Cantor e compositor Vidal Assis lança seu álbum de estreia pela Kuarup com canções clássicas e inéditas de Elton Medeiros em parcerias com Ronaldo Bastos, Nei Lopes e Cristovão Bastos. Disco ‘Negro Samba Lírico Vidal Assis Canta Elton Medeiros‘, que tem idealização de Hermínio Bello de Carvalho e lançamento nas plataformas digitais e em CD no mês da Consciência Negra, traz as participações especiais de Chico Buarque, Paulinho da Viola, João Bosco e Ayrton Montarroyos entre outros
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‘Negro Samba Lírico – Vidal Assis canta Elton Medeiros‘ é o segundo álbum do cantor e compositor carioca Vidal Assis (40). Neste trabalho, lançado pela gravadora e produtora Kuarup em 14 de novembro – mês da Consciência Negra, nos formatos físico e digital, Vidal canta a obra do sambista Elton Medeiros (1930-2019), compositor fundamental da música brasileira. O repertório do álbum é composto por clássicos de Elton como O Sol Nascerá (parceria de Elton e Cartola) e Onde a Dor Não Tem Razão (de Elton e Paulinho da Viola), além de sambas inéditos de Elton em parceria com Vidal, Ronaldo Bastos, Nei Lopes e Cristovão Bastos.
Ao abordar a obra de Elton, o álbum simboliza uma ode à linhagem lírica do samba, cujas melodias são sofisticadas e as letras, repletas de imagens. Essa linhagem tem uma genealogia que passa por Cartola, Elton Medeiros, Paulinho da Viola e a partir do lançamento deste álbum, Vidal Assis, que, ao tornar-se amigo e parceiro de Elton em sua última década de vida, aprendeu de perto os princípios dessa vertente elegante do samba. Sobre isso, afirma Vidal no texto de contracapa do álbum: “Considero que o samba é uma das nossas maiores revoluções culturais, por se tratar de um gênero desenvolvido por negros(as) descendentes de africanos(as) escravizados(as) e que, mesmo sendo historicamente perseguido, resistiu e encanta o mundo até os dias de hoje. E há uma linhagem do samba que se debruça na janela da poesia e esculpe no vento melodias com o cinzel da emoção. Eu atribuí a essa linhagem o nome samba lírico, o qual é abordado por este álbum através de um olhar sobre a obra de um dos seus mais fiéis representantes: Elton Medeiros.”
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O álbum conta com as participações de Ayrton Montarroyos (em Mais Feliz, de Elton, Carlinhos Vergueiro e Paulo César Feital), Beatriz Rabello (em Iluminada, de Elton e Vidal Assis), Chico Buarque (em Mascarada, de Elton e Zé Keti), Cristovão Bastos (em Baile dos Amores, de Elton, Cristovão e Vidal Assis), João Bosco (em Pressentimento, de Elton e Hermínio Bello de Carvalho) e Paulinho da Viola (em Folhas no Ar, também de Elton e Hermínio). A base instrumental do álbum ficou por conta dos excelentes músicos do Trio Julio – Marlon Julio (violão de 7 cordas), Maycon Julio (bandolim e cavaquinho) e Magno Julio (percussões gerais), à exceção da faixa Baile dos Amores, interpretada pelos parceiros Vidal (voz) e Cristovão (piano).
Além das canções e das participações supracitadas, Vidal passeia por outros clássicos de Elton, como sua parceria com Paulinho da Viola, Moemá Morenou, cujo arranjo, feito a oito mãos por Vidal e o Trio Júlio – visita a estética do samba de roda do Recôncavo Baiano, na medida em que traz elementos como o prato e o violão ponteado que é típico do samba-chula, variedade do samba emblemática da cidade de Santo Amaro da Purificação, terra natal e formadora de artistas como Roberto Mendes, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Outro clássico de Elton que merece destaque no álbum é o samba Maioria Sem Nenhum, que expõe a temática da desigualdade social. Composto por Elton e Mauro Duarte, este samba foi lançado originalmente por Elton em 1966, no LP Samba na Madrugada, disco gravado em dupla com Paulinho da Viola. A gravação de Vidal conta com duas novidades: as participações de Marcia e Eliane Duarte (filhas do coautor Mauro Duarte) nos coros, e a declamação do poema inédito “Como eu quero ser lembrado” (Vidal Assis), que traz à faixa ares da música urbana declamada, como o rap e o hip-hop. Esse poema traz em seus versos aspectos de uma desigualdade que é tão antiga quanto atual, os quais podem ser encontrados no trecho a seguir, que encerra o poema: “Defendo a lógica da ação afirmativa / A taxação real dos super-abastados / E o fim da escala 6 x 1 tão exaustiva / Um negro que não se esquiva / É assim que eu quero ser lembrado.”
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Das faixas inéditas do álbum, todas têm coautoria de Vidal Assis. Mais especificamente, Um Amor Singular nasceu de uma melodia de Elton e Vidal com letra de Ronaldo Bastos – importante letrista da MPB, comumente ligado ao movimento musical Clube da Esquina. Colhendo Imagens, composição de Elton e Vidal, é um samba de amor que aborda sutilmente o tema da perda da visão, que acometeu Elton em seus últimos anos de vida, como mostram os versos a seguir: “Mas é na noite também que ainda choro por ela / Dissolvendo as imagens que um dia eu guardei no olhar / E assim faço as tintas da dor / E meu peito é a tela / Onde insisto em traçar / O perfil da saudade e o desejo de vê-la voltar”.
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Ainda sobre as canções inéditas, Baile dos Amores surgiu de uma delicada melodia de Elton e Cristovão letrada por Vidal, e versa sobre o paradoxo que há entre o arrebatamento e a fragilidade do amor. Iluminada, que conta com a participação especial de Beatriz Rabello, é um samba-choro de Elton e Vidal, cuja letra reverencia dois artistas pouco conhecidos do grande público, mas fundamentais na construção dos pilares da música brasileira: o compositor Valzinho (1914–1980) – que foi um dos grandes precursores da Bossa Nova, e a cantora Zezé Gonzaga (1926–2008) – uma das grandes intérpretes da Era do Rádio. Valzinho também foi reverenciado por Paulinho da Viola na canção Cidade Submersa, do disco Nervos de Aço, de 1973. Já Navegações, resultante de melodia de Elton e Vidal letrada pelo compositor e escritor Nei Lopes, é um samba-canção que leva o ouvinte a refletir sobre a necessidade de um pensamento decolonial sobre o Brasil. Num momento em que se discute a soberania nacional, esse tema segue necessário para a construção de um país mais autônomo e justo.
Negro Samba Lírico também é um nome político, na medida em que propõe a desconstrução da noção hegemônica de lirismo – o caráter subjetivo e romântico da arte – como um caráter artístico eurocentrado. A arte negra, ao mesmo tempo em que é engajada a urgentes demandas sócio-históricas, também pode (e deve) ser delicada, romântica e sofisticada. Em outras palavras, esse álbum colabora para a construção de um conjunto de valores que humanizam o povo negro, de modo que este seja visto e ouvido não apenas quando se dança com destreza ou se denuncia injustiças, mas também quando fala de carinho, cuidado, afeição. Em consonância ao aspecto político do conceito de Negro samba lírico, a faixa Mascarada (participação de Chico Buarque) vem acompanhada de um videoclipe que conta com a participação da Deputada Federal do PSOL Talíria Petrone. As trajetórias de Vidal e Talíria se cruzam por ambos serem professores com ampla trajetória de atuação nos movimentos sociais voltados à Educação. Sobre a participação de Talíria no videoclipe de Mascarada, Vidal discorre: “Ouvindo a música e pensando que o Chico e eu temos um posicionamento bem nítido em relação aos valores comunitários e à trincheira política à qual pertencemos, pensei em convidar a Talíria, que, além ser politicamente posicionada como nós dois, é uma mulher negra e, como eu, professora com uma trajetória marcada pelos movimentos sociais, o que faz com que a participação dela também transmita a ideia de que quem luta por ideais coletivos também pode (e deve) falar de amor. Em suma, o videoclipe de ‘Mascarada’ propõe uma ótica mais humanizada sobre a mulher negra e o homem negro.”
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Além de cantor e compositor, Vidal Assis também é mestre e doutor em Educação pela UFRJ, e, alicerçado em autoras e autores como Grada Kilomba, Frantz Fanon, Carla Akotirene e Djamila Ribeiro, suas pesquisas abordam o processo de construção das subjetividades de pessoas negras, apontando, como principal estratégia de combate ao racismo sistêmico, o acesso a memórias nas quais outras pessoas negras estão presentes como inspiração ou referência de aspectos positivos como o carinho, a lealdade e o trabalho. E é justamente ocupando este lugar de referência e inspiração que Elton Medeiros está na memória afetiva de Vidal Assis: “Elton é um compositor que me inspirou em vida, e, hoje, sua obra me inspira todos os dias a ser um artista melhor. Por isso, ao cantar as músicas desse álbum, a bem da verdade, estou cantando o repertório da minha vida”.

Disco ‘Negro Samba Lírico Vidal Assis Canta Elton Medeiros’ • Vidal Assis • Selo Kuarup Música • 2025
Canções / compositores
1. Onde a dor não tem razão (Elton Medeiros e Paulinho da Viola)
2. Mascarada (Elton Medeiros e Zé Keti) | feat Chico Buarque
3. Peito vazio (Elton Medeiros e Cartola)
4. Pressentimento (Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho) | Feat. João Bosco
5. Folhas no ar (Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho) | Feat. Paulinho da Viola
6. Um amor singular (Elton Medeiros, Vidal Assis e Ronaldo Bastos)
7. Moemá morenou (Elton Medeiros e Paulinho da Viola)
8. Maioria sem nenhum (Elton Medeiros e Mauro Duarte) / – Citação: Poema “Como eu quero ser lembrado”, de Vidal Assis)
9. Colhendo imagens (Elton Medeiros e Vidal Assis)
10. Mais feliz (Elton Medeiros, Carlinhos Vergueiro e Paulo César Feital) | Feat. Ayrton Montarroyos
11. Baile dos amores (Elton Medeiros, Cristovão Bastos e Vidal Assis) | Feat. Cristovão Bastos
12. Iluminada (Elton Medeiros e Vidal Assis) | Feat. Beatriz Rabello
13. Navegações (Elton Medeiros, Vidal Assis e Nei Lopes)
14. O sol nascerá (Elton Medeiros e Cartola)
– ficha técnica –
Faixa 1 – Vidal Assis: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Bandolim e cavaquinho; Magno Julio: Pandeiro; Munique Mattos: Coro; Bee Campos: Coro | Faixa 2 – Vidal Assis: Voz; Chico Buarque: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas | Faixa 3 – Vidal Assis: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Bandolim; Magno Julio: Ganzá e pandeiro | Faixa 4 – Vidal Assis: Voz; João Bosco: Voz e violão de 6 cordas | Faixa 5 – Vidal Assis: Voz; Paulinho da Viola: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Bandolim; Magno Julio: Ganzá e tamborim | Faixa 6 – Vidal Assis: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Magno Julio: Ganzá e tamborim | Faixa 7 – Vidal Assis: Voz e palmas; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Bandolim e cavaquinho; Magno Julio: Agogô, congas, pandeiro, prato, reco-reco; Munique Mattos: Coro e palmas; Bee Campos: Coro e palmas | Faixa 8 – Vidal Assis: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Cavaquinho; Magno Julio: Agogô, cuíca, ganzá, pandeiro, reco-reco, repique de anel, surdo e tamborim;Munique Mattos: Coro; Bee Campos: Coro; Eliane Duarte: Coro; Márcia Duarte: Coro; Poema: ‘Como eu quero ser lembrado’ (Vidal Assis) | Faixa 9 – Vidal Assis: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Cavaquinho; Magno Julio: Ganzá e tamborim | Faixa 10 – Vidal Assis: Voz; Ayrton Montarroyos: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Bandolim; Magno Julio: Ganzá | Faixa 11 – Voz: Vidal Assis; Piano: Cristovão Bastos | Faixa 12 – Vidal Assis: Voz; Beatriz Rabello: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Bandolim e cavaquinho; Magno Julio: Ganzá e pandeiro | Faixa 13 – Vidal Assis: Voz e violão de 6 cordas; Flávia Chagas: Violoncelo | Faixa 14 – Vidal Assis: Voz; Marlon Julio: Violão de 7 cordas; Maycon Julio: Cavaquinho; Magno Julio: Pandeiro e tamborim; Munique Mattos: Coro; Bee Campos: Coro || Idealização: Vidal Assis e Hermínio Bello de Carvalho | Produção: Gravadora Kuarup e Vidal Assis | Gravado no estúdio Visom Digital / RJ | Gravação, mixagem e masterização: Rodrigo Gavião | Fotografia: Diego Lima | Vídeos – Direção, câmera e edição: Matheus Noronha | Assessoria de imprensa: Rodolfo Zanke / Kuarup Música | Selo: Kuarup Música | Formato: CD físico/ digital | Ano: 2025 | Lançamento: 14 de novembro | ♪Ouça o álbum: clique aqui.

EIS, ÀS LETRAS:
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1. ONDE A DOR NÃO TEM RAZÃO
(Elton Medeiros / Paulinho da Viola)
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Canto
Pra dizer que no meu coração
Já não mais se agitam as ondas de uma paixão
Ele não é mais abrigo de amores perdidos
É um lago mais tranquilo
Onde a dor não tem razão
Nele a semente de um novo amor nasceu
Livre de todo o rancor, em flor se abriu
Venho reabrir as janelas da vida
E cantar como jamais cantei
Esta felicidade ainda
Quem esperou, como eu, por um novo carinho
E viveu tão sozinho
Tem que agradecer
Quando consegue do peito tirar um espinho
É que a velha esperança
Já não pode morrer
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2. MASCARADA
(Elton Medeiros / Zé Keti)
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Vejo agora esse teu lindo olhar
Olhar que eu sonhei
Que sonhei conquistar
E que um dia afinal conquistei, enfim
Findou-se o carnaval
E só nos carnavais
Encontrava-te sem
Encontrar esse teu lindo olhar, porque
Um poeta era eu
Cujas rimas eram compostas
Na esperança de que
Tirasses essa máscara
Que sempre me fez mal
Mal que findou só
Depois do carnaval
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3. PEITO VAZIO
(Elton Medeiros / Cartola)
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Nada consigo fazer
Quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta
Um vazio se faz em meu peito
E de fato eu sinto
Em meu peito um vazio
Me faltando as tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio.
Procuro afogar no álcool
A tua lembrança
Mas noto que é ridícula
A minha vingança
Vou seguir os conselhos de amigos
E garanto que não beberei nunca mais
E com o tempo
Essa imensa saudade que sinto
Se esvai
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4. PRESSENTIMENTO
(Elton Medeiros / Hermínio Bello de carvalho)
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Ai, ardido peito
Quem irá entender o seu segredo
Quem irá pousar em teu destino
E depois morrer de teu amor?
Ai, mas quem virá?
Me pergunto a toda hora
E a resposta é o silêncio
Que atravessa a madrugada
Vem meu novo amor
Vou deixar a casa aberta
Já escuto os teus passos
Procurando o meu abrigo
Vem que o sol raiou
Os jardins estão florindo
Tudo faz pressentimento
Que este é o tempo ansiado
De se ter felicidade
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5. FOLHAS NO AR
(Elton Medeiros / Hermínio Bello de carvalho)
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Vou buscar aquilo que foi meu
E que no mundo se perdeu
Qual folhas que o vento soltou no ar
Ter a mesma paz de antigamente
Sair cantando por cantar
Qualquer canção sob qualquer luar
Vou buscar aquele amor tão meu
Sair andando a perguntar
Qual o caminho por onde ele foi
E por onde for irei também
Até o coração achar
Que simplesmente não achou
E aí então vou entender
Que ao buscar eu me perdi
De tudo aquilo que eu sou.
— ♪ —
6. UM AMOR SINGULAR
(Elton Medeiros / Vidal Assis / Ronaldo Bastos)
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Tudo que eu quero é viver com você ao meu lado
Enquanto a brasa arder eu nem tenho passado
Cada minuto é um sol queimando sem nos queimar
O infinito caminho de um amor singular
Cada canção de Noel que a gente aprende a cantar
É tudo que eu sonhei lhe dar
Sonho que a vida dê trégua pra quem precisa seguir
Nesse mundo de mágoas que está rolando lá fora
Senhora das águas, nos abençoe com seu amor
E nos guarde de todo mal
Nos caminhos por onde eu vou
Melodia que paira no ar
Para cantar com meu amor
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7. MOEMÁ MORENOU
(Elton Medeiros e Paulinho da Viola)
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Moema morenou
A água do mar quem molhou
O sol da Bahia te queimou
Teu corpo, morena, morenou
Num samba de roda, a morena faceira
Mexeu as cadeiras, foi um desacato
Tirou o sapato, dançou miudinho
E quase que mata um pobre mulato
Moema morenou
A água do mar quem molhou
O sol da Bahia te queimou
Teu corpo, morena, morenou
Eu fui à Bahia, paguei a promessa
Estava com pressa, queria voltar
Mas uma morena, num samba de roda
Me deu uma volta que me fez ficar
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8. MAIORIA SEM NENHUM
(Elton Medeiros / Mauro Duarte – Citação: Poema “Como eu quero ser lembrado”, de Vidal Assis)
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Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum
Essa história de falar em só fazer o bem
Não convence quando o efeito não vem
Porque somente as palavras não dão solução
Aos problemas de quem vive em tamanha aflição
Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum
A maioria que é chamada minoria
(Uma estratégia a mais pra nos enfraquecer)
É quem se acaba indo e vindo todo dia
Pra manter a mais-valia
Pro sistema enriquecer.
A maioria que recebe anestesia
Da internet, dos jornais e da TV
E que, apesar de tudo, tem sabedoria
Pra viver com alegria
Insistindo em não morrer.
A maioria não encontra a porta aberta
E sua pele escura é criminalizada
Porém, um verso é sempre a lâmina mais certa
Pra deixar o povo alerta
E a alta-roda inconformada.
A mão que escreve também é a que liberta
Quando escancara a dor que é silenciada
De quem é o alvo onde o tiro sempre acerta
Enquanto a máquina acoberta
Pra no fim não dar em nada.
Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum.
Há muita gente neste mundo estendendo a mão
Implorando uma migalha de pão
Eis um conselho pra quem vive por aí a esbanjar
Dividir para todo mundo melhorar
Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum.
Já foi-se o tempo de pensar que elegância
É um tal estilo eurocêntrico de ser
Raiz colonial que cheira à intolerância
Mesmo sem haver distância:
Rico e pobre vão morrer.
Se eu tô aqui, é pra quebrar essa arrogância
Afro-elegante, sangue ubuntu, pode crer
Sou candeeiro negro em plena vigilância
Pra mostrar nossa importância
Pra brindar nosso poder.
Sou parte de uma juventude-voz-ativa
Que estuda as grades de um elitismo conservado
Peço atenção pra voz que vive a narrativa
Não de forma ostensiva
Mas pra lutar do seu lado.
Defendo a lógica da ação afirmativa
A taxação real dos super-abastados
E o fim da escala 6 x 1 tão exaustiva
“Um negro que não se esquiva”
É assim que eu quero ser lembrado.
Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum
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9. COLHENDO IMAGENS
(Elton Medeiros / Vidal Assis)
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Bom é andar de madrugada
Colhendo as imagens que brotam das calçadas
Um chope, um vinho, um licor
Se misturando ao luar, devagar
E a gota de prata na flor
Anunciando a alvorada
E não demora a cantar
A passarada
Se unindo à voz rouca que tem cada fundo de bar
E já bem perto das seis
Enquanto vejo um clarão despontar
Volto pra casa com a alma outra vez
Revigorada
Mas é na noite também que ainda choro por ela
Dissolvendo as imagens que um dia eu guardei no olhar
E assim faço as tintas da dor
E o meu peito é a tela
Onde insisto em traçar
O perfil da saudade e o desejo de vê-la voltar
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10. MAIS FELIZ
(Elton Medeiros / Paulo César Feital / Carlinhos Vergueiro)
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O sol vestiu terno de linho e chapéu panamá
E brilhou bem mais feliz
Quando Leila Diniz foi cabocla de Iemanjá
Clara manhã do país, que rompia os brasis feito Ogum-beira-mar
Na boca da noite de Elis, uma luz vadiava
Francisco não era de Assis, mas criava seus sabiás
E o Tom Brasileiro pra mim era som pra Jobim cantar
Poeta tinha moral, e o povo tinha Moraes
E outros tanto plurais
Esperança de paz tão singular
A lua bebeu Moet Chandon num motel do Joá
E brilhou bem mais feliz
Quando era uma glória
Darlene escandalizar
Reinava a Oxum mais bonita
A Mãe Menininha do meu Gantois
Enquanto a divina Elizeth nos enluarava
Valente é que era de Assis, e cantava pra não chorar
As rosas falavam e Cartola fingia não escutar
Era alegria e paixão
E o povo tinha Drummonds
O poeta e o barão
E o leão era só mais um milhar
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11. BAILE DOS AMORES
(Cristovão Bastos / Elton Medeiros / Vidal Assis)
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É, já sei
Não tem mais jeito o nosso amor
Não há lei
Que reviva o que passou
Que refaça o cobertor do sentimento
Quando a indiferença dá sinais
Transformando o amor atento
Numa solidão a mais
O amor guarda o mistério dos rubis
Reacende o castiçal
Muda os ares de um país
Porém, se o amor de um lado é carnaval
De outro, é por um triz.
Fica de nós dois o que foi bom
Cora, Vinícius e Drummond
Cada carinho à meia-luz
Sei que amar é igual dançar
Mesmo que se troque o par
Vamos rodar
E essa dança é o amor que conduz
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12. ILUMINADA
(Elton Medeiros / Vidal Assis)
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O nosso amor
Foi bem mais que uma simples quimera
Por isso agora estou aqui
Pra confessar que meu beijo ainda hoje te espera
Como um barco encostado no cais
Ao sabor de cruéis temporais
Mas guardando no fundo a esperança
De ver nossa estória voltar ao que era
As tuas mãos
Entre as minhas, meu Deus!, quem me dera
Meu rosto, sem querer, sorri
Quantas canções eu compus
Mas nenhuma traduz
O tormento que já sofri
Porém meu pranto secou
Meu inverno findou
Hoje é primavera
E o desejo é uma flor
Que a saudade plantou
E eu colhi
Sempre que arpejo meu pinho
Relembro o carinho
Que havia no teu olhar
E minha voz
Cá entre nós
Insiste em dizer que só quer te encontrar
Ouço Zezé e Valzinho
E a taça de vinho
Parece me convidar
A pensar que o destino é um rodamoinho
Capaz de fazer voltar
O luar que transborda em teus olhos
Pra que eu possa me iluminar
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13. NAVEGAÇÕES
(Elton Medeiros / Vidal Assis / Nei Lopes)
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Eu, um país dividido
A se desmantelar no ar
Ou um navio perdido
Nas ondas de um mar vulgar
Mas logo o vento virou
A tormenta passou
E o sol anunciou
Uma nova estação
Com a pureza e o frescor
Deste samba-canção.
As grandes navegações
Semearam nações
Mas eu tenho outro olhar:
Se já se tem o que tem
Muito mais do que um bem
Pra quê mais procurar?
É insensato buscar
A estrela polar
No imenso vazio
Quando já temos por nós
A voz que nos lençois
Nos protege do frio.
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14. O SOL NASCERÁ
(Elton Medeiros / Cartola)
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A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida
Finda a tempestade
O sol nascerá
Finda esta saudade
Hei de ter outro alguém para amar
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Sobre Vidal Assis
Vidal Assis é cantor e compositor carioca da nova geração da música brasileira, compondo sozinho e com uma gama de parceiros musicais como Hermínio Bello de Carvalho, Nei Lopes, Ronaldo Bastos, Elton Medeiros, Paulo César Feital, dentre outros. O samba é sua grande matriz musical, a qual lhe deu régua e compasso para a criação de canções de outros gêneros. E desde 2006, suas canções vêm sendo gravadas por nomes como Teca Calazans, Áurea Martins, Zezé Gonzaga, Fabiana Cozza e Moyseis Marques. Integrou o elenco do musical Clementina, Cadê Você? (desde 2013) e foi integrante dos espetáculos Elizethíssima- Uma Sincera Homenagem a Elizeth Cardoso, com Alaíde Costa, Áurea Martins e Hermínio Bello de Carvalho (2014) e Hermínio 80 anos – Uma Rosa Para o Poeta (2016), se apresentando nas cidades do Rio de Janeiro, Curitiba, Vitória, Belo Horizonte, Campinas e São José do Rio Preto. Em 2016, lançou seu disco de estreia, Álbum de Retratos, formado por composições em parceria com Hermínio Bello de Carvalho e participações de Zélia Duncan, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho e Áurea Martins. Vidal Assis obteve, em 2017, duas indicações do 28º Prêmio da Música Brasileira: o de artista revelação e melhor cantor de MPB. Entre seus projetos, destaca-se o show Vidal Assis celebra Emílio Santiago, ocorrido em janeiro de 2024 no Sesc Pompeia, em São Paulo. Em novembro de 2025, Vidal lança, pela gravadora Kuarup, o álbum Negro Samba Lírico – Vidal Assis canta Elton Medeiros, com as participações de nomes como Chico Buarque, João Bosco, Paulinho da Viola e Ayrton Montarroyos entre outros convidados.
Sobre a Kuarup
Especializada em música brasileira de alta qualidade, o seu acervo concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros.
> Siga: @vidal.assis / @kuarupprodutora
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Série: Discografia da Música Brasileira / MPB / Canção / Álbum
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske


