Onde o outro ainda respira, por Paulo Baía

Existe um tempo em que o toque se perdeu de si mesmo.
.
Os corpos se encostam, mas não se reconhecem.
.
Os olhos se cruzam e, logo depois, recuam. Como se o encontro fosse um excesso, um risco, uma exposição indesejada. Um ruído contínuo de urgência atravessa o cotidiano, mas quase nada é, de fato, escutado. Cada pessoa se recolhe ao seu pequeno território portátil. Fones nos ouvidos. Telas nas mãos. Pressas no peito. O afeto passa a ser percebido como fragilidade. O outro se torna uma presença incômoda, uma ameaça silenciosa.
.
Chamam isso de liberdade.
.
Talvez seja apenas uma solidão organizada, bem embalada, socialmente legitimada. Um individualismo que não apenas prefere a distância, mas aprende a temer o vínculo. Um individualismo que se protege do humano como quem evita uma febre.
.
E, no entanto, existe um gesto que insiste.
.
A coragem.
.
Não a dos grandes feitos, mas aquela quase invisível. A coragem de inclinar o corpo em direção ao outro. De perguntar sem roteiro. De dizer “como você está?” e sustentar o tempo da resposta, mesmo quando ela demora, mesmo quando ela dói. A coragem de não correr quando tudo ao redor grita velocidade. De ajustar o passo ao ritmo de quem tropeça.
.
Isso não é heroísmo.
.
É humanidade reaprendida, como quem volta a plantar sementes em um solo endurecido, tentando fazer brotar alguma coisa entre o concreto das relações utilitárias.
.
Existe uma fome no mundo.
.
Fome de escuta.

Não essa escuta apressada, funcional, que organiza e devolve respostas prontas. Outra coisa. Uma escuta que se demora, que se inclina, que aceita não saber. Escutar como quem segura uma chama pequena, protegendo-a do vento. Ouvir sem se antecipar, sem transformar o outro em espelho de si. Há pessoas que não precisam de solução. Precisam de presença. E existem vínculos que nascem quando o silêncio deixa de ser ausência e passa a ser abrigo.
.
A paciência quase desapareceu.
.
Virou ruína de linguagem.
.
Paciência com o tempo do outro. Com suas voltas. Com suas repetições que denunciam feridas abertas. Com seus medos que não cabem em explicações lógicas. Vivemos rápidos demais para perceber que o amor raramente se apresenta em frases bonitas. Ele se revela em quem permanece. Em quem não se retira quando o cenário esvazia. Em quem fica mesmo quando as palavras falham.
.
Em quem espera.

A alteridade se tornou rara, quase um vestígio arqueológico de humanidade. E, ainda assim, é ela que impede a transformação completa da vida em engrenagem. Sem ela, restaria apenas eficiência e indiferença. É a alteridade que desloca o olhar para fora do espelho. Que permite reconhecer a dor que não nasceu em nós, mas que nos atravessa como um vento antigo.
.
Porque existe algo que nos liga.
.
Uma memória comum de fragilidade.
.
O sofrimento do outro não se impõe como obrigação. Ele se inscreve como reconhecimento. Como um eco.
.
Se ainda existe esperança, ela não habita os grandes discursos. Ela se esconde nos gestos mínimos, quase invisíveis. Um bom dia dito com verdade. Um olhar que não se desvia. Uma xícara de café oferecida com cuidado, como quem entrega tempo junto com o calor. Um abraço que não se apressa, que se alonga como se quisesse suspender o mundo por alguns segundos.
.
Pequenas fissuras no concreto.
.
É por essas fissuras que a luz entra.
.
A solidariedade não redesenha o mundo de imediato. Não altera estruturas inteiras em um único movimento. Mas ela transforma o instante. E, às vezes, é no instante que a vida encontra um caminho para se recompor, como quem respira depois de quase esquecer como se faz.
.
Cabo Frio/RJ, 10 de abril de 2025.
—————-

revistaprosaversoearte.com - Onde o outro ainda respira, por Paulo Baía
Paulo Baía – Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
———————
** Leia outros artigos e crônicas do autor publicados na revista. clique aqui
.
Leia também:


ACOMPANHE NOSSAS REDES

ARTIGOS RECENTES