O fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
— Manoel de Barros, no livro “Ensaios fotográficos“. Alfaguara, 2021
Ouça o poema na voz de de Antonio Abujamra
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SOBRE O LIVRO
Como um fotógrafo que retrata cenas e objetos em versos, Manoel de Barros se afasta da metáfora esperada, em uma espécie de alquimia linguística que nos faz capazes de ver o mundo de outra maneira. Esta edição traz documentos e fotografias, além do prefácio de Bianca Ramoneda.
Nesses seus ensaios de fotografia, Manoel de Barros se apropria do reino das imagens ou, como ele diz, do “reino da despalavra”. Dividido em duas partes ― “Ensaios fotográficos” e “Álbum de família” ―, este livro nos oferece um poeta maduro e hábil no manejo do universo léxico que começou a desenhar desde sua primeira obra, Poemas concebidos sem pecado (1937). Ele mais uma vez reinventa a palavra, afastando-a de seu sentido usual.
Em busca de uma linguagem mais intuitiva, que possa reintegrar o homem ao seu meio natural, Manoel cria uma nova forma de perceber o mundo, sabendo que a transmutação da nossa experiência precisa dessa mudança de ponto de vista; oferece, portanto, outras lentes, outros focos. Sua originalidade reside justamente nesta escolha nada convencional de motivos poéticos. A linguagem é concisa ― ele só escreve o que é essencial ―, mas seus significados são imensos, variados, infinitos. Procurar a palavra certa sem jamais ignorar seu percurso: “As palavras, na viagem para o poema, recebem/ nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades”.
“Manoel de Barros é um de nossos poetas mais originais de todos os tempos.” ― O Globo
“Você tem em suas mãos uma pequena joia de imenso valor: um livro de fotografias composto de palavras.” ― Bianca Ramoneda, no prefácio deste livro
“Como toda grande poesia, a de Barros trata do destino do homem, do medo da morte, da sombra da infância se projetando sobre o adulto, da busca da felicidade.” ― Revista Bravo
“Há uma técnica de encantamento verbal, em particular, que permite ao poeta revelar os limiares primordiais entre as coisas da alma e da natureza…” ― O Estado de S. Paulo
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FICHA TÉCNICA
Título: Ensaios fotográficos
Páginas: 112
Formato: 15 x 1 x 23.4 cm
Acabamento: Brochura
Lançamento: 24/09/2021
ISBN: 978-8556521279
Selo: Alfaguara
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