Há livros que não apenas contam uma história, mas se erguem como ruínas reanimadas, como cicatrizes que voltam a sangrar para que a vida reencontre sua respiração. No Muro Da Nossa Casa, de Ana Kiffer, é um desses livros que não se contentam em narrar. Ele inscreve no corpo da literatura a ferida da ditadura, a violência do Estado que sequestra o tempo íntimo das famílias e a brutalidade que transforma a casa em campo de guerra. No final de 1968, em Niterói, militares invadem a casa de Cléa. Ela está grávida, é mãe de dois filhos pequenos, e é arrastada para a prisão no lugar do marido, deputado cassado. A cena inaugural é a profanação da intimidade, o roubo do lar, o esgarçamento da vida doméstica. A partir desse ato de força, o silêncio passa a ser o personagem mais constante. Silêncio que não apenas cala, mas que molda, deforma e petrifica gerações.
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O romance constrói-se como um diálogo impossível entre mãe e filha. De um lado, a mãe que viveu o horror, a prisão, a humilhação. Do outro, a filha que herdou uma história interrompida, que nasceu no intervalo de uma memória amputada. O muro do título não é apenas metáfora. É presença concreta, pedra e musgo, testemunha muda das ausências que o tempo não resolveu. É também símbolo daquilo que a ditadura ergueu no coração das famílias: muros invisíveis que apartam a palavra, que proíbem a narrativa, que fazem da dor uma herança subterrânea.
A força do livro está na maneira como a escrita rasga esse muro. Não se trata de mera recordação, nem de homenagem melancólica. É gesto de insurgência. A escrita não aceita o silêncio como destino. Ela o desafia, o atravessa, o reconfigura. Na tessitura do romance, lembrança e invenção se misturam. Memória e imaginação se tornam indiscerníveis, porque só a literatura é capaz de devolver vida ao que a história oficial reduziu ao apagamento. Não é um romance histórico no sentido clássico. É antes um romance da história íntima, dos ecos que a política inscreve nos corpos, nas casas, nas genealogias invisíveis.
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O rigor sociológico do livro está na percepção de que a violência de Estado não termina quando os porões se fecham. Ela se prolonga em silêncio, em medo, em gestos interrompidos. O trauma não é individual. Ele é social, é coletivo, é estrutural. A família que silencia é a mesma sociedade que escolhe esquecer. A filha que busca a mãe ausente é também o país que busca a si mesmo no labirinto de uma memória censurada. O romance revela como a ditadura não foi apenas um período político, mas uma tecnologia de poder que atravessou subjetividades, maternidades, infâncias, gestos cotidianos.
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Politicamente, o romance é um ato de restituição. Ao narrar o que foi arrancado, ele devolve à mãe e à filha uma história que o regime tentou interditar. É a literatura assumindo a tarefa que o Estado se recusou a cumprir: a de abrir arquivos, a de permitir o luto, a de reconhecer a dor. No gesto de Kiffer, a escrita torna-se justiça possível, tribunal simbólico, espaço de redenção. É a palavra dizendo que a violência não venceu, que a ditadura não conseguiu impor o esquecimento total.
Antropologicamente, o livro nos lembra que a casa é mais do que paredes. É espaço de pertencimento, de transmissão, de afeto. Quando os militares invadem a casa, não destroem apenas um espaço físico. Desarticulam rituais, quebram laços, desorganizam a vida simbólica. O muro que sobra é resto e cicatriz. A filha, ao escrever, reinscreve novos rituais, inventa novas genealogias, cria uma nova casa no corpo do texto. O romance é, portanto, um ato de refazimento do mundo.
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A beleza do texto está em não oferecer consolo fácil. Não há redenção plena. Há rachaduras, há fraturas, há dores que permanecem. Mas há também a insistência da palavra. Cada frase soa como quem cava com as mãos nuas na terra compacta do esquecimento. Cada cena é um sopro contra a asfixia. A literatura aqui não é ornamento. É sobrevivência. É reexistência.
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A mãe e a filha encontram-se no espaço da escrita. Não é um encontro sereno, mas um confronto. Há acusações, há perguntas sem resposta, há amor e raiva entrelaçados. O diálogo que se desenrola é feito de lacunas. A cada página, o leitor percebe que mais do que preencher vazios, o romance busca habitá-los. O muro não é demolido. Ele permanece. Mas agora está coberto de palavras, fissurado por gestos de escrita, iluminado por uma chama que o tempo não apagou.

No Muro Da Nossa Casa é um livro que carrega a marca dos que se recusam a aceitar a ditadura do silêncio. É um romance que fala da ditadura militar, mas que ultrapassa o episódio histórico. Ele nos lembra que sempre haverá muros erigidos contra a palavra, sempre haverá tentativas de interditar a memória, sempre haverá forças dispostas a calar o testemunho. E que sempre haverá também a escrita como gesto de rasura, como ato de liberdade.
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A radicalidade desse livro está em sua delicadeza. Em sua recusa à espetacularização da dor. Em sua escolha por habitar o íntimo, o doméstico, o materno. É ali, no espaço que parece menor, que se revela a dimensão mais brutal do poder. É ali que a violência mostra sua capacidade de atravessar gerações. Mas é ali também que a resistência se ergue. No corpo grávido que sobrevive. Na filha que escreve. Na palavra que se recusa a calar.
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O romance de Ana Kiffer é literatura no sentido mais pleno. É memória, é sociologia, é política, é antropologia. É também poesia encarnada na prosa. Ler este livro é aceitar atravessar o silêncio e reencontrar a vida naquilo que resta. É compreender que a palavra é o único caminho possível para devolver humanidade ao que foi negado. É aceitar que só se renasce quando se escreve. E que escrever é, afinal, derrubar os muros de dentro para fora.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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