EDUCAÇÃO E CIÊNCIA

“Tempo de viver” indígena convida a repensar o modo de vida ocidental

por Maykon Almeida | Daniela Gonçalves – Jornal da USP

Pesquisa etnográfica mostra como, para povos indígenas, alimentar-se é antes de tudo uma relação entre vidas, tempos e territórios

A partir do questionamento “por que juruá [não indígena] vende comida?”, a bióloga Vanessa Almeida se propôs a observar como, entre os povos indígenas, a alimentação constitui um campo de relações entre vidas que difere muito do modo de vida da sociedade hegemônica. Ela realizou uma pesquisa etnográfica entre dois povos indígenas distintos: os Mbyá Guarani, em São Paulo, e os Akwe-Xerente, no Tocantins. Acompanhando o dia a dia das aldeias, a pesquisadora identificou um sistema de relações alimentares que respeita os diferentes tempos da vida, bem como impactos negativos do modo de produção ocidental sobre a segurança alimentar das comunidades.

A pesquisa resultou na dissertação de mestrado Tempo de comer, tempo de viver: um olhar para as relações alimentares entre os Akwe-Xerente e Mbya Guarani para se pensar outras formas de habitar o mundo, que Vanessa defendeu em setembro no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Ela teve a orientação da professora Cláudia Roberta de Castro Moreno, da FSP.

A etnografia é um método que consiste na imersão no cotidiano dos interlocutores de pesquisa. A partir dessa experiência com os Mbyá Guarani e os Akwe-Xerente, Vanessa pôde compreender como as relações alimentares nessas comunidades, para além do ato de comer, seguem ritmos diferentes daqueles do homem branco e se relacionam com diferentes dimensões da vida. Da mesma forma que rejeitam as formas aceleradas de viver e produzir do Ocidente, nas comunidades pesquisadas, o “tempo de comer” e o “tempo de viver” são preservados.

Segundo a pesquisadora, “pensar em relações alimentares é olhar para como a alimentação entre os povos indígenas está dentro de uma cadeia maior de seres vivos, que se relacionam entre si e com o tempo. Desde a pessoa que cultiva até a pessoa que prepara o alimento, a pessoa que lucra com a venda, os animais e os espíritos”.

Ela explica que as relações alimentares não indígenas, apesar de serem atravessadas por uma lógica de mercado que institui o mundo colonialista-capitalista, também são parte de um sistema coletivo. No entanto, um sistema que torna o alimento, a fauna e a outra em outro a ser explorado e tomado como recurso.

O tempo, também tido como recurso pelo mundo colonialista-capitalista, passa a seguir a lógica da produtividade e do consumo. O tempo de viver e de comer, assim como outras temporalidades – o tempo de plantio, colheita e preparo dos alimentos; a reprodução, crescimento e caça dos animais, por exemplo –, são desconsiderados e alterados. Para a pesquisadora, a explicação para isso está na forma com a qual o “Ocidente” se relaciona com outras formas de viver, como produz seus meios de subsistência e a lógica de consumo estabelecida.

Crianças Akwẽ da aldeia Salto Kripre e Vanessa Almeida – Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora

“Acredito que a organização temporal da sociedade contemporânea deva ser amplamente debatida, pois está diretamente associada à sobrecarga de trabalho, ao trânsito caótico e ao crescente distanciamento entre as pessoas, as quais estão sempre atarefadas, com pouco tempo para conversar, conviver e simplesmente viver. Em vez de favorecer o bem-estar coletivo, o ritmo imposto tende a reduzir a vida cotidiana a uma busca pela sobrevivência”, afirma Cláudia Moreno, professora da FSP e orientadora da pesquisa.

Do litoral ao Cerrado brasileiro

Preservar o tempo de viver e o tempo de comer de acordo com suas tradições e cosmovisões não impede que as comunidades indígenas sejam impactadas pelo modo de vida ocidental contemporâneo. Nas duas comunidades onde a pesquisadora esteve, esses impactos chegam a ameaçar a soberania e a segurança alimentar dos moradores.

Nhanderekoá é uma aldeia de retomada do povo Mbyá Guarani, localizada no município de Itanhaém, litoral de São Paulo. A tekoa – palavra guarani para aldeia – fica onde antes era um local para despejo de entulho de obras realizadas na região. A retomada do território começou há cerca de quatro anos com a ocupação do lugar e um processo de recuperação do solo.

Um dos fatores prejudiciais ao bem-viver dessa comunidade é a degradação da terra, que afeta, diretamente, a soberania alimentar das famílias. O consumo de alimentos in natura cultivados em Nhanderekoá, como a batata-doce e as carnes em geral, ainda é limitado devido ao estado do terreno.

Desenhos feitos pelas crianças Akwe, durante oficina na escola, em resposta à pergunta: o que você mais gosta de comer? – Foto: Retirada da dissertação

O avaxi (milho), base da alimentação guarani em sua diversidade de cores, tamanhos e nomes, também precisa ser comprado. Enquanto isso, os Mbyá Guarani buscam alternativas para manter sua subsistência a partir de estratégias de criação e cultivo.

Salto Kripre é a maior aldeia do povo Akwe-Xerente e está localizada na Terra Indígena (TI) Xerente, nas proximidades do município de Tocantínia, região metropolitana de Palmas. A área onde estão localizadas as aldeias Akwe foi palco de diversos conflitos entre indígenas e não indígenas. A colonização e a recente expansão do agronegócio são as principais responsáveis pelo genocídio empreendido contra as comunidades localizadas no Cerrado brasileiro.

Betânia Kuzadi Xerente na Aldeia Salto Kripre – Foto: Retirada da dissertação

Devido aos diversos deslocamentos forçados, à redução da extensão de suas terras e à perda de biodiversidade causada pela expansão da monocultura, a aldeia de Salto Kripre também vive em situação de insegurança alimentar e dependente, em certa medida, da compra de alimento in natura e também de ultraprocessados.

Apesar disso, da mesma forma que os Mbyá Guarani, eles buscam ativamente alternativas e formas de manter vivas as suas tradições. Eles buscam sua soberania alimentar por meio do cultivo em roças compartilhadas, acompanhando os períodos de cheia e seca do rio, para determinar quais tubérculos, cereais ou leguminosas serão cultivados.

A construção da Usina Hidrelétrica do Lajeado, no rio Tocantins, alterou o fluxo das águas e os períodos de cheia e seca são indeterminados. Isso impede o cultivo de alguns alimentos, como o arroz-do-pantanal, que costumava ser plantado na terra úmida e fértil do período de vazante do rio e foi substituído pelo arroz comprado. Esse fator modificou o padrão alimentar dos Xerente. O consumo do arroz e feijão, que antes não era tão comum, virou um hábito diário.

Outras relações alimentares e formas de habitar o mundo

Para a bióloga, “a insegurança alimentar vivida por esse povo não é, portanto, fruto de uma escassez natural, mas consequência direta de uma história de colonização, expropriação e silenciamento”. Tais processos alteraram as condições materiais e simbólicas de existência e resistência dessas comunidades que, hoje, precisam conviver com a constante invasão de seus territórios, ameaças e transformações nas formas de sobrevivência.

Segundo Vanessa, olhar para formas historicamente negligenciadas e atacadas de se relacionar com o mundo é um caminho que precisa ser percorrido. A mudança climática é um dos principais agravantes das transformações sofridas por esses povos, devido às alterações que ela provoca, como os períodos irregulares de seca, cheia e calor intenso.

De acordo uma cartilha produzida pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), a ação dos povos indígenas é essencial para a manutenção do equilíbrio climático. Segundo o relatório, por exemplo, a temperatura média do Território Indígena do Xingu (TIX) é 5°C menor do que aquela registrada nas áreas de pastagem e monocultura vizinhas.

Para Cláudia Moreno, estudos e relatórios como esses abrem espaço para discussões mais amplas sobre o tema. “Não tenho dúvida de que a sociedade, como um todo, precisa refletir sobre formas mais saudáveis de produzir e consumir alimentos. Daí a importância de colocar o tempo no centro dessa discussão. Desacelerar é uma necessidade, não apenas para promover saúde e bem-estar, mas também para enfrentar a crise climática.”

A partir de uma imagem de satélite, observa-se a paisagem recortada dos sistemas de plantations na margem do Rio Tocantins, à esquerda, em contraste com a paisagem de Cerrado conservada, à margem direita, na Terra Indígena Xerente – Foto: Ilustração do Google Earth retirada da dissertação

 

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Pare de Esperar: Por que 2026 é o Último “Ano Dourado” para Estes 3 Destinos

Por anos, viajantes têm repetido a mesma frase: no próximo ano. No próximo ano eu…

4 horas ago

‘Uma escuta sensível do tempo: Maristela Rocha sobre Chiquinha Gonzaga’, por Paulo Baía

O artigo “Chiquinha Gonzaga: um legado que atravessa o tempo”, assinado por Maristela Rocha, é…

5 horas ago

Andre Correa lança álbum de estreia ‘Seasons’

'Seasons', álbum de estreia do guitarrista e compositor Andre Correa, traz repertório autoral que une…

3 dias ago

Helder Viana lança single ‘Meu Amor, Minha Flor’, com participação do grupo Boca Livre

Com um time de peso formado por músicos como Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Jamil Joanes,…

3 dias ago

Caetano Veloso e Tom Veloso lançam single ‘Mais Simples’, de José Miguel Wisnik

O cantor e compositor Caetano Veloso gravou com o filho Tom Veloso a canção “Mais…

3 dias ago

Carol Pedroso lança EP ‘Eu Canto Minha Força, Meu Lugar’

EP Eu Canto Minha Força, Meu Lugar é um projeto musical de Carol Pedroso, que…

3 dias ago