Assim diz a Cecília Meireles: “Foi, desde sempre, o Mar…”. Diz a Cecília? O certo não seria “disse”? Pois o poema foi escrito há muito tempo, pertence ao passado… E a Cecília já não vive entre nós. Vive, encantada, como peixe no fundo do Mar… Mas não me lembro de que a Cecília tenha usado jamais a palavra Deus – muito embora os seus poemas estejam perpassados do sentimento de assombro ante o Grande Mistério que nos cerca. E que metáfora mais bela para o Grande Mistério pode existir que o Mar que desde sempre foi? Lá está ele, enorme, sem fim, sua superfície azul escondendo os mistérios das profundezas! Silencioso, o Mar não revela os seus segredos. Sem nada saber, só nos resta ver e sonhar. E ficamos a imaginar o que estará lá no fundo! E a nossa imaginação coloca nas profundezas do Mar Sem Fim os seres que nadam em nosso pequeno mar chamado alma! Toda alma é também um mar. Assim são todas as palavras que se dizem sobre Deus. Tolos, os homens acreditam que as palavras que se dizem sobre o Mar Sem Fim revelam o seu mistério. Alguns há, atrevidos, que chegam a dizer que um Peixe Dourado, saído do fundo do mar, lhes contou os segredos… E andam por aí a espalhar as fantasias das suas almas como se fossem a verdade do Mar Sem Fim. (E, por falar em “Peixe Dourado”, você sabe a razão por que os cristãos comem peixe na semana santa? Por favor, não repita a bobagem de que é porque carne de vaca tem sangue, e é como se estivéssemos bebendo o sangue e comendo a carne de Cristo. Pois não foi o próprio Cristo que disse que era necessário que comêssemos sua carne e bebêssemos seu sangue? Então, a razão deve ser outra… Ou será que você come peixe sem saber por quê?… ) Certo está o Alberto Caeiro que diz: “Pensar em Deus é desobedecer a Deus. Porque Deus quis que não o conhecêssemos. Por isso se nos não mostrou. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo e entraria pela minha porta dentro dizendo-me: Aqui estou!”. Com o que concorda Walt Whitman: “Eu sou curioso sobre todas as coisas e não sou curioso acerca de Deus. Não há palavra capaz de dizer quanto eu me sinto em paz perante Deus e a morte”. Emily Dickinson, mulher frágil dotada de asas, tinha um delicado senso do Mistério. Mas, por isso mesmo, por sentir-se assombrada pelo Mistério que nos cerca, desprezava aquilo que sobre ele diziam os religiosos. “Alguns guardam o Domingo indo à igreja/ Eu o guardo ficando em casa/ Tendo um Sabiá como cantor/ E um Pomar por Santuário./ Alguns guardam o Domingo em vestes brancas/ Mas eu só uso minhas Asas/ E ao invés do repicar dos sinos na Igreja/ Nosso pássaro canta na palmeira.// É Deus que está pregando, pregador admirável/ E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final/ eu o encontro o tempo todo no quintal.” Mas, afinal de contas, o que é que o Sabiá diz com o seu canto? Nada. Canto de Sabiá não é para ser compreendido. É para ser amado. Bem disse o avô Celestino, lá das bandas do Manoel de Barros: “Deus é assunto delicado de pensar; faz conta um ovo: se apertamos com força parte-se; se não seguramos bem cai”. Tantas coisas loucas os homens pensam sobre Deus. Esses tais se parecem com um tico-tico que me visita sempre. Pois ele se assenta no parapeito da janela e fica a bicar o vidro. Se lhe perguntássemos a razão por que bica o vidro, ele nos responderia: “O que é vidro? Não estou bicando vidro. Bico esse tico-tico à minha frente invasor do meu espaço. Mas o danado é esperto. Ele sempre adivinha onde vou bicar e se defende. O meu bico sempre bate no bico dele. Ele parece nada sofrer. Mas o meu bico está doendo…”. Pobre tico-tico. Ele não sabe o que são espelhos. Assim são os homens: vêem o seu rosto refletido nas águas do Mar Sem Fim e pensam que a imagem que veem é o rosto do Senhor do Mar, olhando para eles. Como o tico-tico, eles não se dão conta de que estão vendo sua própria imagem, refletida. Se você quiser saber como é a alma de uma pessoa, peça-lhe para falar sobre o seu Deus. Tudo o que disser sobre o seu Deus, ela estará falando sobre si mesma. Pessoas vingativas têm um deus vingativo. Como disse Bachelard, para se acreditar no Inferno é preciso ter muitas vinganças a realizar. Pessoas que se deixariam comprar por bajulações e favores têm um Deus que se deixa comprar por bajulações e favores… Acham que isso é normal. Pessoas com alma policial têm um Deus carrasco… Pessoas que amam a música têm um Deus que é música… Pessoas que amam jardins têm um Deus jardineiro…
— Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola“. Paidós, 2021
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SOBRE O LIVRO
A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: “Preciso envolver esta areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…”. Ostras felizes não fazem pérolas. Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro é repleto de areias pontudas que machucam, mas que fazem da dor uma razão para sempre continuar. Qualquer página deste livro é um começo e um fim.
“Rubem fazia a filosofia descer do salto, fazia a psicanálise falar fácil, fazia a educação aprender com quem supostamente estava na ignorância, e fazia a poesia emoldurar tudo com o seu manto mais libertário.”
– ALEXANDRE COIMBRA AMARAL, PSICÓLOGO E ESCRITOR
“É um libertário amável, um educador atento, um pensador inquieto e um revolucionário doce.”
– PEDRO SALOMÃO, POETA E ESCRITOR
“Rubem Alves sabe contar histórias como poucos. As frutas que ele generosamente nos oferece têm um efeito poderoso e paradoxal: elas alimentam ainda mais a nossa fome.”
– CLÁUDIO THEBAS, EDUCADOR, PALHAÇO E ESCRITOR
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FICHA TÉCNICA
Título: Ostra feliz não faz pérola
Páginas: 288
Formato: 16 x 1.7 x 23 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 1/9/2021 (3ª edição)
ISBN: 978-6555354591
Selo: Paidós
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