Cássia Eller: a menina azul, por Daniela Aragão
Desisti de procurar pela casa minhas duas fitas cassete ancestrais. Encontrei apenas uma fotografia meio amarelada, a revelação de que por volta de meus quatro anos de idade era rotina colocar um disquinho pra tocar. A velha eletrola se posicionava bem baixinha e próxima de meu pequeno corpinho, de maneira que eu podia repetir a música desejada inúmeras vezes. Acreditei durante um bom tempo que o som que vinha do disco era feito na hora e exclusivamente para mim. Os primeiros acordes apontavam e lá em sua casa estava preparado o cantor, para mais uma vez iniciar sua sessão particular, exclusivamente dedicada aos meus ouvidos. Eu viajava então no som e no suposto locus do cantor. Estaria ele numa sala, num quarto, no corredor? Esse período antecede minha descoberta da “Bolsa Nova”, com João e seu “Brasil com S”, em duo com Rita Lee. Quem mais se exauriu de cantar sozinha para mim foi Amelinha, no compacto que trazia “Foi Deus que fez você” . Completamente alucinada por esta canção eu a repetia, repetia, repetia em uníssono com a cantora. Composição que me trazia um vislumbramento de azul que eu viria instintivamente buscar em tantas audições posteriores. “Am I blue”, cantarei eternamente com Billie Holliday, que chegou a me inspirar o título de uma crônica em reverência ao tempo das fitas cassete. Coloco Amelinha aqui e me recordo com saudade melancólica do céu quente de abundante azul de Teresina no mês de outubro: “Foi Deus que fez o céu, o rancho das estrelas/ Fez também um seresteiro para conversar com elas/Fez a lua que prateia minha estrada de sorrisos/E a serpente que expulsou mais de um milhão do paraíso”.
.
São Longuinho não me abençoou ainda com o resgate da velha fita cassete. Minha saudosa tia Sônia devolveu-me a fita gravada nos dois lados, para que celebrássemos juntas a primeira kitnet que eu conseguira alugar. Um registro feito aos quinze anos de idade trazia minha pureza angelical irrecuperável: “Vago na lua deserta das pedras do Arpoador/ Digo alô ao inimigo encontro um abrigo no peito do meu traidor”, “ Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves/ Dentro do coração”, “Bem te vi, bem te vi/ andar por um jardim em flor /chamando os bichos de amor/tua boca pingava mel”.
No tempo das fitas cassete eu sentia um frenesi indescritível ao conseguir conjugar o grande gravador, o microfone e as mãos tateantes nas cordas de meu pinho. O som que conseguia extrair traduzia uma certa magia que ainda não era maculada por tantas adulterações tecnológicas.
.
Comoção imensa me causa escutar o registro da jovem – quase menina Cássia Eller, acompanhada por seu violão no álbum “O espírito do som”. Crua, visceral, doce e rascantemente bela a voz da cantora, que deixou com Elisa de Alencar uma fita cassete com suas interpretações juvenis.
.
O disco com feição de diário-sonoro (manuscritos da artista recheiam o interior do encarte), dada sua verdade e intimidade desvelada sem qualquer recurso técnico, traz na abertura “Segredo”, da ânima irmã Luiz Melodia. O violão elementar e correto tocado pela própria cantora, serve de base suficiente para que sua voz passeie livre por aclives e declives. A expressividade de um canto absolutamente pleno e livre, mostra o quanto Cássia já possuía uma sabedoria instintiva. Uma afinação que não perde seu prumo em nenhuma filigrana.
Todas as dez faixas apontam para os caminhos que Cássia iria percorrer em sua meteórica carreira. Relê a parceria Lennon e McCartney em “For no one”, “Hapinnes is a warm gun” e “Golden Slumbers”. Deixa escoar a eterna “little gril blue”, cheia de ternura na ausência que jamais se preenche. “Ausência”, de Ednardo é linda de arder na voz de Cássia: “Tu lembras, a rua estreita, estrada tão antiga/E eu mostrava a ti uma cantiga/Uma cantiga antiga do lugar/Na rua, na paz da lua, o sonho se fazia/E sem querer então eu esquecia/Que já não temos tempo pra sonhar”.
.
Cássia é a menina azul desprotegida, com o peito a implodir de intensidade multicromática. Um canto que finca por vezes flores amassadas no peito, “mas que bobagem as rosas não falam simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”. Cássia é rock and roll, é blue, é jazz, é balada, é Lupicínio, é Cartola, é Billie Holliday, é Elis, é o Rei Roberto, é Jacques Brel, é Jimmy Hendrix. É tudo numa singularidade somente sua.
.
Um pedaço do girassol que fugiu correndo da tela de Van Gogh na luminosa parceria com Simone Saback: “ “Eu fui inventar/Uma flor do sol pra lhe dar/Flor do sol/Uma canção em dó bemol”. A manhã pode acordar a voz da menina-mulher-furacão com uma indomável dor “Good morning heartache”. E no entanto é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar. Cássia canta, canta, canta, canta.
_______________________
* Daniela Aragão (1975) é doutora em literatura brasileira pela Puc-Rio, cantora e pesquisadora musical. Há mais de duas décadas desenvolve trabalhos sobre a história do cancioneiro brasileiro, com trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Gravou em 2005 o disco “Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso”. Há mais de uma década realiza entrevistas com músicos de Juiz de Fora e de estatura nacional. Entre os entrevistados estão: Sergio Ricardo, Roberto Menescal, Joyce Moreno, Delia Fischer, Márcio Hallack, Estêvão Teixeira, Cristovão Bastos, Robertinho Silva, Alexandre Raine, Guinga, Angela Ro Ro, Lucina, Turíbio Santos… Seu livro recém lançado “De Conversa em Conversa” reúne uma série de crônicas publicadas em jornais e revistas (Cataguases, AcheiUSA, Suplemento Minas, O dia, Revista Revestrés, Cronópios…) ao longo de quinze anos. Os textos de Daniela Aragão são reconhecidos no meio musical devido a sua considerável marca autoral e singularidade, cuja autora analisa minuciosamente e com lirismo obras de compositores e cantores como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Rita Lee. O livro possui a orelha escrita pelo poeta Geraldo Carneiro, prefácio do pesquisador musical e professor da Puc-Rio Júlio Diniz, contracapa da cantora e compositora Joyce Moreno e do pianista e arranjador Cristovão Bastos. Irá lançar em 2022 seu livro “São Mateus – num tempo de delicadezas”. Colunista da Revista Prosa, Verso e Arte.
*
> Leia outras entrevistas e crônicas de Daniela Aragão: Aqui.
Tributo ao Poetinha é comandado pelas cantoras Graziela Medori, Jane Duboc e pelo ator e…
Apresentação no Rio de Janeiro, primeira anunciada, acontece dia 25 de setembro, no Vivo Rio.…
O painel SETE MARIAS que o pintor brasileiro Antonio Veronese acaba de pintar. É um grito…
O pianista pernambucano Amaro Freitas recebeu, no último sábado (11/7/2026), o Prêmio Paul Acket 2026,…
Espetáculo-celebração de 20 anos de carreira da artista abre a Série Encontros, projeto da Sympla…
Mostra virtual "Silêncio que fala" será lançada na abertura do Festival Assad 2026 e resgata…