A escritora Toni Morrison, em 2008 - Nova York/EUA - foto ©Damon Winter/NYT

“Nós morremos. Esse pode ser o significado da vida. Mas nós fazemos linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas.”
– Toni Morrison, no discurso proferido ao receber o Nobel Literatura (1993) – fonte: Cia das Letras.

Autora americana, vencedora do Nobel de Literatura e do Prêmio Pulitzer, deixou romances intensos marcados pelo racismo e as feridas da escravidão

Ganhadora de um Nobel de Literatura e de um Prêmio Pulitzer, a escritora Toni Morrison traçou com sua pena romances poéticos sobre temas duros — especialmente voltados para as feridas da escravidão e do racismo nos Estados Unidos. A autora, que influenciou diversos outros escritores e até roteiristas, como Shonda Rhimes, deixando onze romances publicados, além de ensaios e textos infantis. Confira abaixo cinco de suas principais obras:

O Olho Mais Azul (1970)

Primeiro romance de Toni, publicado quando ela tinha 39 anos, o livro conta a história de uma garota negra na década de 1940 em Ohio, que sonha ter olhos azuis. Para a menina, a brancura é sinônimo de beleza em um mundo assombrado pela escravidão e cercado de referências que associam garotas brancas ao que é “correto”.

Vívido, sensível, mas também duro e sem filtros, o livro foi descrito pelo jornal The New York Times como “uma prosa tão precisa, tão fiel ao discurso e tão carregada de dor e assombro que o romance se torna poesia”. À época, teve uma resposta ambivalente do público, com baixas vendas. Ganhou reconhecimento ao entrar para uma lista de leitura de uma universidade. Desde então, enfrentou desafios legais e chegou a ser banido em escolas de vários estados americanos por tratar de temas tabu como incesto e abuso sexual infantil.

“O amor nunca é melhor que o amante. Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez, e o amor de um homem livre nunca é seguro. Não há dádiva para o ser amado. Só o amante possui a dádiva do amor. O ser amado é espoliado, neutralizado, congelado no fulgor do olho interior do amante.”
– Toni Morrison, no livro ‘O olho mais azul’. [tradução Manoel Paulo Ferreira]. Companhia das Letras, 2019.

Amada (1987)

Com seu quinto livro, Toni ganhou status de celebridade ao dramatizar a dolorosa história real de Margaret Garner, uma escrava que tem sua busca pela liberdade marcada pela complicada relação com a filha, que nasce durante sua fuga.

“É uma obra-prima americana, a qual repensa, de um jeito curioso, todos os grandes romances da época em que é escrito”, escreveu A.S. Byatt, no jornal The Guardian, por ocasião do lançamento.

Em decisões polêmicas, Amada foi preterido em dois dos principais prêmios americanos da área ao ser publicado, levando 48 escritores a assinarem uma carta aberta na New York Times Book Review denunciando o não reconhecimento de Morrison.

Em 1988, veio, então, o Prêmio Pulitzer, e o livro foi adaptado para o cinema dez anos depois como Bem-amada, filme estrelado por Oprah Winfrey como a mãe, Sethe.

Jazz (1992)

A aclamada e chocante trama se passa na década de 1920, no Harlem, bairro negro de Nova York, e narra a história de uma jovem baleada pelo amante e que ainda é alvo do ódio da esposa traída, mesmo após sua morte. A obsessão amorosa se mescla com os dramas e temores de uma época em que a cidade grande faz promessas além do que vai cumprir.

A genialidade da autora é percebida na construção do romance que flerta com o estilo musical do título, com notas em desarranjo, quase independentes, criando uma cacofonia harmoniosa. Diversos narradores parciais apresentam seu ponto de vista, mudando a perspectiva da trama. A música em si, claro, também permeia o romance, segundo da trilogia iniciada por Amada.

Paraíso (1998)

Paraíso completou a trilogia de romances de Toni iniciada com Amada e seguida por Jazz, desafiando a leitura dominante do passado, ao explorar, especificamente, a história afro-americana desde meados do século XIX até os dias atuais.

Na trama, uma cidade fictícia e utópica é habitada apenas por negros, que se refugiaram ali depois da escravidão. Rígidos seguidores de uma extrema lista de regras, os habitantes se chocam com a chegada de forasteiras, sendo uma delas branca. A crise culmina em um brutal assassinato.

Primeiro livro escrito depois de ser agraciada com o Nobel de Literatura, em 1993, Paraíso apresenta o típico estilo de múltiplas vozes narrativas com saltos temporais para falar sobre preconceito e identidade.

Voltar para Casa (2012)

“De quem é esta casa?” é a pergunta que abre o romance, que trata de um outro tema recorrente no trabalho de Toni: o que é um lar e como isso molda ou dilacera o ser humano.

Nele, a escritora conta a história de um rapaz nos seus 20 anos que volta para casa, em Seattle, depois de lutar na Guerra da Coreia. Um jovem que deixa “um exército integrado” para retornar para “um país segregado”, como escreveu o jornal The New York Times em uma resenha na época do lançamento. No retorno, ele encontra a irmã, oprimida por uma sociedade machista. Ambos terão, então, que encontrar novos significados para recomeçar.

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Toni Morrison – escritora

Da autora

Toni Morrison foi uma escritora norte-americana e a primeira mulher negra vencedora do prêmio Nobel de Literatura, em 1993. Mas os méritos da prolífica autora americana não se traduzem apenas em suas inúmeras premiações e condecorações: a exclusividade e ineditismo de algumas delas, no entanto, indicam vitórias que ultrapassam os limites da literatura.

Chloe Anthony Wofford é o nome de berço de Toni Morrison, nascida em Lorain, estado de Ohio, ao norte dos Estados Unidos, em 1931. Filha de um soldador e de uma dona de casa, foi a segunda de quatro irmãos e viveu seus primeiros anos em uma vizinhança miscigenada – realidade incomum que uniu diferentes famílias pela necessidade financeira.

Após uma exitosa passagem escolar, Toni partiu para a universidade de Howard, em Washington, onde estudou inglês e literatura clássica. Em 1953, iniciou o mestrado em literatura na Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York. Com o diploma em mãos – obtido após escrever uma tese sobre Virginia Woolf e Faulkner –, dedicou-se exclusivamente ao ensino por nove anos. Durante esse período, casou-se com o arquiteto jamaicano Harold Morrison, com quem, apesar do curto tempo de relacionamento, teve dois filhos. Toni deixou o marido quando ainda estava grávida do segundo, e teve que encontrar uma saída rápida para se sustentar enquanto mãe solteira. Surgiu, então, a oportunidade de trabalhar na famosa editora Random House, que colocou Toni em um ambiente até então estranho para ela – um mundo de agentes, editores e escritores.

Era o momento ideal para produzir a própria ficção, inspirada por autores como James Baldwin, Chinua Achebe e Camara Laye. Baseando-se em uma marcante lembrança de sua juventude, escreveu pacientemente por cinco anos até que, em 1970, publicou O olho mais azul. Morrison, porém, estava tão segura da singularidade do que produzia que não hesitou em dar seguimento a seus romances. Em cerca de dez anos publicou Sula (1973), o épico A canção de Solomon (1977) e Tar baby (1981).

Com avaliações cada vez mais elogiosas e um público devotado, Toni Morrison foi conquistando uma posição de destaque entre os romancistas americanos e uma sequência de prêmios representativos: ela foi a primeira mulher negra a figurar no celebrado Book of the Month Club e a ser capa da revista Newsweek em mais de quarenta anos. Sua passagem de quase duas décadas como editora na Random House também merece menção: Morrison teve papel essencial na difusão de escritores negros como Angela Davis e Toni Cade Bambara, além de organizar antologias dos autores africanos Chinua Achebe e Wole Soyinka.

Sua obra conta com onze romances, cinco livros infantis (produzidos em parceria com o filho, Slade Morrison, falecido em 2010), oito obras de não ficção, contos, peças de teatro e até libretos para ópera. Mesmo com a extensa bagagem, dois feitos excepcionais permanecem como os mais associados à imagem da escritora. Um deles é Amada (1987), romance baseado na história real da mulher escravizada Margaret Garner, até hoje seu livro mais celebrado e considerado uma das grandes obras americanas do século XX.

Adaptada para o cinema em 1998, Amada foi vencedora do National Book Award, do prêmio Pulitzer e, em 1993, Toni foi premiada com o Nobel de Literatura, por seus romances “caracterizados por uma força visionária e um influxo poético, [que dão] vida a um aspecto essencial da realidade americana”. A premiação, que fez a escritora se sentir “mais negra” e “mais mulher” do que nunca, também foi marcado por um discurso poderoso, em que Morrison, fazendo uso de uma antiga fábula, reforçou o poder da linguagem: seu poder de subjugar e libertar, de violentar e redimir – sua inabalável influência na defesa e valorização das diferentes identidades.
Fonte: TagLivros/blog.

Toni Morrison – escritora
Obras – Toni Morrison publicada no Brasil 
pela Companhia das Letras

:: A fonte da autoestima. Toni Morrison. [tradução Odorico Leal]. Companhia das Letras, 2020.
:: A origem dos outros. Toni Morrison. [tradução Fernanda Abreu]. Companhia das Letras, 2019.
:: O olho mais azul. Toni Morrison. [tradução Manoel Paulo Ferreira]. Nova edição. Companhia das Letras, 2019.
:: Deus ajude essa criança. Toni Morrison. [tradução ?]. Nova edição. Companhia das Letras, 2018.
:: Voltar para casa. Toni Morrison. [tradução José Rubens Siqueira]. Nova edição. Companhia das Letras, 2016.
:: Amada. Toni Morrison. [tradução José Rubens Siqueira]. Nova edição. Companhia das Letras, 2011.
:: Compaixão. Toni Morrison. [tradução José Rubens Siqueira]. Nova edição. Companhia das Letras, 2009.
:: Jazz. Toni Morrison. [tradução José Rubens Siqueira]. Nova edição. Companhia das Letras, 2009.
:: Quem leva a melhor? Toni Morrison. [ [tradução Toni Morrison e Slade Morrison;
ilustrador Pascal Lemaître]. Nova edição. Companhia das Letras, 2008.
:: Amada. Toni Morrison. [tradução José Rubens Siqueira]. Nova edição. Companhia das Letras, 2007.
:: Amor. Toni Morrison. [tradução José Rubens Siqueira]. Nova edição. Companhia das Letras, 2005.
:: Paraíso. Toni Morrison. [tradução José Rubens Siqueira]. Nova edição. Companhia das Letras, 1988.

pela TAG Curadoria

:: O olho mais azul. Toni Morrison. [tradução Manoel Paulo Ferreira]. Tag Curadoria/Livros; Companhia das Letras, 2019.

Leia mais sobre Toni Morrison

:: 9 respostas para Racismo e Fascismo – por Toni Morrison

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