segunda-feira, junho 24, 2024

Álbum ‘Patrícia Ahmaral Canta Torquato Neto – vol. 2’

“A Coisa Mais Linda Que Existe – Patrícia Ahmaral Canta Torquato Neto – vol.2”, segunda parte de álbum duplo tributo da cantora mineira ao poeta e multiartista piauiense, já está nas plataformas. Com 10 faixas, o novo volume é dedicado a canções com letras de amor do autor, morto em 1972, e traz participações de Ná Ozzetti, Paulinho Moska e Zeca Baleiro, que é também diretor artístico do projeto.
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Quem já manteve contato com a historiografia ou com alguma faceta do legado do poeta, cineasta, ator, jornalista e letrista de canções, Torquato Neto (1944-1972), conhecido como o “poeta da Tropicália”, tende a cristalizar, junto ao personagem grandioso e intrigante que ele representa, a imagem de uma pessoa atormentada, inconformista, regada pelo mito do poeta suicida, gesto que infelizmente ele consumou, aos 28 anos de idade. De fato, o artista, nascido em Teresina e migrado para o Rio de Janeiro, em 1962, uma das figuras mais combativas e afirmativas no campo das artes nacionais de vanguarda, nos anos 1960 e início dos 70, não poupava posturas de radicalidade, assim como não poupou a si mesmo, em nome do mergulho alucinante e urgente ao qual se entregou, junto a seus pares, rumo ao sonho de modernizar e universalizar as artes no país, vislumbrando um Brasil muito vivo e de ponta, a partir de seu caldo cultural genuíno, amargando, por outro lado, ele, Torquato, uma profunda angústia ante às contradições marcantes em nosso território, misturadas às suas próprias batalhas internas entre muitos fins e (re)começos.

Com o lançamento de “A Coisa Mais Linda Que Existe – Patrícia Ahmaral canta Torquato Neto – Vol.2” (10 faixas), que já está disponivel nas plataformas digitais de áudio, a cantora Patrícia Ahmaral, de certa forma, tange algo como um contraponto a esta aura atribuída ao autor, trazendo nesta segunda parte de seu álbum tributo, um recorte dedicado exclusivamente a canções com letras de amor escritas por Torquato Neto. Entre as mais conhecidas, a clássica “Pra dizer adeus”, parceria dele com Edu Lobo e “Go back”, parceria com Sérgio Britto, hit dos Titãs, gravado pelo grupo nos anos 80.
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O lançamento, que traz participações especiais de Ná Ozzetti, Paulinho Moska e Zeca Baleiro, dividindo solos de voz com Patrícia, dá sequência à homenagem da intérprete, que iniciou com “Um Poeta Desfolha a Bandeira – Patrícia Ahmaral Canta Torquato Neto – Vol.1” (9 faixas)*, e divulgado anteriormente nas plataformas, em 10/11/2022, exatamente na efeméride dos 50 anos de morte do autor. O projeto contou com direção artística do compositor e cantor Zeca Baleiro, colaboração iniciada informalmente e consolidada como oficial no decorrer das gravações.

revistaprosaversoearte.com - Álbum 'Patrícia Ahmaral Canta Torquato Neto - vol. 2'
Patrícia Ahmaral – foto ©Kika Antunes

DUAS FACES
“São duas faces de Torquato, embora elas se entrelacem totalmente. O volume 1 com canções de discursos mais ´coladoś na Tropicália ou de versos mais existencialistas ou convocatórios. No volume 2, sua fala lírica-amorosa, terna, mas também atravessada por seu modo urgente e confessional e, por vezes, misturada à sua ironia crítica aos contextos do país”, explica Patrícia. “Um romantismo a la Torquato”, complementa.
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Baleiro também comenta, em texto a respeito: “Patrícia dividiu o repertório do poeta em um volume mais, digamos, existencial, e outro mais lírico/amoroso, embora em Torquato tudo se misture e se confunda. Na poesia de Torquato tudo é caos. Por isso também é explosão de beleza”.

PRODUÇÃO MUSICAL E PROJETO GRÁFICO
A produção musical do trabalho, gravado na maior parte remotamente, durante o período pandêmico, é assinada pela dupla Marion Lemonnier (Honfleur-FR) e Walter Costa (Niterói/RJ), criando em conjunto, e por Rogério Delayon (Belo Horizonte/MG), multiinstrumentista que integrava, no final dos anos 90, a banda que esteve com Patrícia, em noite na “Primeira Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte”, apresentando o show “TorquaTotal”, embrião que, de alguma forma, se desdobra neste álbum duplo, mais de 20 anos depois. No processo remoto, as vozes de Patrícia foram gravadas em São Paulo, pela produtora Gigi Magno, que as enviava para serem unidas às bases, por Walter Costa, também responsável pela mixagem do disco.
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O álbum chegou às plataformas com projeto gráfico de capa e “encarte” digital, assinado por Chico Amaral, artista plástico e premiado designer, irmão de Patrícia, que assumiu até o momento a criação gráfica de todos os trabalhos discográficos da cantora. As fotos são de Kika Antunes, fotógrafa belo-horizontina que dialoga com a intérprete também desde o início de carreira e que a clicou, agora, buscando uma estética de movimentos, camadas, em alusão à aura fugaz, fragmentária e plural que envolve a obra de Torquato Neto. O encarte será disponibilizado através das redes sociais da artista, na data de lançamento. Alguns exemplares físicos serão produzidos posteriormente para a imprensa e para fãs.

REPERTÓRIO
Neste volume 2, junto às obras mais amplamente conhecidas, as já citadas “Go back” e “Pra dizer adeus”, Patrícia resgata outras menos divulgadas, como “Um dia desses eu me caso com você”, de Torquato com o pernambucano Paulo Diniz (1940-2022), no vasto e interessante espectro de parcerias que contribuem no cancioneiro do autor. A música foi lançada por Diniz no LP “Canção do Exílio”, de 1982. Patrícia e Baleiro chegaram a tentar uma participação do músico na gravação, ainda em 2021, o que infelizmente não se concretizou, por motivos de saúde. Mais recentemente, o mesmo poema foi base para canção homônima do compositor mineiro Oneives, no álbum “Segunda-feira” (2010) e, sobre outra versão do poema, Adriana Calcanhoto compôs “Um dia desses”, lançada em “Maré” (2008).
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Além de Edu Lobo, Sérgio Britto e Paulo Diniz, “A Coisa Mais Linda Que Existe – Patrícia Ahmaral canta Torquato Neto – Vol.2” traz parcerias de Torquato com Gilberto Gil, na trinca “A coisa mais linda que existe”, “Minha Senhora” e “Zabelê”; com Geraldo Azevedo, em “O nome do mistério”; com Nonato Buzar (1932-2014), em “Que película”; com Zeca Baleiro, na até então inédita “Jardim da Noite (Esses Dias); e com Zé Roraima, em “Eh Morena”, canção do álbum “Torquato Neto: Inéditas Entre Nós” (2019), produzido a partir do Piauí. Nas participações, Ná Ozzetti, em “Que película”, Zeca Baleiro, em “Go back” e Paulinho Moska, em “Jardim da Noite (Esses Dias)”.
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“Sobre as participações são nomes de referência pra mim e na música brasileira e que, no álbum, me ajudam a promover as conexões que Torquato apreciava. Ele era gregário e plural ao mesmo tempo… naturalmente, assim como no volume um, que trouxe várias colaborações e muito simbólicas (Banda de Pau e Corda, Chico César, Jards Macalé, Maurício Pereira e Tonho Penhasco e Projeto Moda de Rock), surgiu o desejo de incluir, também neste, pontes com artistas diversos e convidá-los para somarem neste caldeirão musical do poeta!”, conclui Patrícia.

 

– para mostrar: um coração de ponta a retaguarda de detrás do fogo a faca o ferro deste amor – a louca revolução o beijo preso, famoso, na garganta. sento-me para aplicar os dedos à memória, e escutar as conversas repetidas no brejo das almas. aprender que tudo vale a pena porque a vida vale a pena e vai passando. um homem e sua mesma vida. eu gostaria de ser, sempre, como quando estou ausente e não me importo porque a minha mesma vida é com os outros – é, quanto mais, eu vivo e ausente me deixo ver melhor. é aí que sou inteiramente ativo, é fundamente despedir-me. paris, 25 de julho de 1969. um coração de ponta e não de pedra ou posição de cais. eu sempre quis fazer um filme e um poema, um livro, uma escultura: a própria (pura) fé/bricação, febre, tesão. não devo interromper. devo sentar-me agora? para mostrar a retaguarda de detrás do fogo por onde passo aqui no ano atrasado daqui a um mês na nicarágua. a faca que não uso o ferro deste amor. que fosse um filme e o resto num só tempo que eu celebraria intensamente para a minha glória e o meu prazer. me impressiona muito o que me lembro me intenciona muito e me confirma. ou então não vivo e subtraio-me. hoje paris está passando com seus tabac e suas cantigas. a cantiga do automóvel passando e dos diversos passos que escuto agora enquanto bato a máquina e me desperta o seu ruído. está faltando rothmans em paris estão faltando cartas do brasil cheiro de são paulo filmes de ipanema, a louca revolução e beijo. preso. a peça é condoreira quando chora e realista quando canta. não tenho mais vontade estou absolutamente branco e o que me importa a linha do horizonte se foi preciso aprendê-la? faz poucos dias que minha loucura levou-me à lua onde pisei. agora me divirto em conservá-la e acostumar-me a vê-la como coisa minha. estou aqui para compreender o assunto com meus sentidos. não é mais difícil nunca foi mais difícil, nunca.
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– sento-me para escrever. estou apenas ligeiramente tonto, ainda – e em paris são apenas quase duas horas da manhã e ana está na cama deste quarto de hotel, lendo uma revista e sofrendo grandes sentimentos sobre mim. (…)
– (…) mas no brasil, que é um país sentimental. que é um país sentimental porque é um país musical e não tem para onde correr. (…)
——–
paris, esta cidade – torquato neto – frança vendredi, assim. [Textos escritos por Torquato, durante seu auto exílio na Europa].

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Capa do álbum ‘A Coisa Mais Linda Que Existe – Patrícia Ahmaral canta Torquato Neto – Vol.2’ • Patrícia Ahmaral • Selo Independente / Tratore • 2023 – projeto gráfico: ©Chico Amaral – foto: ©Kika Antunes

DISCO ‘A COISA MAIS LINDA QUE EXISTE – PATRÍCIA AHMARAL CANTA TORQUATO NETO – VOL.2’ • Patrícia Ahmaral • Selo Independente / Tratore • 2023
Canções / compositores
1. Um dia desses eu me caso com você (Paulo Diniz e Torquato Neto)
2. Eh morena (Zé Roraima e Torquato Neto)
3. Jardim da noite “Esses dias” (Zeca Baleiro e Torquato Neto) | Participação especial: Paulinho Moska
4. A coisa mais linda que existe (Gilberto Gil e Torquato Neto)
5. Go back (Sérgio Britto e Torquato Neto) | Participação especial: Zeca Baleiro
6. Minha Senhora (Gilberto Gil e Torquato Neto)
7. O nome do mistério (Geraldo Azevedo e Torquato Neto)
8. Que película (Nonato Buzar e Torquato Neto) | Participação especial: Ná Ozzetti
9. Zabelê (Gilberto Gil e Torquato Neto)
10. Pra dizer adeus (Edu Lobo e Torquato Neto)
– ficha técnica –
Patrícia Ahmaral (voz e vocais – fx. 1-9; voz e coro – fx. 10) | Paulinho Moska (voz e vocais – fx. 3) | Zeca Baleiro (vocais – fx. 4; voz, vocais e beatbox – fx. 5) | Ná Ozzetti (voz, vocais – fx. 8) | Marion Lemonnier (synths e loops – fx 1: synths, teclados e loops – fx. 2; teclados – fx. 5; vocais e synths – fx. 7; teclados e loops – fx. 8; piano e synths – fx. 9) | Rogério Delayon (violão nylon – fx. 1; cavaquinho, guitarra, violão nylon – fx. 2; bandolim e guitarras – fx. 3; banjos, calota de fusca, taco de madeira e vocais – fx. 4; ukulele – fx. 5; baixo, guitarra, programações, teclado e violão nylon – fx. 6; guitarras, violão aço e violão nylon – fx. 7; cavaquinho – fx. 8; violão nylon – fx. 9) | Lui Coimbra (rabecas – fx. 1) | Tatá Sympa (acordeon, teclados – fx. 3) | Érico Theobaldo (baixo, bateria, teclados e programações – fx. 5) | Marcelo Lobato (bateria sampleada – fx. 1, 2) | Kuki Stolarski (bateria – fx. 3) | Mafran do Maracanã (percussão sampleada – fx. 7) | Jam da Silva (percussão sampleada – fx. 8) | Bruno Santos (percussão – fx. 1, 8) | Thiago Corrêa (baixo – fx. 3) | Dunga (baixo – fx. 1, 9) | Swami Jr. (violão 7 cordas – fx. 10) | Richard Fermino (clarinete, trombone, trompete e tuba – fx. 4) | Sintia Piccin (clarinete – fx. 4) || Direção artística: Zeca Baleiro | Produção musical: Marion Lemonnier e Walter Costa (fx. 1, 2, 7, 8, 9) / Rogério Delayon (fx. 3, 4, 6) / Érico Theobaldo e Zeca Baleiro (fx. 5) / Zeca Baleiro (fx. 10) | Arranjos: Marion Lemonnier (fx. 1, 2, 8, 9) / Rogério Delayon (fx. 3, 4, 6) / Zeca Baleiro (fx. 5) || Arranjo vocal: Márcio Santana e Zeca Baleiro (fx. 10) | Produção executiva e pesquisa: Patrícia Ahmaral || Engenheiros de áudio: Marion Lemonnier, Rogério Delayon, Tiago Cabral e Walter Costa | Edições adicionais e gravação de vozes Patrícia: Estúdio Eletrola, por Gigi Magno | Gravação voz Paulinho Moska: Estúdio Fábrica de Chocolate, por Nilo Romero | Gravação vozes Ná Ozzetti e Patrícia Ahmaral, faixa 8: Estúdio 185 Apodi, por Beto Mendonça || Gravado entre abril de 2021 e abril de 2023, em home studios de produtores e músicos participantes, em Belo Horizonte, Petrópolis, Rio de Janeiro, São João Del Rey, São Paulo e Honfleur (FR) e nos estúdios, Ímã (São Paulo), Kuaré (Rio de Janeiro), Pink Zebra (São Paulo), Quase 9 (Rio de Janeiro), Toca Do Leão (Belo Horizonte) | Mixagem: Walter Costa – Estúdio Focal Point, Petrópolis/RJ | Masterização: Maurício Gargel – Estúdio Maurício Gargel Audio Mastering, São Paulo/SP | Projeto gráfico de capa e “encarte” digital: Chico Amaral | Fotos: Kika Antunes | Assistente de fotografia: Ester Antunes | Fotos de Torquato Neto: Acervo Artístico Torquato Neto | Figurino: Ronaldo Fraga | Calçado: Virgínia Barros | Visagismo: Cláudio Patrício | Agradecimento especial: ao Acervo Torquato Neto, Júlio Moura e Ricardo Aleixo | Assessoria de imprensa: Ana Paula Romeiro | Promoção digital: Palco Digital | Selo: Independente | Distribuição: Tratore | Formato: CD / Digital | Ano: 2023 | Lançamento: 11 de agosto | #* Ouça o álbum: clique aqui  // * Encarte disponível em pdf no link.
**Gravado com recursos da Lei Aldir Blanc (Editais – MG/2020) e através de campanha crowdfunding.

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Patrícia Ahmaral – foto ©Kika Antunes

SOBRE PATRÍCIA AHMARAL
Patrícia Ahmaral iniciou carreira nos anos 90. Seu CD de estreia, Ah! (1999), foi produzido por Zeca Baleiro. Depois vieram Vitrola Alquimista (2004) e Superpoder (2011), produzidos respectivamente por Renato Villaça e Fernando Nunes. Após um hiato na carreira, em 2022 concretizou um sonho acalentado há anos e lançou, nas plataformas, o primeiro volume de um álbum tributo ao poeta piauiense Torquato Neto. Em seus discos anteriores, ela reverencia com paixão obras de autores como Walter Franco, Sérgio Sampaio e Alceu Valença, além de expoentes de sua geração, como Chico César, Zeca Baleiro e nomes da cena independente, como Edvaldo Santana e Suely Mesquita. E faz leituras de clássicos, como A Volta Do Boêmio (Adelino Moreira) e Não Creio Em Mais Nada (Totó). É formada em canto lírico pela UFMG. Em seu trabalho de maior visibilidade, gravou na primeira exibição da novela Xica Da Silva (Rede Manchete) os temas de abertura e do personagem principal, na trilha sonora de Marcus Viana. Vem despontando também como compositora e prepara álbum autoral para final de 2023/início de 2024.
>> Patrícia Ahmaral na rede: Site | Instagram | Youtube | Facebook | Linktree.
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Série: Discografia da Música Brasileira / MPB / Canção / álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske


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