Vladimir Kush
Acender uma vela é oferecer ao tempo um instante arrancado ao seu império, um grão de eternidade que arde e se consome. É gesto que une mãos, olhos e respiração num pacto silencioso. Quando o fósforo se risca e a chama desperta, não é apenas luz o que nasce, mas uma presença antiga, quase sagrada, que rasga o véu do cotidiano. Bachelard diria que é o fogo sonhado, o fogo que não fere a pele, mas inflama a alma, abrindo nela corredores secretos.
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A vela acesa é uma pequena coluna de altar, frágil e soberana. Sua chama dança como se soubesse do próprio destino e, ainda assim, recusa a desistir. No centro desse espaço improvisado, o pedido se entrelaça à meditação, e o pensamento se dissolve no ouro líquido do silêncio. A combustão lenta devora a cera e devolve ao ar um perfume quente, quase corporal, como se o fogo respirasse comigo.
A chama é um olho vertical que me lê por dentro. Oscila quando respiro, encolhe-se, expande-se, como se falasse uma língua antiga, esquecida, que só se entende no âmago da intuição. Há, no ato, um traço de antropologia profunda: em todas as eras e lugares, a vela é mais do que luz. É testemunha da nossa condição de criaturas que cercam o fogo para partilhar o invisível.
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Ao fitá-la, percebo que meditar é permitir que os pensamentos se movam como fagulhas ao sabor do vento. O pedido que faço não é súplica, é oferenda. Não é contrato, é semente lançada num campo ardente onde nada retorna igual. Há uma sociologia íntima nesse gesto: acender uma vela por alguém é inscrever-se na vida alheia, ser presença plena mesmo à distância.
O calor da chama me recorda que o fogo é ao mesmo tempo nascimento e fim. O filósofo francês lembraria que a chama deseja o alto, mas devora aquilo que a sustenta. E nesse paradoxo habita o mistério: pedir algo ao fogo é aceitar que toda luz é filha da perda, e que toda criação exige entrega.
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O silêncio que cresce em volta torna-se mais denso que o ar. Não é ausência, é matéria viva. O mundo se encolhe e, por instantes, existe apenas um círculo dourado rodeado de sombra. Dentro dele posso vigiar meus afetos, proteger quem amo, enviar centelhas invisíveis a destinos que não domino.
Enquanto a cera se entrega ao calor, sinto-me partícipe de um rito sem autor e sem origem, herdado de fogueiras ancestrais que espantavam monstros ou celebravam a volta da luz. A vela que queima diante de mim carrega essa memória primordial, e minha vigília diante dela é também uma vigília diante de mim mesmo.
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Quando a chama se extingue, não há fim, mas transmigração. A fumaça sobe como espírito leve, borda desenhos no ar e desaparece no invisível. O pedido permanece, silencioso, inscrito no espaço secreto onde mora o destino. E eu permaneço, atravessado pela certeza de que falar com o fogo é ouvir, no fundo, a mais antiga resposta.
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[Cabo Frio/RJ, 5 de agosto de 2025]
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* Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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