Paulo Baía

A raiva, por Paulo Baía

A raiva é uma força bruta, pulsante, que emerge quando somos feridos, ignorados ou submetidos ao que nos nega. Em sua face vital, ela nasce da frustração legítima, da dor de quem foi silenciado, da injustiça que se tornou insuportável. Essa raiva é digna, pois denuncia o sofrimento e recusa a apatia. Ela grita onde houve apagamento, levanta onde houve humilhação. É a raiva que anuncia um limite, que exige transformação, que expõe o absurdo do que se naturalizou. Nesse sentido, é uma emoção que pode abrir caminhos de libertação, expressão e luta por um mundo mais justo.
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Mas há outra face, sombria e perigosa, que cresce na escuridão do orgulho ferido e da ânsia de controle. É a raiva que não busca justiça, mas vingança. Não nasce da dor, mas da intolerância. É essa raiva que transforma frustração em ódio, diferença em ameaça, divergência em inimigo. É ela que envenena discursos, justifica violências, convoca linchamentos — físicos, morais, simbólicos. Alimentada pelo medo e pelo autoritarismo, essa raiva não quer compreender, quer eliminar. É a mesma que levou multidões a queimar livros, perseguir minorias, invadir escolas, assassinar em nome de uma falsa ordem.

Essa raiva cega já matou em nome de Deus, da Pátria, da honra, da tradição. Já justificou genocídios, torturas, desaparecimentos. Ela se disfarça de virtude, mas é puro veneno. Quando legitimada, normaliza o ódio, esvazia o debate, sufoca a democracia. Nas redes, explode em ofensas e ameaças; nas ruas, vira agressão, tiro, sangue. É a raiva que cospe no diferente, que lincha o estranho, que sente prazer no sofrimento alheio. Uma sociedade que a cultiva escolhe o caminho do colapso afetivo e da barbárie.
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A diferença entre as duas faces da raiva é abissal. Uma é sopro de autonomia; a outra, labareda de destruição. A primeira pode se transformar em resistência ética e criativa; a segunda, em armamento emocional que destrói pontes e corpos. Ambas são intensas, mas apenas uma é humanizadora. Reconhecer essa diferença é urgente, sobretudo em tempos em que o ódio se disfarça de opinião e a violência se apresenta como justiça.

Ser livre exige não apenas sentir, mas discernir. A raiva que denuncia a opressão pode ser canalizada para a construção de novas formas de vida. Já a raiva intolerante precisa ser contida, enfrentada, desarmada. Não se pode ser cúmplice dela com o silêncio. Onde ela triunfa, há campos de extermínio simbólico e real. Ela começa em pequenas violências e termina em corpos caídos, em comunidades destruídas, em democracias corroídas.
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A raiva, portanto, é um portal. Pode nos levar à rebelião luminosa de quem já não aceita ser esmagado, ou ao abismo da desumanização de quem deseja esmagar. Cabe a cada um reconhecer a face que carrega, a origem que a alimenta e a escolha que está por trás do gesto. Porque o mundo que vamos construir depende da raiva que decidirmos transformar — ou da raiva que deixarmos nos consumir.
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[Cabo Frio/RJ, 4 de maio de 2025]
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Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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