Cristina não é deusa, mas convive com eles. Não se coloca acima dos homens nem busca tronos celestes, prefere o chão firme da cozinha e a mesa como altar. É católica apostólica romana, mulher de fé que carrega consigo a devoção a Santa Rita de Cássia, intercessora das causas impossíveis, a São João da Cruz, místico do silêncio e da noite escura, a São Roque, protetor dos enfermos e dos animais, e a São Judas Tadeu, o santo das urgências desesperadas. Sua fé não se isola em rituais solenes, mas se traduz em gestos diários de caridade e solidariedade, em mãos estendidas para os pobres, desvalidos e miseráveis, em braços abertos para acolher os cães e todos os animais que não têm voz. É também herdeira das tradições do universo mítico grego, filha de uma linhagem simbólica que se reconhece no Olimpo e que caminha lado a lado com deuses antigos. Não é deusa, mas é pitonisa, heroína oracular que compreende a linguagem dos elementos, que convive com as divindades como quem respira um ar natural e necessário, que traduz ciência em poesia e alquimia em caridade.
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Cristina é química e bioquímica, profissão e vocação que moldam sua visão do mundo. Sabe como funcionam as moléculas, como o sal migra em silêncio, como o açúcar se transforma em ouro líquido no calor do forno, como o ácido desperta sabores ocultos. Sua cozinha é laboratório, mas também templo. Ao mesmo tempo em que se debruça sobre cálculos e membranas, troca a água de uma assadeira ou observa a fervura de uma panela, vê nos processos físicos e químicos a metáfora da vida e da alma. Cada prato é um rito, cada receita é um oráculo, cada refeição é liturgia. E o prato que leva seu nome, o Bacalhau à Cristina, é a síntese de sua ciência, de sua fé e de seu mito.
O ritual começa com o lombo de bacalhau, branco e firme, guardião de mares profundos e de uma história antiga de navegadores e pescadores. Muitos acreditam que se dessalga apenas mergulhando em água fria e esperando. Cristina sorri. Para ela, não basta esperar. É preciso compreender. O dessalgue é um processo de diálise, operação invisível que só um olhar bioquímico sabe valorizar. Ela troca a água em intervalos precisos, observando gradientes de concentração, deixando que o sódio migre, que as fibras se limpem, que a carne se torne corpo puro, pronto para receber o gesto do fogo e o abraço das ervas. É ciência transformada em alquimia, paciência transformada em rito. Cristina toca o lombo como quem toca uma escritura, observa sua textura como quem lê um oráculo. No silêncio da cozinha, o sal abandona lentamente o peixe, e o mar se recolhe para que a terra e o céu possam também participar da refeição.
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Atentos, silenciosos, inseparáveis, estão sempre ao lado de Cristina seus dois Chow Chows, um casal de origem oriental. São totem de sua vida, presença absoluta, sombra protetora e carinhosa. Guardiões de sabedoria e mansidão, parecem deuses em silêncio, atentos a cada gesto de sua dona, acompanhando-a em fidelidade absoluta, sem separar-se dela por um instante sequer. Caminham como se fossem figuras mitológicas da eternidade, vigilantes e tranquilos, com mansidão oriental, mas sempre alertas. São companheiros e são também símbolos, guardiões da pitonisa que convive com deuses gregos, com santos católicos, com fórmulas químicas, com elementos naturais. Eles respiram junto dela, assistem à diálise do bacalhau como se estivessem diante de um rito, vigiam o forno como quem guarda um altar.
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Cristina prepara a base da assadeira. Primeiro as batatas, cortadas em rodelas, pré-cozidas em água fervente por poucos minutos. São raízes, são colunas de templo, são pedras fundamentais de um edifício sagrado. Sobre elas, espalha cebolas em círculos concêntricos, anéis que lembram o tempo e a vida em seus ciclos. Depois lança os pimentões, verde, vermelho e amarelo, bandeiras de festa, tochas de cores que celebram a diversidade dos elementos. O verde é renascimento, o vermelho é paixão, o amarelo é ouro. Os cogumelos vêm a seguir, fatias discretas que trazem a memória da sombra e da floresta, lembrando que a vida se ergue também no silêncio. Os tomates cerejas saltam como pequenos sóis, alguns inteiros, outros cortados ao meio, prontos para estourar em rubis líquidos quando o calor os tocar. Sobre tudo, o repolho em fatias finíssimas, véus que se tornarão caramelo no forno, mistério que se dissolve em doçura. Alho em lâminas se espalha como espada de luz, abrindo caminho para os perfumes que virão. Alecrim, salsa, manjericão e cebolinha trazem o frescor dos jardins, vozes verdes que acompanham o canto do prato.
No centro, repousa o lombo de bacalhau dessalgado pela ciência e pela paciência, envolto em silêncio e expectativa. Ao redor, camarões são dispostos como guardiões marinhos, soldados do oceano que logo ganharão cor coral, cintilando como pérolas em brasa. Mais azeite, ouro líquido que cai em fios, mais gotas de limão, bênção ácida que desperta. A assadeira é coberta com papel alumínio e levada ao forno. Ali, a alquimia se inicia. O forno é oráculo, templo de transformação. Durante vinte e cinco minutos, os elementos se encontram e se modificam. As fibras do peixe se relaxam, as cebolas choram em doçura, os tomates se inflamam, os pimentões se rendem, o repolho se aproxima do âmbar. O alumínio é retirado, e por mais vinte minutos a assadeira retorna ao calor. Agora o dourado se decide, o bacalhau ganha cor, os camarões brilham, os legumes se transfiguram, o perfume toma conta da casa como incenso de templo antigo. Os Chow Chows respiram atentos, olhos de deuses em vigília, mansidão oriental que não abandona a pitonisa.
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Quando o forno se cala, Cristina retira a assadeira. Sobre o prato ainda vivo, espalha pedaços de rúcula, folhas verdes que se rendem ao calor, mas que resistem com amargor elegante. É o contraste necessário, lembrança de que nenhuma doçura é plena sem a sombra que a equilibra. Mais um fio de azeite cru, mais gotas de limão, ervas frescas novamente. O prato é completado. Está pronto. Mas não é apenas alimento. É rito. É mito. É metáfora. É oração e é ciência, é caridade e é alquimia.
Quem prova o Bacalhau à Cristina não apenas se alimenta, participa de uma liturgia. Em cada garfada há a ciência da diálise que purificou o peixe, há a paciência dos santos que acompanham os desesperados, há o vigor dos deuses gregos que sopram no fogo, há a ternura dos Chow Chows que vigiam com mansidão. A lasca branca do bacalhau é véu de sacerdotisa, o camarão rosa é chama marinha, a batata é pedra de templo, o pimentão é vitral, o tomate é rubi, o repolho é ouro antigo, a rúcula é sopro de sombra, o azeite é sol líquido, o limão é bênção. É um banquete e é uma oração. É ciência e é mito. É caridade transformada em sabor.
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Cristina é ativista social, católica em sua devoção e prática, mas também herdeira do mito grego em sua consciência. Vê nos pobres e miseráveis os filhos de Dioniso, de Apolo, de Deméter, os órfãos da pólis que precisam de cuidado. Vê nos animais abandonados os companheiros de Ártemis, filhos da floresta e da caça, que devem ser protegidos. Vê na rua um altar onde a caridade deve ser exercida. Carrega consigo a imagem de Santa Rita, de São Roque, de São Judas Tadeu, de São João da Cruz, e age com ternura como quem cumpre um mandamento. Cuidar dos pobres é cuidar de Cristo. Cuidar dos animais é cuidar da criação. Dessalgar o bacalhau é dessalgar a vida, é retirar o excesso de dor, é preparar o ser humano para o encontro com o calor que transforma.
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O Bacalhau à Cristina é uma epopeia doméstica e universal. É prato, é rito, é metáfora. É gesto de ciência e fé. É dedicação aos miseráveis e aos cães. É oferenda aos deuses do Olimpo e é oração aos santos católicos. É guardado por dois Chow Chows totêmicos que não se separam dela, atentos e fiéis como guardiões de um templo oriental. É a receita de uma bioquímica que entende que as moléculas não são apenas fórmulas, são símbolos. Que um prato não é apenas alimento, é mensagem. Que a cozinha não é apenas fogão, é altar. Que a vida não é apenas repetição, é rito. Cristina é pitonisa, heroína, católica e mítica, senhora da ciência e da caridade, mulher que convive com deuses e santos, com laboratórios e fornos, com ruas e cães, com pobres e oráculos. O Bacalhau à Cristina é sua ode viva, seu poema de forno e mesa, sua oferenda de alquimia e caridade.
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E quando a refeição termina, quando os pratos estão vazios e os corações cheios, Cristina acaricia seus Chow Chows. Eles repousam a seus pés, deuses em silêncio, mansidão oriental em forma de pelagem e respiração. A cozinha se aquieta. Mas o mito permanece. O Bacalhau à Cristina continua sendo o que sempre foi: ciência e fé, mito e oração, rito e caridade, alimento e poesia.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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