SOCIEDADE

Eliane Brum: a palavra como resistência, por Paulo Baía

Eu começo repetindo, como quem reza uma ladainha necessária para não enlouquecer diante do mundo. Eu começo repetindo como quem acende uma vela diante do escuro, como quem coloca água fresca na janela para a noite atravessar a casa. Eu começo repetindo como quem crava estacas para que o chão não desabe. Eu concordo integralmente com Eliane Brum. Repito em voz baixa, repito em voz alta, repito no silêncio do corpo. Eu concordo integralmente com Eliane Brum. Digo mais: eu prefiro ser chamado de professor. E não aceito, com todas as forças, as pompas de Prof. Dr. diante do meu nome. Essa abreviação me soa como brasão em portão enferrujado, como latão polido em ruína, como orgulho vazio diante da fome. Num país como o Brasil, onde a palavra doutor tem o peso que Eliane Brum denunciou, o uso dessa abreviação é arrogância, violência simbólica, eco de servidão. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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Eliane Brum escreve com a coragem de quem atravessa o espelho e retorna com a ferida à mostra: “A palavra doutor é uma praga persistente.” Não é detalhe, não é ornamento. É praga. Praga porque se infiltra nas frestas da vida cotidiana, porque se espalha como mato no quintal abandonado, porque se recusa a morrer. Persistente porque sobreviveu à monarquia, atravessou a República, reinou nas ditaduras, permanece intacta na democracia. Persistente como ferida que não cicatriza, como nó que não se desata, como maldição que insiste em grudar na boca de quem fala. Doutor é praga e persistência. É cicatriz de uma sociedade que naturalizou a desigualdade. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.

Quem é Eliane Brum? Uma das mulheres mais lúcidas e corajosas do Brasil do tempo presente. Jornalista de fôlego, escritora de precisão, documentarista de olhar profundo. Nascida em Ijuí, no Rio Grande do Sul, formada em Jornalismo pela PUC-RS, repórter que atravessou décadas escutando vozes, colhendo silêncios, escrevendo a vida que ninguém vê. No Zero Hora, na Época, na rua e no mundo. Autora de A Vida que Ninguém Vê, livro que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, de O Olho da Rua, onde a reportagem vira travessia, de Uma Duas, romance em que a vida explode em palavras. Eliane Brum fez do jornalismo uma antropologia do instante, fez da crônica uma sociologia em voz baixa, fez do documentário uma política da escuta. Ela habita esse lugar raro em que as palavras se tornam testemunho. E por isso afirmo: todos nós deveríamos ler e ouvir mais Eliane Brum.
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Em “Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando?”, texto que já é um marco, Eliane Brum nos entrega sua sentença: “Recusar a palavra doutor é um ato político.” E aqui se abre a fenda de luz. Não é capricho, não é detalhe, não é irrelevância. É ato político. É gesto de resistência. É coragem contra a naturalização da desigualdade. É não aceitar que o abismo vire rotina, que o muro seja visto como paisagem, que o fosso seja confundido com estrada. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.

Eliana Brum – foto: Marta Pérez / EFE

“Doutor é um fosso.” Fosso entre o pobre e o rico, entre o paciente e o médico, entre o cliente e o advogado, entre o povo e a elite. Fosso cavado em cada fila de hospital, em cada balcão de cartório, em cada escritório de advocacia. Fosso que se abre diante dos nossos pés sem que percebamos. Fosso que aprendemos a chamar de respeito. Fosso que é, na verdade, submissão. Fosso que se repete como coreografia diária. Fosso que ninguém ousa contestar. O Brasil habituou-se a conviver com fossos como quem caminha sobre ruas. O Brasil transformou abismo em calçada. O Brasil transformou desigualdade em polidez. E “doutor” é a palavra desse abismo. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.

Quando alguém assina Prof. Dr., reforça o fosso. Ergue o muro mais alto. Doura o brasão. Transforma o conhecimento em pedestal. Perpetua a ilusão de que o saber é feudo, de que o diploma é cetro, de que a tese é coroa. Não me venham com desculpas. Não me venham com o protocolo. Não me venham com a cortina da formalidade. Num país onde milhões chamam outros de doutor como quem pede permissão para respirar, ostentar Prof. Dr. é arrogância, é ostentação, é insulto. É transformar universidade em torre de marfim quando ela deveria ser praça. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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Do ponto de vista sociológico, “doutor” é violência simbólica. É o capital simbólico descrito por Pierre Bourdieu em plena operação. É distinção fabricada a cada palavra. Mas Eliane Brum nos leva além da teoria. Ela mostra o corpo. Mostra o gesto. Mostra a curva da espinha do pobre que pronuncia “doutor” como quem pede desculpas por existir. Mostra a submissão escrita no timbre da voz. Mostra a desigualdade gravada nas sílabas. “É um reflexo da desigualdade vivida no dia a dia.” Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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Politicamente, o doutor é pedagogia da submissão. É lição cotidiana que ensina quem se curva e quem se ergue. É escola invisível da desigualdade. Cada vez que alguém chama outro de doutor, aprende que o poder está sempre do outro lado da mesa. Aprende que democracia é palavra bonita, mas na prática é verticalidade. Aprende que cidadania é enfeite e que autoridade é regra. É aula de desigualdade. É disciplina obrigatória do Brasil. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.

Antropologicamente, o doutor é máscara ritual. Sociedades hierárquicas sempre inventam máscaras para que cada um saiba o seu lugar. O Brasil inventou a máscara do doutor. Máscara que cobre rostos e distribui papéis. Quem ousa retirar a máscara é acusado de grosseria, de insolência, de falta de respeito. Mas retirar a máscara não é insolência. É dignidade. É liberdade. É resistência. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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No jornalismo, Eliane Brum nos ensinou a ouvir palavras como quem ouve o estalo de um galho no meio da mata. Palavras não são apenas palavras. Palavras anunciam estruturas invisíveis. “Doutor” anuncia hierarquia. Parece respeito, mas é obediência. Parece polidez, mas é subordinação. Parece nada, mas é tudo. E quando Brum escreve isso, nos devolve a visão que havíamos perdido. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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Não se trata de recusar o título acadêmico. Quem defendeu uma tese merece o título. O problema não é o doutorado. O problema é o uso servil, viciado, automático. O problema é transformar o título em pronome de tratamento obrigatório. O problema é fazer da arrogância uma regra cotidiana. Por isso, quando vejo Prof. Dr. estampado antes de nomes, sinto vergonha. Porque não somos brasões. Somos pessoas. Porque não somos pedestais. Somos cidadãos. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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Prefiro, com toda a clareza, ser chamado de professor. Porque professor não é pedestal. É relação. Professor não é torre. É encontro. Professor não é coroa. É reciprocidade. Professor existe apenas com aluno. Professor ensina aprendendo. Aprende ensinando. Professor supõe dúvida, supõe partilha, supõe proximidade. Doutor, no uso brasileiro, supõe infalibilidade. Supõe distância. Supõe hierarquia. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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“Recusar a palavra doutor é recusar o Brasil desigual que se pretende natural.” Essa frase é farol. Essa frase é bandeira. Essa frase é martelo. Essa frase deveria ser ensinada nas escolas. Porque ela é lição de cidadania. E por isso eu digo, em alto e bom som: todos nós deveríamos ler e ouvir mais Eliane Brum. Porque sua voz é uma das mais lúcidas, brilhantes e corajosas do Brasil do tempo presente. Porque ela nos devolve a dignidade de questionar a língua. Porque ela nos ensina que cada palavra pode ser resistência.

E eu pergunto: até quando aceitaremos esse vício? Até quando deixaremos que a praga persista? Até quando repetiremos sem pensar a palavra que reforça o fosso? Talvez a mudança comece no gesto mínimo. Dizer bom dia, fulano. Dizer olá, colega. Dizer boa tarde, senhora. Sem títulos barrocos. Sem hierarquias. Sem máscaras. Talvez a revolução comece nesse gesto pequeno de recusar o doutor. Eu concordo integralmente com Eliane Brum.
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Esta crônica é homenagem e é alerta. Homenagem à mulher que ousa enfrentar as pragas da língua. Alerta a todos nós que ainda não percebemos que o abismo começa no vocabulário. O Brasil precisa de novas palavras. Precisa de novas ruas simbólicas. Precisa de outras linguagens de encontro. Precisa que todos nós, professores, trabalhadores, cidadãos, pacientes, clientes, vizinhos, recusemos a coreografia da desigualdade. Eu repito pela última vez, como quem grava na pedra: eu concordo integralmente com Eliane Brum. Prefiro ser chamado de professor. Porque professor é encontro e não soberba. Porque professor é voz e ouvido e não brasão. Porque professor é resistência e não pedestal. Porque professor é praça e não torre. E porque acredito, como Eliane Brum, que a língua só muda quando a realidade muda, e quando nós mudamos com ela.

E é por isso que afirmo, com todas as letras e sem hesitação: todos nós deveríamos ler e ouvir mais Eliane Brum. Porque ela é uma das mulheres mais lúcidas, brilhantes e corajosas do Brasil do tempo presente. Porque sua palavra é trincheira. Porque sua coragem é farol. Porque sua lucidez é bandeira. Porque sua escrita é uma horta de conversas plantada contra a praga persistente. Porque sua voz é resistência. Não é apenas sobre mim. Não é apenas sobre preferir ser chamado de professor. É sobre nós. É sobre cada um de nós que habita este país. É sobre o que deixamos entrar na boca e no ouvido. É sobre como aceitamos sem perceber os grilhões de uma língua viciada. Recusar o doutor não é grosseria. É afirmação de igualdade. É dizer ao outro: estamos no mesmo chão. É dizer: sua vida não vale mais que a minha. É dizer: sua palavra não tem mais peso que a minha voz. É dizer: somos cidadãos, não vassalos.
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Por isso, este é um chamado. Um chamado a todos que lerem. Um chamado aos que se envergonham do abismo e querem plantar outra paisagem. Um chamado aos que acreditam que a democracia se constrói no detalhe, na palavra, no encontro. Todos nós deveríamos ler e ouvir mais Eliane Brum. Todos nós deveríamos repetir seu alerta. Todos nós deveríamos praticar sua coragem. Todos nós deveríamos transformar em cotidiano essa recusa, essa resistência, essa esperança. Porque o Brasil só mudará quando mudarmos a maneira como nos tratamos. E a língua só mudará quando mudarmos a realidade. E a realidade só mudará quando ousarmos recusar o fosso. Quando tivermos coragem de dizer, como Eliane Brum nos ensinou: basta de pragas persistentes. Eu concordo integralmente com Eliane Brum. Eu, professor. Eu, cidadão. Eu, parte de um povo que precisa reinventar a sua própria língua para reinventar a sua própria vida.
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Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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