Chiquinha Gonzaga, pianista e compositora - 1/1/1932 (Foto/Dedoc- Veja)
O artigo “Chiquinha Gonzaga: um legado que atravessa o tempo”, assinado por Maristela Rocha, é mais do que um exercício de memória cultural. É um gesto de escuta. Uma escuta atenta às camadas do tempo, às dobras da história social brasileira e à presença feminina que, tantas vezes, a historiografia tratou como ruído. Maristela escreve como quem sabe que o passado não é um lugar encerrado, mas um campo vivo de disputas simbólicas, afetivas e políticas, onde o presente continua a se reconhecer.
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A leitura que propõe sobre Chiquinha Gonzaga se afasta das celebrações fáceis e das biografias domesticadas. Não se trata apenas de exaltar a genialidade musical ou o pioneirismo isolado. O texto compreende Chiquinha como sujeito histórico inteiro. Mulher, artista, trabalhadora da cultura, intelectual prática e figura pública que enfrentou, com elegância e coragem, um mundo organizado para silenciar mulheres e desqualificar a cultura negra urbana que pulsava nas ruas do Rio de Janeiro entre o fim do século XIX e o início do século XX.
A sensibilidade de Maristela Rocha está em perceber que a obra de Chiquinha não pode ser separada de sua vida. Há uma coerência rara entre existência e criação. A autonomia pessoal de Chiquinha, sua recusa às tutelas do casamento, sua decisão de viver da música e de ocupar o espaço público aparecem no artigo como parte de uma ética. Uma ética da liberdade feminina em uma sociedade marcada por códigos morais rígidos, racismo estrutural e hierarquias de gênero naturalizadas, onde mulheres eram toleradas apenas quando permaneciam invisíveis.
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Maristela escreve com o cuidado de quem conhece o peso das estruturas sociais, mas também com a delicadeza de quem reconhece os gestos cotidianos de resistência. Ao tratar da produção musical de Chiquinha, do teatro musicado, das marchas carnavalescas e da incorporação de ritmos afro-brasileiros, o artigo revela como escolhas estéticas eram também escolhas políticas. Em um ambiente dominado por elites masculinas e brancas, legitimar o maxixe, o lundu e a música popular urbana era afirmar outro projeto de Brasil, mestiço, popular e insurgente.
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Há no texto uma leitura sociológica refinada do carnaval como espaço de permanência simbólica. A música de Chiquinha segue viva porque dialoga com o corpo, com a rua, com a festa e com a irreverência que sempre foram territórios de disputa cultural no país. Maristela mostra que essa permanência não é fruto do acaso. Ela resulta de uma obra que se enraizou na experiência popular e de uma mulher que compreendeu a cultura como campo de luta, circulação e reconhecimento.
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O currículo de Maristela Rocha ajuda a entender a qualidade desse olhar. Doutora em Ciências Sociais, mestre em Comunicação e Cultura e também em Música, com formação em Sociologia, Música e Arte, sua trajetória acadêmica lhe permite transitar com rigor entre análise histórica, leitura cultural e sensibilidade estética. Essa formação múltipla não aparece como erudição exibida, mas como ferramenta a serviço de uma escrita clara, generosa e comprometida com a justiça histórica e simbólica.
Mas há algo mais que atravessa o texto e que só quem conhece Maristela de perto reconhece com nitidez. Ela escreve com paixão. Uma paixão assumida, vibrante, quase corporal. Ler seu artigo é perceber que cada parágrafo carrega uma energia que não é apenas acadêmica. Há ali uma alegria contida, uma emoção disciplinada pelo método, mas nunca anulada por ele. Maristela escreve sobre Chiquinha Gonzaga como quem vê um lance decisivo, como quem acompanha a jogada desde o meio de campo e, no instante final, solta o grito contido. É uma paixão flamenguista, dessas que transformam um gol em acontecimento histórico. Chiquinha, no texto de Maristela, é esse gol. Um gol bonito, coletivo, improvável e inesquecível.
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Essa paixão não compromete o rigor. Ao contrário. Ela o humaniza. O artigo demonstra que é possível produzir conhecimento com afeto, sem abrir mão da análise crítica. A trajetória de Chiquinha Gonzaga aparece, então, como uma vitória arrancada em campo adverso. Uma mulher enfrentando o machismo estrutural, o racismo contra a cultura afro-brasileira, a desqualificação moral das mulheres autônomas, e ainda assim deixando sua marca no imaginário nacional.
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O texto também recoloca Chiquinha Gonzaga no centro do debate sobre o papel das mulheres na formação do espaço público brasileiro no início do século XX. Ao lembrar seu engajamento abolicionista e sua atuação na defesa dos direitos autorais, Maristela evidencia uma mulher que compreendia a política não apenas como discurso, mas como prática cotidiana. Criar, para Chiquinha, era também organizar, disputar, proteger e transformar.
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Esta resenha é, antes de tudo, uma mensagem de reconhecimento. O artigo de Maristela Rocha honra Chiquinha Gonzaga porque se recusa a reduzi-la. Ao mesmo tempo, honra a escrita acadêmica ao demonstrar que rigor e beleza não são opostos. Que a sociologia e a antropologia podem dialogar com a literatura sem perder densidade analítica. Que a história das mulheres no Brasil exige não apenas dados, mas escuta, sensibilidade e coragem interpretativa.
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Ao atravessar o tempo com Chiquinha Gonzaga, Maristela Rocha nos convida a atravessar também nossas próprias certezas sobre cultura, gênero e poder. Seu artigo não apenas informa. Ele provoca, emociona e amplia o horizonte do que entendemos por legado. Como um gol decisivo, desses que ficam na memória coletiva, ele segue sendo comemorado muito depois do apito final.
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*Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor aposentado do Departamento de Sociologia da UFRJ. Suburbano de Marechal Hermes, é torcedor apaixonado do Flamengo e portelense de coração. Com formação em Ciências Sociais, mestrado em Ciência Política e doutorado em Ciências Sociais, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo estudo da violência urbana, do poder local, das exclusões sociais e das sociabilidades periféricas. Atuou como gestor público nos governos estadual e federal, e atualmente é pesquisador associado ao LAPPCOM e ao NECVU, ambos da UFRJ. É analista político e social, colunista do site Agenda do Poder e de diversos meios de comunicação, onde comenta a conjuntura brasileira com olhar crítico e comprometido com os direitos humanos, a democracia e os saberes populares. Leitor compulsivo e cronista do cotidiano, escreve com frequência sobre as experiências urbanas e humanas que marcam a vida nas cidades.
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