LITERATURA

Um inferno chamado Brasil, por Sérgio Vaz

Não sei por que algumas pessoas estão estranhando esses dias em que o país marcha para trás, e pega fogo, literalmente.

Em que todos nós estamos com o dedo na cara um do outro, enquanto os outros, os de sempre, metem a mão no pouco que nos resta de dignidade.

Porém, uma coisa sempre esteve clara, nós, os pobres, negros, índios, mulheres, gays e nordestinos, não somos bem-vindos neste país, a não ser que aceitemos as migalhas de sempre.

A menos que aceitemos a escravidão disfarçada de salário mínimo. Ou de salário nenhum.

Tem gente que acha que cantamos ou fazemos poesia porque estamos felizes, satisfeitos com tudo. Na verdade, da nossa música, do poema, da nossa dança, sai o lamento, o chamado pra luta. Por isso muita gente estranha o refrão.

Tem gente que se cala, descansa na neutralidade, mas a história não é muda, um dia ela conta quem não perdeu a fala.

Desde sempre ouço dizer que tínhamos que combater o sistema que ninguém sabia quem era, o que era, e pra que servia. Mas sob uma luz sombria, e sem vergonha de ser o que é, eis que o Brasil mostra novamente sua face mais sinistra e covarde: ódio à sua própria gente. Essa mesma gente que acorda cedo para adorar um Deus chamado trabalho, e que de tanta sede pra ser feliz bebe o próprio suor. A água benta pra suportar o céu que nunca vem.

E falando nisso, se Jesus estiver me ouvindo, queria dizer que “Amai-vos uns aos outros!” e “Amai o próximo como a ti mesmo” agora é coisa do Demônio. E as crianças que não venham, elas viraram a escória do mundo, conforme as profecias dos novos profetas.

Estão queimando a Amazônia, o Pantanal, enquanto queimamos em silêncio a coragem de lutar contra tudo isso.

O inferno somos nós.

— Sérgio Vaz, no livro “Flores da batalha“. Global, 2023
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SOBRE O LIVRO
Flores da batalha, novo livro de Sergio Vaz da Global Editora, com apresentação de Emicida, é uma obra que fala sobre o coletivo – a luta coletiva do homem e da mulher preta, da galera que pega ônibus 5:30 da manhã todo dia para trabalhar, das pessoas que sonham e lutam todos os dias pelos seus ideais, mesmo que sejam negligenciadas pelo sistema. Atualmente, não existe ninguém melhor para abordar esses temas na literatura contemporânea do que Vaz, também criador da Cooperifa.
Na apresentação, Emicida cita Mário de Andrade, que em 1924 clamou por um “Brasil com alma”, em uma carta para Carlos Drummond de Andrade. “Para isso todo sacrifício é grandioso e sublime”, completa. Nas paisagens que moldam Flores da Batalha, mais uma vez São Paulo da zona sul. Vaz achou na rua a oportunidade de se expressar, criando arte que fala com e para as pessoas que cresceram e são moldadas por experiências periféricas. Dessa forma, a poesia da periferia, galgada pela voz do povo, se torna parte da rotina diária de milhares de brasileiros.
Ao apontar sua caneta para a rotina da periferia, o autor cria mais uma vertente do Brasil com a alma que Mário de Andrade citou, ao mesmo tempo em que faz poesia que, como diz o próprio Emicida, “tira a mordaça da alma”. Responsável também por Flores de alvenaria, Literatura, pão e poesia e Colecionador de pedras, Sérgio Vaz cresce cada vez mais em território nacional, e soma sua arte com movimentos e eventos como a própria Cooperifa e até mesmo a Perifacon, que leva a cultura pop para os extremos de São Paulo, sempre democratizando o acesso

FICHA TÉCNICA
Título: Flores da batalha
Páginas: 280
Formato: 18 x 12.4 x 1 cm
Acabamento: Brochura
Lançamento: 30/04/2023 (1ª edição)
ISBN: 978-6556124346
Selo: Global Editora
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