Com faixa-título dedicada a Glauber Rocha e David Lynch, o disco ‘Cangaço‘ de Bernardo Ramos, reúne sete composições, todas inéditas e coproduzidas por Sylvio Fraga. Seis delas nasceram nos dedos de Bernardo e apenas uma, “Pro Bernardo”, foi presente de Itiberê Zwarg, um de seus mestres. Por dez anos Bernardo atuou na Orquestra Itiberê e, com ela, gravou três álbuns. Esse período foi muito rico para o então jovem músico. “Sou muito grato a ele. Vivemos uma experiência tão boa! Essa música traz um lado mais subterrâneo do Itiberê que ele quase não mostra”.
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“Não que eu queira criar uma música imagética, mas se trata de correr os riscos que eles correram. Nos filmes do Lynch, por exemplo, você tem uma enxurrada de sensações, mas não necessariamente entende a trama. Como é isso na música? Onde está esse risco?”, indaga o guitarrista e compositor, que lançou ‘Cangaço‘ a bordo do seu quinteto pela gravadora Rocinante, em 2019.
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Influenciado pelas cordas mágicas de Toninho Horta, Heraldo do Monte, Egberto Gismonti, Lula Galvão, Sérgio e Odair Assad, Bernardo também se embriaga na fonte inesgotável de Hermeto Pascoal. “Hermeto é conhecido por fazer música arrojada com elementos de maracatu, frevo, baião. Esses elementos estão na minha formação e consigo percebê-los na minha música, porém, escondidos atrás de um cacto”, conta, brincando com o nome do disco. “Mas não tenho o menor interesse em produzir um som hermético. A lição mais preciosa que se tira de alguém muito criativo é a busca de um caminho próprio, e a coisa mais idiota a se fazer é imitá-lo”, avisa logo.
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De fato, “Cangaço” soa como se fosse cinema para os ouvidos. A faixa título do disco determina, junto a “De quê!?” e “Intensidades I”, uma linguagem experimental e desafiadora. Fazendo o contraste necessário, surgem duas líricas baladas: “Sem barganha” foi a faixa que ele compôs em menos tempo: apenas 25 minutos. Depois de pronta, tentou mudar uns acordes e não conseguiu, tamanha a força da sua simplicidade. “Aprendi com o Hermeto a não ter nenhum compromisso com o complicado”, ensina. “Gratidão” cairia bem em muitas películas clássicas e evoca uma valsa brasileira.
Cangaço – Bernardo Ramos
— por Sylvio Fraga —
Bernardo é um sonhador que estuda. Ele é um pensador que tem fé no instinto e no corpo. Seu processo como compositor tende a ser demorado e nos últimos tempos um Brasil despedaçado acentuou sua tendência de compor explicitamente por pedaços. Por isso nos surpreende, em meio aos contrastes, a coesão não só no interior de cada obra, mas também na relação entre elas.
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Neste disco algumas peças surgiram de métodos ligados à música serial e às infinitas possibilidades desse universo que altera radicalmente o costumeiro modus operandi da inspiração, potencializa e organiza a composição por partes; além de abrir um campo fertilíssimo para o improviso. Só as duas baladas nasceram prontas, a despeito da desconfiança do próprio compositor.
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Em meio à vocação de caliça da música dodecafônica ouço sempre o coração lírico do Bernardo, que recebeu a devida educação pela canção brasileira. Ele sabe a canção brasileira e precisa do Djavan tanto quanto precisa de Webern. Imagino as baladas como cartas de amor a Nana Caymmi, sua guitarra parece almejar uma letra que existe mas não foi escrita, característica de muitos grandes instrumentistas. E as não-baladas, os improvisos mais ossudos, guardam em seu seio a voz humana.
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Inclusive é preciso falar da formação insólita do quinteto: um guitarra trio com trombone e voz. Beth Dau (voz) e Bruno Aguilar (baixo), parceiros desde quando integravam a Itiberê Orquestra Família, se juntam ao baterista mineiro Felipe Continentino e ao trombonista capixaba Rafael Rocha. Joana Queiroz (clarineta e clarone), também antiga companheira musical de Bernardo, participa como se fosse do grupo. São artistas singulares na cena brasileira e todos improvisadores de ofício. Importante ressaltar que essa formação nasceu antes pela escolha dos artistas do que pelos instrumentos que eles tocam, mas resultou numa rara paleta de timbres.
O disco abre com Intensidades nº1 e entendemos que não se trata de jazz (velho termo problemático) nem de instrumental “brazuca”. A guitarra solo faz um preâmbulo e chama o resto do grupo – dali saem juntos pelo sertão sendo afetuosos e violentos. Não é à toa que Glauber Rocha é herói de Bernardo. Associo esta peça a uma incursão cangaceira (levando uma guitarra com a areia certa de abrasividade) aos palcos eruditos na Europa. “Intensidades” não tem um único solo de improviso: é uma peça de câmara com liberdades e linguagens populares. E vale relacionar o plural do título com o encadeamento das partes. São capítulos de uma trama com espécie de refrão, irresoluções que justapostas pela mão sabedora se resolvem. No início de Sem barganha o trio de base toca em formação de canavial, ondulando juntos ao vento do instante. É a arte preciosa de tocar aberto, muito diferente de tocar free. A melodia está no coração de todos, mas sem vir à tona.
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Aqui Bernardo, Bruno (baixo) e Felipe (bateria) investigam seu amor por Paul Motian e Masabumi Kikuchi. O tema então surge maduro e cristalino na voz e no clarone e nos leva até o improviso elegante meio apaixonado de trombone que dialoga sem medo com a tradição baladeira.
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Para fechar o lado um temos Cangaço, peça que dá título ao trabalho, na qual o Bernardo arranjador e compositor são um só, como numa parceria de letra e música. De uma trama atonal ele extrai a água mais refrescante do sertão. Creio que o ancestral mais próximo dessa obra e performance seja a “Série de arco”, de Hermeto Pascoal, com seu grupo extraordinário da década de 1980.
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Mas a obra de Bernardo respira e contrasta de outra maneira – e digere uma miríade de outros aprendizados do século XX, inclusive o próprio alagoano. É o cangaço do século XXI, Bernardo se entendendo e se desentendendo com seus heróis. O improviso do baixo merece a atenção de todos.
O lado dois abre homenageando Arrigo Barnabé, cancionista íntimo do dodecafonismo. De quê faz referência ao Arrigo gritar, quando toca “Sabor de veneno”, Sabor de quê?!, e a plateia responde: de veneno! Bernardo sempre lamenta que Elis Regina não teve tempo de cumprir o que declarava: cantar Arrigo. Nessa peça ele faz um improviso inspirado e pedregoso que de fato mora num sertão desromantizado. Voz e trombone formam um naipe de aboios. Essa é a peça que mais perambula em fragmentos e miragens, com os macacos na cola do bando, nômade e portanto sempre em casa. Pro Bernardo, composta por Itiberê Zwarg, é uma peça curta que Bernardo resgatou de partituras antigas dos tempos da Orquestra. É a única não autoral do LP, mas escrita originalmente para quinteto de baixo elétrico, Bernardo a adaptou para quatro guitarras e um baixo elétrico. Ele enxergou que essa peça brilharia, literalmente, com guitarras: os acordes aglomerados no agudo cintilam, a dissonância é acolhedora. Os overdubs têm seu lugar digníssimo.
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Gratidão parece um standard atemporal, com forma alterada sem alarde. O trombone começa o tema e parece que se transforma na voz que pega o fio da melodia e segue. Depois se entrelaçam com uma delicadeza comovente.
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Imagino uma espécie de tragédia: o som do trombone quer amar o som da voz, mas isso é impossível porque um é humano e o outro não. Ou: o trio de base é a banda de um casal que dança. Devaneios à parte, ressalto a repetição do tema na guitarra, cantado com calma e confiança no que é estritamente necessário dizer. No improviso-conversa entre guitarra e trombone, a base-conversa entre baixo e bateria merece igual destaque. Uma nova seção surge no fim e nos ensina que o sentimento de gratidão é coisa de se celebrar.
Sylvio Fraga (julho/2019)
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Disco ‘Cangaço’ • Bernardo Ramos Quinteto • Selo Rocinante • 2019
Músicas / compositores
Lado A
1. Intensidades n.1 (Bernardo Ramos)
2. Sem barganha (Bernardo Ramos)
3. Cangaço (Bernardo Ramos)
Lado B
1. De quê?! (Bernardo Ramos)
2. Pro Bernardo (Itiberê Zwarg)
3. Gratidão (Bernardo Ramos)
– ficha técnica –
Bernardo Ramos: guitarra | Beth Dau: voz | Bruno Aguilar: baixo acústico e elétrico | Rafael Rocha: trombone | Felipe Continentino: bateria | Joana Queiroz: clarineta (fx. 2 e 3) e clarone (fx. 2) | Produzido por Sylvio Fraga e Bernardo Ramos | Direção musical: Bernardo Ramos | Gravação em julho de 2018, no Estúdio Rocinante, por Duda Mello | Mistura: Duda Mello | Masterização: Greg Calbi | Produção executiva: Izabel Bellizzi e Sylvio Fraga | Capa e projeto gráfico: Mariana Avillez | Fotos: João Atala | Assessoria de imprensa: Pantim Comunicação / Dayw Vilar e Tathianna Nunes | Selo: Rocinante | Formato: LP vinil / CD Digital | Ano: 2019 | Lançamento: 7 de dezembro | ♪Ouça o álbum: clique aqui | ♩Compre o LP/vinil: clique aqui.
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Série: Discografia da Música Brasileira / Memória discográfica / Memória Musical Brasileira / MPB / Jazz / Música instrumental / Álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske
