norton
As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora, As palavras deformam-se,
Estalam e quebram-se por vezes, sob o fardo,
Sob a tensão, escorregam, deslizam, perecem,
Definham com imprecisão, não se mantêm,
Não ficam em repouso. Vozes estridentes
Ralhando, troçando, ou apenas tagarelando,
Assaltam-nas sempre. O Verbo no deserto
É muito atacado por vozes de tentação,
A sombra que chora na dança funérea,
O clamoroso lamento da quimera desconsolada.

O detalhe do molde é movimento,
Como na figura dos dez degraus.
O próprio desejo é movimento
Não desejável em si;
O próprio amor é inamovível,
Apenas a causa e o fim do movimento,
Intemporal, e sem desejo
Excepto no aspecto do tempo
Capturado sob a forma de limitação
Entre o não ser e o ser.
De repente num raio de sol
Mesmo enquanto se move a poeira
Eleva-se o riso escondido
De crianças na folhagem
Depressa, aqui, agora, sempre –
Ridículo o triste tempo inútil
Que se estende antes e depois.
T. S. Eliot, no livro “Quatro quartetos”. [tradução Maria Amélia Neto]. Lisboa: Edições Ática, 1983.

Retrato de François Villon, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani

Epitáfio Villon – Balada dos Enforcados
Irmãos humanos que ainda viveis,
Não sejais corações endurecidos;
Tendo pena de nós, pobres, talvez
De Deus sereis mais cedo merecidos.
Vede os pescoços, cinco ou seis, torcidos;
A carne, que sorveu tanto alimento,
Está hoje devorada e em fermento,
E ossos, a cinza e pó vamos volver.
Ninguém ria de tal padecimento:
Clamai a Deus a nos absolver.
Se de irmão vos chamarmos, não deveis
Tratar-nos com desdém por termos sido
Justiçados. Contudo, vós sabeis:
Nem por todo o senso é conhecido,
Desculpai-nos, por sermos falecidos,
Junto ao filho da Virgem, seu assento.
Conserve-nos da graça o acolhimento:
Livre-no de no inferno dissolver.
Eis-nos mortos, ninguém nos dê tormento:
Clamai a Deus a nos absolver.
A chuva nos lavou, limpou de vez,
E o sol secou e pôs enegrecidos;
Corvos cravam os olhos de avidez,
Barba e fios puxando enfurecidos.
Não nos firmamos mais, enrijecidos,
Balançando de um lado a outro, ao vento,
Sempre ao seu bel-prazer em movimento,
Mais furos que em dedal, a revolver.
Evitai da irmandade o envolvimento:
Clamai a Deus a nos absolver.
Príncipe Jesus, guiai-nos o tento,
Cuidai que o Inferno não esteja atento:
Lá, não há o que ver ou resolver.
Homens, do riso aqui há banimento:
Clamai a Deus a nos absolver.
– François Villon, em “Poesia de François Villon”. [tradução, organização e notas de Sebastião Uchôa Leite]. São Paulo: Editora Edusp, 2000.

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Saiba mais sobre Felipe Stefani:
Desenhos: A poesia no desenho de Felipe Stefani
Felipe Stefani – poemas e breve biografia

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