LITERATURA

“Sou raiz, e vou caminhando”, um poema de Cora Coralina

Sou raiz
Sou raiz, e vou caminhando
sobre as minhas raízes tribais.
Velhas jardineiras do passado …
Condutores e cobradores, vós me levastes de mistura
com os pequenos e iletrados, pobres e remendados …
Destes-me o nível dos humildes em tantas lições de vida.
Passante das estradas rodageiras, boiadeiros e comissários,
aqui fala a velha rapsoda.
Escuto na distância o sonido augusto do berrante que marca
o compasso das manadas que vão pelas estradas.
O mugido, o berro, o chamado da querência, a aguada,
o barreiro salitrado, a solta, o curral, a porteira,
a tronqueira, o cocho, o moirão, a salga, o ferro de marcar,
rubro, esbraseado. A castração impiedosa.
Eu sou a gleba e nada mais pretendo ser.
Mulher primária, roceira, operária, afeita à cozinha,
ao curral, ao coalho, ao barreleiro, ao tacho.
Seguro sempre nas mãos cansadas a velha candeia
de azeite veletudinária e vitalícia do passado.
Viajei nas velhas e valentes jardineiras
do interior roceiro, suas estradas de terra,
lameiros e atoleiros, seus heróicos e anônimos condutores
e cobradores, práticos, sabidos daqueles motores desgastados,
molas e lataria rangentes.
Santos milagreiros eram eles. Onde estarão?
Viajei de par com os humildes que tanto me ensinaram.
Viajantes das velhas jardineiras, meus vizinhos
das estradas viaje iras …
Meus trabalhadores: Manoel Rosa, José Dias, Paulo, Manoel,
João, Mato Grosso, plantadores e enxadeiros, meus vizinhos sitiantes,
onde andarão eles?
Andradina, Castilho, Jaboticabal, comissários e boiadeiros, tangerinos,
esta página é toda de vocês.
Fala de longe a velha rapsoda.
.
– Cora Coralina, no livro “Vintém de cobre: meias confissões de Aninha”. Global Editora, 2024.

“Nós temos dentro de nós um porãozinho. Ele abre e fecha automaticamente. E as coisas caíram dentro do meu porão. E o porão se fechou. E ficou fechado durante quarenta e cinco anos. O tempo todo que eu estive fora da minha cidade. E eu senti a necessidade de abrir esse porão voltando. Lá não. Tinha que voltar para abrir o porão. Aqui é que o meu porão tinha que ser aberto soltando as coisas de
dentro. Soltando o passado de dentro.”
– Cora Coralina, em ‘entrevista’ na Casa Velha da Ponte, 1985.

***

SOBRE O LIVRO
Em Cora Coralina estão as raízes de todos nós. Sua poesia constrói-se na tradição que vem dos tempos passados em busca da afirmação futura. Seu Vintém de Cobre é ouro.
Quase memórias, ou meias confissões como a autora prefere, Vintém de cobre reúne poemas ricos de experiência humana, escritos em tom simples e comunicativo, no lirismo quase de toada sertaneja, peculiar a Cora Coralina. Chamados de vintém de cobre, por malícia, são na realidade puras e autênticas moedas de ouro.
A obra de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (1889-1985), nome de batismo da autora, é um dos marcos recentes de nossa literatura.
Nascida em Goiás, em 1889, Cora teve uma trajetória literária peculiar. Embora escrevesse desde moça, tinha 76 anos quando seu primeiro livro foi publicado, e quase noventa quando sua obra chegou às mãos de Carlos Drummond de Andrade, responsável por sua apresentação ao mercado nacional. Desde então, sua literatura vem conquistando crítica e público.
Cora Coralina não se filiou a nenhuma corrente literária. Com um estilo pessoal, foi poeta e uma grande contadora de histórias e coisas de sua terra. O cotidiano, os causos, a velha Goiás, as inquietações humanas são temas constantes em sua obra, considerada por vários autores um registro histórico-social do século XX.

FICHA TÉCNICA
Título: Vintém de cobre: meias confissões de Aninha
Páginas: 240
Formato: 23 x 1 x 16 cm
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 25/11/2024 (11ª edição)
ISBN: 978-6556125107
Selo: Global
*Compre o livro. clique aqui.
**Como participante do Programa de Associados da Amazon, somos remuneradas pelas compras qualificadas efetuadas. Comprando pelo nosso link você colabora com o nosso trabalho.

***

Saiba mais sobre Cora Coralina:
:: Cora Coralina – venho do século passado e trago comigo todas as idades
:: Cora Coralina (outros poemas)

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Patrícia Ahmaral lança o EP ‘Nem Musa Nem Pavão’

O primeiro projeto de carreira da artista, dedicado a composições de sua autoria. Com produção…

2 horas ago

Musical É Melhor Ser Alegre Que Ser Triste faz homenagem a Vinicius de Moraes, no Teatro do Sesc Santo Amaro

Tributo ao Poetinha é comandado pelas cantoras Graziela Medori, Jane Duboc e pelo ator e…

1 dia ago

Zélia Duncan estreia ‘Agudo Grave’ nos palcos

Apresentação no Rio de Janeiro, primeira anunciada, acontece dia 25 de setembro, no Vivo Rio.…

2 dias ago

Painel ‘SETE MARIAS’ de Antonio Veronese será instalado no Supremo Tribunal Federal

O painel SETE MARIAS que o pintor brasileiro Antonio Veronese acaba de pintar. É um grito…

2 dias ago

Após apresentação no North Sea Jazz, Amaro Freitas recebe o Prêmio Paul Acket 2026

O pianista pernambucano Amaro Freitas recebeu, no último sábado (11/7/2026), o Prêmio Paul Acket 2026,…

2 dias ago

Roberta Sá em encontro inédito com a nova Orquestra no Theatro Municipal

Espetáculo-celebração de 20 anos de carreira da artista abre a Série Encontros, projeto da Sympla…

2 dias ago