Gênero que valorizou como poucos o setor instrumental, a bossa nova gerou expoentes em quase todos os instrumentos. O carioca do Engenho Novo Edison Machado (31 Janeiro 1934-15 Setembro 1990), egresso da escola das gafieiras, foi um de seus principais heróis da bateria. A ele atribui-se a criação do chamado “samba no prato” por conta de uma caixa que furou num certo baile em seu bairro em 1949, e ele continuou tocando só no prato e tambores. O macete agradou e Edison incorporou a extensão do chiado ao acento tônico da percussão, como Jimi Hendrix fez com a microfonia adicionada aos acordes da guitarra. Junto com o ruído (“minha bateria diz o que vejo e vivo, então sou barulhento”, definiu) sua performance sempre marcante era pontuada pelas caras e bocas que fazia na empolgação dos solos.
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Isso ajudou a perpetuar o mito do Edison “Maluco” que o acompanhou durante a carreira iniciada nos bailes dos subúrbios cariocas seguida por uma travessia do túnel para o Beco das Garrafas da bossa nova em Copacabana. Brilhou na área, integrando um dos melhores trios formados na época, o Bossa Três, ao lado de Luís Carlos Vinhas (piano) e Tião Netto (baixo), além do Sexteto Bossa Rio, liderado por Sérgio Mendes. Nos Estados Unidos, apresentou-se no Ed Sullivan Show, gravou inicialmente com Tom Jobim, com o Bossa Três e o acordeonista Jo Basile.
Durante a fase áurea da bossa nova Edison também formou o Rio 65 Trio, ao lado de Dom Salvador (piano, que também imigraria para os EUA) e Sérgio Barroso (baixo). O disco gravado pelo grupo em 1965 mereceu cinco estrelas do rigoroso crítico Sylvio Tulio Cardoso, o mais importante da época. No ano seguinte, o mesmo trio gravaria o otimista “A Hora e a Vez da MPM” (ambos editados pela então Philips, atual Universal, que nunca os relançou), profetizando uma longa vida para a chamada “música popular moderna”, rótulo surgido no estuário de estilos do fim da bossa nova.
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O baterista ainda liderou uma poderosa big band no LP “Edison Machado É Samba Novo” (CBS) relançado em CD pela Sony sem as informações da contracapa e com uma remixagem ruim. O discaço elencava nos arranjos e sopros nada menos que Moacir Santos, Paulo Moura, J.T. Meirelles, Pedro Paulo, Maciel e Raulzinho, o pianista Tenório Junior (“desaparecido” durante a ditadura numa excursão à Argentina) e o baixista Tião Netto. Edison, que participou da trilha sonora do filme “Terra em Transe” de Glauber Rocha com seu grupo, registraria ainda, em 1970, pelo pequeno selo Stylo, o disco “Obras”, liderando um quarteto ao lado de Ion Muniz (sax tenor e flauta), Alfredo Cardim (piano) e Ricardo dos Santos (baixo).
Carreira americana
Com o recrudescimento da ditadura local e a revoada de músicos para o exílio desfez-se o que restava da bossa nova e a vida para músicos como Edison ficou mais difícil. Ele ainda trabalhou com o cantor Agostinho dos Santos num disco e numa viagem até Caracas, Venezuela, mas em pouco tempo estava sem emprego. Uma entrevista em março de 1972 ao jornal O Globo era aberta por uma espécie de anúncio classificado: “O melhor baterista do Brasil aceita emprego em espetáculo de qualquer natureza. Ligar para 224-1151 ou procurar Edison Machado na Rua Benjamim Constant 10, quarto 107”. Ao jornalista Luis Carlos Maciel na Revista Rock (“A história e a Glória”), ele confessaria quatro anos depois ter vendido a bateria para viajar para os Estados Unidos, onde o ambiente era mais favorável aos músicos.
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Não por acaso, ele ficou 14 anos por lá. Gravou com Chet Baker e Ron Carter e seu grupo Lua Nova apresentou-se em vários festivais de jazz. Só retornaria ao Brasil em 1990. Arrebanhou um sexteto para curta temporada na boate carioca People, no Leblon integrado pelos experientes Edson Maciel (trombone), Macaé (sax tenor) e mais Paulo Roberto Oliveira (flugelhorn e cornet), Luís Alves (baixo) e Luís Paiva (piano). Edison já não utilizava mais os pedais da bateria, mas os shows foram a apoteose final de uma trajetória cintilante ceifada pela estreiteza do mercado. Ele morreria em Niterói de um enfarte fulminante, três meses depois, no dia 15 de setembro. Estrela de um instrumento geralmente reservado à cozinha ou ao segundo plano no palco, ele tinha o carisma dos ídolos. Até Jorge Ben (ainda sem o Jor), na histórica apresentação de sua “Chove Chuva” no show O Fino da Bossa, em 1965 (gravada em disco), não resistiu à locomotiva rítmica que o acompanhava no trio ao fundo e convocou: “Toca, Edison!”
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Texto de Tárik de Souza e Nana Vaz de Castro | last.fm

Disco ‘Edison Machado É Samba Novo’ • Edison Machado • Selo CBS/Sony • 1964
Músicas / compositores
1. Nanã (Coisa nº 5). (Moacir Santos e Mario Telles)
2. Só por amor (Baden Powell e Vinicius de Moraes)
3. Aboio (J. T. Meirelles)
4. Tristeza vai embora (Baden Powell e Mario Telles)
5. Miragem (Meirelles)
6. Quintessência (J. T. Meirelles)
7. Se você disser que sim (Moacir Santos e Vinicius de Moraes)
8. Coisa nº 1 (Moacir Santos e Clóvis Mello)
9. Solo (J. T. Meirelles)
10. Você (Rildo Hora e Clóvis Mello)
11. Menino travesso (Moacir Santos e Vinicius de Moraes)
– ficha técnica –
Edison Machado: Bateria; Tenório Jr.: Piano; Tião Neto (Sebastião Costa Carvalho Neto): Contrabaixo; J. T. Meirelles: Sax tenor; Paulo Moura: Sax alto; Raul de Souza: Trombone; Ed Maciel: Trombone; Pedro Paulo Siqueira: Trompete | Produção: Edison Machado | Arranjos: Moacir Santos (arranjos – fx. 1, 7, 11) | Paulo Moura (arranjos – fx. 2, 4, 8, 10) | J. T. Meirelles (arranjos – fx. 3, 5, 6, 9) | Foto de capa: Paulo Góes | Notas de contracapa: Clóvis Mello | Engenheiro de corte: William Carvalho / Polygram | Selo: CBS | Cat. 15079 | Formato: LP | Ano: 1964 | ♪Ouça o álbum: spotify / deezer / apple music / youtube.
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Outras edições: CD/2001 * remastered – Edison Machado / Edison Machado É Samba Novo – Selo: Columbia – Cat. 2-476414 [Coordenação e produção executiva: Charles Gavin; Marketing: Marcia Oliva e Marcus Fabrício; Remasterização: Ricardo Soares; Capa: Rodrigo Piza; Restauração da capa: Cilene Roso] || CD / 2008 * – Edison Machado / Edison Machado É Samba Novo – Selo Sony Music / Selo Cultura – Cat. 88697320242 | Série Coleção Cultura / Livraria Cultura [Curadoria e supervisão: Charles Gavin] || CD/2016 – Edison Machado / Edison Machado É Samba Novo – Selo: Sony Records Int’l (Japão) – Cat. SICP 4813 | Série Brasil Collection 1000 [Notas: Soeji] || LP/2017 – Edison Machado / Edison Machado É Samba Novo – Selo: Sony Music / CBS – Cat. 37337

Livro: Edison Machado é Samba Novo
Autor: Luiz Chuim de Siqueira | Edição do Autor | Biografia | Ano: 2025
Sinopse: Dedico este trabalho a todos os músicos. Aqui está a história do samba desde sua forma tradicional, inicialmente tocado nos tambores, até o uso dos pratos. Isso se transformou no moderno samba brasileiro. Assim, vamos conhecer os caminhos da nossa música. Caminhos de um ritmo que foi se desenvolvendo e se modernizando. É fundamental saber quem foi Edison Machado, pois ele foi um divisor entre o samba do morro e o samba novo. Muitas gravações mostram essa evolução, começando com os LPs Turma da Gafieira, de 1957, Edison Machado é Samba Novo, Rio 65 Trio e Obras, passando por grandes nomes, como Luiz Bonfá, Tom Jobim, Bossa Três e Sexteto Bossa Rio. Foi essa nova concepção que depois percorreu a América do Sul, Europa, Estados Unidos e Japão, desembocando nas gravações com Ron Carter, Chet Baker, Gene Bertoncini e Michael Moore. Foi assim que Edison Machado apresentou a moderna bateria brasileira para o mundo, pois nossa música pedia muito mais do que simplesmente marcar o ritmo. Ela pedia mais sabor, cores e emoção. Quando você ouve Edison Machado, ouve também o domínio de uma forma, uma maneira pessoal de conduzir, de solar. Desde a sutileza do sambalento, tocado bem baixinho, até aquela bateria que ilustra toda uma escola de samba cheia de energia, com muito movimento e vida. Mesmo para os que não o conheceram, seus discos servem como inspiração, mostrando os caminhos para quem quer mergulhar nesse rico manancial do Samba Novo | Disponível Freenote.
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Série: Discografia da Música Brasileira / Memória da música brasileira / Música instrumental / samba-jazz / Bossa funk / Álbum.
Publicado por ©Elfi Kürten Fenske


