LITERATURA

A valsa de Perséfone – Carlos Walker

Áustria. Março, 1998. Uma valsa desorquestrada de nuvens conturba o céu de Strauss.

Natascha- Perséfone, 10 anos, saiu para ir à escola e não mais voltou. No trecho do caminho, num brusco braço de segundos, Wolfgang- Hades, 36 anos, a puxou para dentro de seu furgão e rodopiando-a raptou Natascha e sua infância, jogando-a numa pequena cela, construída embaixo da garagem de sua casa.

O sequestro de uma infância simboliza o tempo, na velocidade vertiginosa da noite, despencando em redemoinho pelos degraus de uma imensa e infinita escadaria. Um rosto jogado num poço. Com os olhos mudos de medo no fundo do escuro.

Naquele dia, a menina Natascha, antes de sair de sua casa, teve uma briga com a mãe; tinha pensado em atravessar para o outro lado da rua, quando viu aquele homem à sua frente, mas infelizmente não o fez.

Persefone

“Onde estou? Por que algo em mim extraviou-me, trazendo-me até aqui? Homem sem nome, quem és? E que com gestos de silencio, perdido elo entre a morte e o desejo, me observas tão atônita, no labirinto deste absurdo abandono?” pergunta Natascha em meu pensamento.

Policiais, psicólogos e especialistas estão procurando respostas e não as acham. Como uma menina, durante 8 anos, foi obrigada a crescer dentro de uma cela subterrânea sob o controle de um estranho psicopata? – “Eu sou o seu amo. O homem e o pai, que sua mãe te ocultou deste insano desejo, fazendo nascer de sua pureza com a minha loucura, a estranha aliança dos nossos destinos. Sou um deus do amor, perigoso e oculto, que em forma de encantamento te encerra no meu mundo subterrâneo”, responde Wolfgang na minha mente.
Caminhos coincidem em precisos desencontros, ora passando os portões da vida, ora contornando o trevo magnífico da morte.

Nos últimos tempos, este homem, que agora queria que em vez de “amo” sua prisioneira o chamasse de Wolfgang, parecia sentir-se mais seguro. Já mandava sua escrava trabalhar no jardim e a levava para fazer compras.

Recentemente, enquanto Wolfgang foi dar um telefonema, Natascha disparou como um raio; pulou a cerca-viva, abrindo uma pista para a liberdade. Wolfgang não foi atrás de sua Perséfone. Naquela mesma noite ele se atirou nos trilhos da estação ferroviária para que as rodas de ferro do trem desorquestrassem os seus ossos.

Quando soube de seu suicídio, Natascha chorou. Na época do sumiço de Natascha, um telefonema anônimo apontava Wolfgang como possível suspeito. Policiais vasculharam o furgão dele mas nada foi encontrado. As autoridades austríacas tentam respostas plausíveis, buscando razões para a falha completa da polícia durante todos esses anos.

Hoje, uma mulher de 29 anos, 1.60 de altura, com vincos no rosto e acima agora de seu peso. Natascha ainda procura a sua infância roubada, perdida nas imediações de sua própria cidade.

Num certo dia onde a estrela da hora transita e a sombra de sua luz nos envolve, levando para sempre o último aroma da infância, quem sabe haverá uma surpresa…

Numa discreta casa, na curva de um caminho, com jardim e cercas-vivas e aquela janela, que nos olha sempre de lado, Natascha abrirá enfim as persianas. Uma fresta de luz desfará com seu feixe o terrível pacto do tempo com a perfídia de seu próprio destino e sua consciência se revelará, abrindo veredas.

E Natascha-Perséfone romperá a malha do medo invisível. Aos seus ouvidos ventará, entre nuvens e sol, uma límpida e insólita valsa de Strauss pelo vasto céu da Áustria.

***

* Carlos Walker, ou simplesmente Wauke. Músico, Escritor e Astrólogo há 40 anos. Carlos Walker começa a cantar em 1969 através de Festivais no Brasil. Têm livros publicados e discos gravados.

Outros textos do autor neste site:
Conheça mais sobre Carlos Walker:
Revista Prosa Verso e Arte

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