SOCIEDADE

‘Desculpem tocar no assunto’, uma crônica de Rubem Braga

Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta, comecei a folhear e esfriei: quanto telefone de gente que já morreu!
.
Eu e um amigo estivemos imaginando uma Cidade dos Mortos que funcionasse mais ou menos como esta em que vivemos: uma cidade em que estivessem vivendo os mortos nossos conhecidos, os nossos mortos. Tinha muita gente, e gente ótima; é verdade também que alguns chatos; isso faz parte. Mas havia bons companheiros de praia, bons amigos de bar, excelentes papos. Poucas, raras mulheres de nossa estima; as mulheres, pelo visto, não costumam falecer.

O pior — dizia meu amigo, e eu batia a cabeça tristemente, a concordar —, o pior é que esse “lado de lá” vai aumentando, e se a gente demorar muito por aqui acaba falando sozinho.
.
Outro dia vi um velho na rua; andava lentamente e movia os lábios, como quem fala para si mesmo. Devia estar conversando com algum amigo morto. A certa altura ficou quieto, com o ar contrariado de quem está ouvindo alguma coisa de que não gosta. Depois recomeçou a falar com mais veemência.
.
Súbito, calou-se outra vez. O morto estava lhe dizendo poucas, porém boas. Ele tinha o ar ofendido.
.
O pior dos mortos é que nunca telefonam. Aparecem sem avisar, sentam-se numa poltrona e começam a falar. Tocam em assuntos que já deviam estar esquecidos, e fazem perguntas demais. Subitamente fazem silêncio. Esse silêncio é constrangedor. O morto tem um ar de queixa e ao mesmo tempo um invisível sorriso de superioridade. Outro dia eu perdi a paciência com um:
.
— “Está bem, meu caro. Eu sei que V. tem toda razão, e a prova de sua superioridade é que V. já está morto e eu ainda não cheguei a essa fase. Mas você está me gozando e abusando um pouco de sua qualidade de morto. Sei que não devia dizer isso, devia ser mais delicado com você, mas acontece…”

Parei de falar; ele tinha sumido. Não achei isso muito fino de sua parte. Ele devia se abster de um truque assim, que eu, como vivo, não posso usar. Essa ideia não me impedia de ter certo remorso.
.
O que mais me irritou foi que uns quinze minutos depois ouvi sua risada no ar, perto de minha janela. Não moro em nenhum arranha-céu, apenas em um quinto andar. Mesmo assim já é abuso, um sujeito ficar parado no ar, invisível, ali fora, fingindo que já se foi.

Está visto que era um morto relativamente recente, ainda um pouco novo-rico de sua própria morte. Imagino que todo morto vai ficando um pouco mais discreto à medida que seus amigos e conhecidos também morrem. Quando não resta mais nenhum mesmo na terra é que ele começa a viver sossegado sua vida de morto.
.
Não tenho nada contra o espiritismo, mas não acredito muito nessa história de sujeitos que baixam em sessões de subúrbio, cem, duzentos anos depois de morrer. Acho que depois de certa idade (idade de falecido) o morto não acredita mais em espiritismo. Considera-o uma impertinência dos vivos.

Tenho poucas mortas. Mas como são queridas! O engraçado é que à medida que o tempo passa elas vão ficando um pouco parecidas, vão-se fazendo irmãs, mesmo as que jamais se conheceram. Aparecem raramente e sempre caçoam um pouco de mim, mas com um jeito de carinho. Não faz mal que não me levem muito a sério; não mereço.
.
Mas a verdade é que nos piores momentos de minha vida sempre senti uma imponderável mão em minha cabeça; então fecho os olhos e me entrego a esse puro carinho, sem sequer me voltar para ver se é minha mãe, minha irmã ou uma doce, infeliz amiga ou apenas a leve brisa em meus cabelos.
.
Rio, dezembro, 1957.
.
Rubem Braga, no livro “Ai de ti, Copacabana”. Global, 2019

***

SOBRE O LIVRO
“Ai de ti, Copacabana!” é o livro mais lembrado quando o nome do imbatível cronista Rubem Braga vem à tona. O livro traz crônicas do autor que se tornariam célebres como “História triste de tuim”, “Os trovões de antigamente”, “O padeiro”, “Quem sabe Deus está ouvindo”, “A minha glória literária”, “História de pescaria”, além da surpreendente crônica que dá nome ao livro – “Ai de ti, Copacabana!” -, na qual Rubem faz uma espécie de ode ao bairro carioca, destacando seus vícios e virtudes.
A vista inebriante da Cordilheira dos Andes, a empolgação inocente de um taxista português no Rio acompanhando um navio cruzando a orla carioca, a notícia da separação de um casal amigo. Toda sorte de acontecimentos, grandiosos ou não, é ternamente transmutada por Rubem Braga nas crônicas de “Ai de ti, Copacabana!”.

FICHA TÉCNICA
Título: Ai de ti, Copacabana
Páginas: 176
Formato: ‎ 20.6 x 13.8 x 1.2 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 10/02/2019 (32ª edição)
ISBN: 978-8526024175
Selo: Global
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.

***

Saiba mais sobre Rubem Braga:
:: Rubem Braga – entrevistado por Clarice Lispector
:: Rubem Braga – o caçador de ventos e melancolias
:: Rubem Braga (contos, crônicas e afins)

 

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Saci Wèrè lança single ‘Manginha’, com participação de Flaira Ferro

Com delicadeza e ternura, Saci Wèrè nina o fim do mundo ao lado de Flaira…

19 horas ago

The Fevers e Renato & Seus Blue Caps em celebração à Jovem Guarda no Guairão

Curitiba vai receber dois grandes ícones da música brasileira, em uma noite de nostalgia, emoção…

1 dia ago

Rodrigo Lessa e Edu Neves lançam álbum instrumental ‘Tempo de Samba’

A música instrumental brasileira, em sua vertente carioca, tem como principal trunfo o equilíbrio entre…

2 dias ago

Queremos! traz ao Brasil a saxofonista, compositora e bandleader britânica Nubya Garcia

Saxofonista e compositora britânica, Nubya Garcia se apresenta no Manouche (RJ), e na Casa Natura…

2 dias ago

Jana Linhares lança single ‘Il fait dimanche’, pela Luna Music

Luna Music apresenta “Il fait dimanche”, canção francesa que atravessa o tempo entre delicadeza, memória…

2 dias ago

Dionne Warwick se despede dos palcos com a turnê “Over and Out: A Farewell Tour” em outubro no Brasil

Um dos maiores ícones da música mundial, a seis vezes vencedora do Grammy, Dionne Warwick, anuncia sua…

2 dias ago