O pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior, o Tenório Jr., Tenorinho, acompanhava Vinicius de Moraes e Toquinho para concertos no Gran Rex, em Buenos Aires. Era março de 1976. Hospedado no hotel Nornandie, na Calle Rodríguez Peña, perto da Av. Corrientes, o artista sai à noite e deixa um bilhete: “Vou sair para comer um sanduíche e comprar um remédio. Volto logo.”. Nunca mais voltou. Sequestrado e desaparecido-forçado. Morto pela ditadura militar argentina que se avizinhava.
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“Tenório saiu sozinho na noite: Sumiu, ninguém soube explicar.” – Mutinho / Toquinho
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Agora, 50 anos depois, a Equipe Argentino de Antropología Forense (EAAF) anunciou sua identificação. Havia sido preso por engano, torturado, fuzilado e enterrado sem identificação no cemitério de Benavídez. Segundo testemunhas, foi terrivelmente torturado na ESMA (Escola de Mecânica da Armada/Escuela de Mecánica de la Armada) pelo serviço secreto da Argentina. Após verificar que não tinha envolvimento político, a repressão o executou. O próprio capitão Alfredo Astiz, chefe da que seria a repressão da Armada, o executou. Tenorinho foi vítima do Plano Condor. ‘É um alívio, mas queremos e precisamos de respostas’, diz família de Tenório Jr. após identificação. Leia a nota da família na integra abaixo.
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Considerado um dos grandes nomes da música instrumental brasileira da época, Tenório Jr. foi referência no samba-jazz e na bossa nova. Com carreira marcada por parcerias com Vinicius de Moraes, Toquinho e Leny Andrade, Tenório deixou sua marca em álbuns antológicos e festivais nacionais e internacionais. Seu desaparecimento, ocorrido durante uma turnê pela América do Sul, só ganhou repercussão anos depois, devido à censura imposta pelas ditaduras da época.

Trajetória
Francisco Tenório Cerqueira Júnior nasceu em 4 de julho de 1940, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Ele começou sua formação musical aos 15 anos, estudando acordeão e violão, até se dedicar ao piano — instrumento que o consagraria como um dos maiores nomes do samba-jazz. Na década de 1970, tornou-se figura central no Beco das Garrafas, reduto da bossa nova em Copacabana, na Zona Sul. Seu estilo refinado e domínio técnico o tornaram referência na fusão entre jazz e música brasileira. Ao longo da carreira, Tenório Jr. colaborou com grandes nomes da música brasileira, como Vinicius de Moraes, Toquinho, Wanda Sá, Leny Andrade e Edison Machado, entre outros. Sua atuação como músico de apoio em shows e gravações contribuiu para consolidar o estilo sofisticado da bossa nova e do samba-jazz.
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Tenório Jr. participou de festivais e gravações históricas, deixando sua marca em álbuns antológicos, como:
Edison Machado É Samba Novo, de Edison Machado;
Arte Maior, de Leny Andrade (com o Tenório Jr. Trio);
Desenhos, de Victor Assis Brasil;
– O Lp, de Os Cobras;
Vagamente, de Wanda Sá.
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Além das importantes participações citadas, Tenório Jr. gravou seu único disco solo, o LP instrumental “Embalo” (1964), considerado um marco no samba-jazz, no qual também foi pianista e arranjador. Em março de 1976, Tenório Jr. embarcou em uma turnê pela Argentina e Uruguai ao lado de Vinicius de Moraes, Toquinho, Mutinho e Azeitona. O grupo se apresentou em Buenos Aires, Punta del Este e Montevidéu. Após um show no Teatro Gran Rex, o pianista saiu do hotel Normandie, onde estava hospedado e nunca mais voltou. 

Texto de contracapa do LP ‘Embalo’, por Tenório Júnior
Este álbum é o resultado de uma série de sessões de gravação realizadas no Rio de Janeiro, em fevereiro e março de 64 para a RGE. É a minha primeira tentativa em disco como líder e devo esta oportunidade ao meu grande amigo Roberto Menescal, famoso violonista e compositor, que me apresentou a dois homens de larga visão na moderna música brasileira: Benil Santos e José Scatena, por intermédio dos quais a RGE me deixou à vontade para elaborar o álbum. Tudo me foi creditado, desde a escolha dos temas e arranjos até os detalhes mais técnicos, como estúdio, engenheiro de som, capa, etc. Isto contribuiu definitivamente para que eu me entregasse a diversas experiências com tipos diferentes de conjunto, tentativas minhas de arranjos, enfim, uma série de incursões num terreno que eu apenas havia tateado; é surpreendentemente diversa a atuação do músico num estúdio de gravação e numa casa noturna, pois, enquanto há a presença incentivamente do auditório e um “relax” natural do ambiente, naquele o que se vê é uma floresta de microfones que intimida o principiante à primeira vista. A realização deste disco tornou-se possível graças à colaboração dos excelentes músicos, meus amigos, que aceitaram participar das gravações. Os arranjos foram meus, com exceção do “Carnaval sem Assunto”, arranjo do autor, o contrabaixista Zézinho, e, “Embalo” e “Consolação”, arranjos do saxofonista alto Paulo Moura. O desenho da capa foi de Sérgio Roberto Ribeiro, um dos maiores artistas da nossa geração. Meu agradecimento final, muito especial, a este fabuloso engenheiro de som que é Umberto Contardi, companheiro de praia do Castelinho, cuja paciência e dedicação me serviram de orientação durante os trabalhos de gravação. Eis aqui, então, o produto de um trabalho sincero e esforçado, e o que temos para apresentar no momento.

Capa do Disco ‘Embalo’ • Tenório Jr. e Seu Conjunto • Selo RGE • 1964

Disco ‘Embalo’ • Tenório Jr. e Seu Conjunto • Selo RGE • 1964
Canções / compositores
1. Embalo (Tenório Júnior)
2. Inútil paisagem (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira)
3. Nebulosa (Tenório Júnior)
4. Samadhi (Tenório Júnior)
5. Sambinha (Bud Shank)
6. Fim de semana em Eldorado (Johnny Alf)
7. Nectar (Tenório Júnior)
8. Clouds (Durval Ferreira e Maurício Einhorn)
9. Consolação (Baden Powell e Vinicius de Moraes)
10. Estou nessa agora (Tenório Júnior)
11. Carnaval sem assunto (Zezinho Alves)
– ficha técnica –
Tenório Júnior (piano) | Sergio Barroso Netto (baixo) | José Antônio Alves (baixo) | Celso Brando (violão) | Neco (violão) | Paulo Moura (sax alto) | Meirelles (sax tenor) | Hector Costita (sax tenor) | Pedro Paulo (trompete) | Maurílio (trompete) | Édson Maciel (trombone de vara) | Raul de Souza (trombone de pistões) | Ronnie [Roberto Ronal de Mesquita]. (bateria) | Milton Banana (bateria) | Rubens Bassini (atabaque) | Arranjos: Tenório Jr. / exceto Paulo Moura (faixa 1 – Embalo e faixa 9 – Consolação); Zezinho Alves (faixa 11 – Carnaval sem assunto)  | Produção musical: Tenório Jr. | Desenho de capa: Sérgio Roberto Ribeiro| Engenheiro de som: Umberto Contardi | Gravado entre fevereiro e março de 1964, nos estúdios RGE | Selo: RGE | Cat. XRLP-5.234 | Formato: LP | Ano: 1964 | ♪Ouça o álbum: spotify / deezer / apple music / youtube.
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Reedições: LP & CD/1989 – Tenório Jr. / Embalo – Selo RGE – Cat. 320.6023 / Série ’30 Anos de Bossa Nova – vol. 9 || CD/1996 – Tenório Jr. / Embalo – Selo Bomba Records (Japão) – Cat. BOM540 || CD/2000 – Tenório Jr. / Embalo – Selo Bomba Records (Japão) – Cat. BOM 16004 || CD/2004 * Remastered – Tenório Jr. / Embalo – Selo Dubas Música & Universal Music – Cat. 325912005122 [Produtores Leonel Pereda e Ronaldo Bastos; Coordenação de produção: Edison Viana e Marcela Boechat; Remasterização: Luiz Tornaghi / Visom; Texto: Edison Viana] || CD/2006 * Remastered – Tenório Jr. / Embalo – Selo Som Livre – Cat. 0490-2 | Série RGE Clássicos || CD/2008 – Tenório Jr. / Embalo – Selo Bomba Records (Japão) – Cat. BOMLP3881 // RGE – Cat. XRLP 5.234 || CD/2016 – Tenório Jr. / Embalo – Selo Bomba Records (Japão) – Cat. BOM1114 || LP & CD /2017 – Tenório Jr. / Embalo – Selo Mr. Bongo (USA * UK) – Cat. MRBLP144.
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Sobre o disco:
CASTRO, Flávio Ribeiro de.. O triste fim (e o disco imperdível) de Tenório Jr. | In: Brazil Journal, 26 de janeiro de 2025. Disponível no link. (acessado em 14.9.2025)
RODRIGUES, Vinícius Mendes. Embalo: sobre a obra única de Tenório Jr | In: ICTUS Music Journal vol. 14 n.1, 2020. Disponível no link. (acessado em 14.9.2025) 

A nota da família de Tenório na íntegra 
“Recebemos a notícia da identificação do corpo de nosso pai com surpresa, claro, e um misto de alívio e tristeza. Alívio porque, finalmente, podemos saber com mais segurança o que aconteceu com ele naquele triste março de 1976. De alguma maneira, estaremos mais próximos. Tristeza pela confirmação de que Tenório foi vítima da violência e enterrado como um desconhecido, longe da família, dos amigos, dos parceiros de música.
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Um pianista de apenas 35 anos, respeitado em seu meio, pai de cinco filhos, que foram privados de sua convivência, obrigando nossa mãe a criar sozinha cinco crianças, de 8, 7, 5 e 4 anos, além de uma que não chegou a conhecer o pai. Nasceu um mês depois do desaparecimento. Tenório não conheceu o filho caçula nem os oito netos.
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Durante muito tempo, mesmo sabendo que era improvável, alimentamos a esperança de revê-lo. De que um dia a porta da casa se abrisse e ele entraria. O “Papú”, como o chamávamos. Com o tempo, compreendemos que não teríamos mais respostas. Que teríamos que conviver sem saber o que aconteceu de fato. É um choque saber que ele estava lá o tempo todo.
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Nesta hora, lembramos principalmente da nossa mãe, Carmen, que cuidou de nós e nos protegeu de todas as formas que uma mãe poderia fazer. Que encarou dificuldades para nos criar, enfrentou tudo, chegou a ir à Argentina, prestou depoimentos às autoridades. Que nos ensinou a ter autonomia, responsabilidade, a cuidar das nossas vidas. É o que fazemos todo dia, honrando sua memória.
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Ainda queremos e precisamos de respostas. Quem matou Tenório? Por quê? Por que matar um homem sem nenhum envolvimento político, que só vivia para a música? Durante anos ouvimos versões, histórias que agora se revelam falsas.
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Agradecemos ao EAAF por essa descoberta depois de quase meio século. É preciso que seja feita uma nova investigação. Em nome da memória que não pode se perder. Esperamos que, desta vez, as autoridades possam nos dizer o que aconteceu. A dor não irá embora nunca, mas a justiça pode trazer conforto.
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Elisa Andrea Tenório Cerqueira, Francisco Tenório Cerqueira Neto e Margarida Maria Tenório Cerqueira” [aqui também em espanhol].

Lembranças
Um carro vai pela rua,
Os barcos voltam pro cais.
Meu pensamento flutua,
Brincando, perdido em lembranças banais.
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A vida pára na esquina
Obedecendo aos sinais.
O vento embala o destino,
O sol aquece o menino e a menina,
A noite abraça os casais.
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Pedro seguiu seu caminho,
Chico pediu pra ficar.
Tenório saiu sozinho na noite:
Sumiu, ninguém soube explicar.
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Outros amigos se foram
Guardando seus ideais
Entre verdade e delírio.
Uns semearam saudade no exílio,
Outros não voltam jamais.
Mutinho / Toquinho

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Série: Discografia da Música Brasileira / Memória da música brasileira / Música instrumental / samba-jazz / Álbum.
Publicado por ©Elfi Kürten Fenske

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