A felicidade não costuma avisar. Não marca encontro, não deixa recado, não organiza sua chegada em linhas previsíveis. Quando se percebe, ela já passou por dentro do dia, quase sem fazer ruído, instalada num detalhe que parecia irrelevante. O cotidiano, pesado de tarefas e preocupações, costuma ocupar todos os espaços. Ainda assim, em algum intervalo, algo se abre. Um gesto mínimo, uma pausa breve, uma sensação que não pede explicação. E ali, sem cerimônia, ela acontece.
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Curioso é que não se apresenta nos momentos em que tudo parece preparado para recebê-la. Grandes celebrações frequentemente passam vazias de surpresa. O extraordinário, muitas vezes, não entrega aquilo que promete. Já o comum, esse território negligenciado, guarda pequenas rupturas. Um vento atravessa a pele, uma memória acende sem motivo claro, uma conversa leve reorganiza o ar ao redor. Não existe anúncio, apenas um sinal quase imperceptível, como se o mundo piscasse em cumplicidade.
Quando se instala, a felicidade não se organiza em palavras. Ela escapa de qualquer tentativa de tradução. O corpo entende antes do pensamento. Um calor que cresce, um silêncio que não incomoda, uma espécie de expansão que não cabe na lógica. Tudo segue como antes, os sons continuam, as tensões não desaparecem, mas algo se desloca. Por um instante, tudo encontra um eixo improvável de sentido.
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Talvez seja por isso que ela resista tanto a qualquer tentativa de captura. A vontade de prender o instante dissolve o próprio instante. Quanto mais se tenta controlar, mais ela se desfaz. Surge quando a vigilância baixa, quando a mente solta as rédeas, quando a expectativa cede lugar a uma espécie de suspensão. Não pede esforço, não responde a planejamento. Apenas atravessa.
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Existe, nesse movimento, uma espécie de lição silenciosa. Não como ensinamento formal, mas como experiência que se inscreve sem alarde. Estar disponível sem ansiedade. Permitir que o tempo não seja apenas uma sequência de tarefas. Aceitar que nem tudo precisa ser antecipado, entendido ou dominado. Viver, nesse caso, não como projeto, mas como acontecimento.
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E então vem o convite. Não anunciado, não explícito. Um chamado quase invisível para entrar nesse fluxo inesperado. Quem aceita, mesmo sem perceber que aceitou, experimenta uma leve suspensão. Como se o chão deixasse de ser tão sólido, como se o peso diminuísse por um segundo. Não se trata de fuga, mas de outra forma de presença.
No fim, talvez tudo se resolva nesse estado de leve distração. Não descuido, mas uma abertura sem exigência. Um modo de existir em que nada é cobrado e, ainda assim, tudo pode emergir. A felicidade, nesse sentido, não se apresenta como meta. Surge como centelha. Um lampejo que não se prolonga, mas que basta. E, às vezes, um único instante reorganiza o sentido inteiro de existir.
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Cabo Frio/RJ, 7 de abril de 2025
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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