Espetáculo 'Incondicionais' - Amok Teatro | foto: Renato Mangolin
Sesc Copacabana recebe a estreia nacional de Incondicionais, nova montagem que marca o retorno do Amok Teatro ao teatro documentário.
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Contemplado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar para temporada de 25 de junho a 19 de julho de 2026, no Teatro Arena do Sesc Copacabana, Incondicionais tem direção e dramaturgia de Ana Teixeira (Prêmio Shell) e Stephane Brodt (Prêmio Shell), com elenco formado por Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo (Prêmio Shell), Taty Aleixo e Thay Aleixo.
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Inspirado nos livros Cadeia – Relatos sobre mulheres de Debora Diniz, Prisioneiras de Dráuzio Varella, Presos que Menstruam de Nana Queiroz e Prisioneiras – Vida e violência atrás das grades de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz, o novo espetáculo Incondicionais resulta de um intenso processo de pesquisa documental e aproximadamente seis meses de ensaios. A dramaturgia foi construída a partir de entrevistas, depoimentos, artigos e estudos diversos. Nesse processo, o Amok Teatro mergulhou em um universo complexo, marcado por estigmas, violência e abandono. A cadeia surge como etapa final de um percurso que, muitas vezes, se inicia ainda na infância, na casa ou na rua. A cadeia é a linha final de um grande rito do abandono iniciado bem antes de chegarem ali. Os nomes e os rostos são diferentes, mas no final, todas se parecem nessa “máquina do abandono”.
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Ao aproximar o público daquelas que a sociedade mantém à margem, o teatro reafirma seu papel como espaço de escuta, espaço em que podemos manter aceso o interesse pela complexidade dos seres humanos, sem o qual viver perde o sentido e o encanto. (Ana Teixeira)
Em uma penitenciária feminina brasileira, um gabinete de atendimento torna-se espaço de escuta, confrontos e humanidade. Entre relatórios, laudos e decisões judiciais, psicólogas e assistentes sociais recebem detentas cujas trajetórias revelam marcas profundas da pobreza, da violência estrutural, da maternidade interrompida e do abandono. Suas vozes são direcionadas às cuidadoras do sistema prisional, as chamadas “jalecos brancos”, aquelas que escutam. Nesses atendimentos, as presas são temporariamente apenas “mulheres” e os “jalecos brancos” representam uma breve suspensão das regras hegemônicas do espaço policial. É nesse contexto que se cruzam as trajetórias de quatro personagens detentas. Histórias de mulheres e, sobretudo, de mães.
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Ao dar voz às mulheres encarceradas e às profissionais que as acompanham, Incondicionais se apresenta como um espetáculo “feminino” expondo as fissuras de um sistema que reduz vidas a processos, ao mesmo tempo em que evidencia a potência transformadora da escuta. Entre atendimentos e momentos de convivência, as internas constroem redes frágeis de solidariedade, humor e resistência, enquanto revelam a complexa engrenagem que organiza a vida prisional.
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As histórias são contadas em fragmentos, como uma colcha de retalhos composta por pedaços de vida de mulheres. (Stephane Brodt)
Contexto e motivação para a nova montagem
Fala-se pouco de mulheres encarceradas. O Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo, ultrapassando a marca de 900 mil pessoas privadas de liberdade. As mulheres representam uma minoria, cerca de 5% da população prisional. Ainda assim, o crescimento da população prisional feminina aumentou mais de 560% nos últimos 15 anos. O perfil é recorrente: mulheres pobres, majoritariamente negras, com baixa escolaridade, dependentes de drogas e frequentemente inseridas em contextos marcados pela economia do tráfico e pela vulnerabilidade social.
Quando pensamos em encarceramento, é comum a ideia de que todos os presos devem ser tratados de forma igual. Mas a isonomia é injusta quando consideramos as diferenças. O sistema prisional feminino envolve gestantes, bebês nascidos no chão das cadeias, mulheres privadas de acesso à saúde e às visitas íntimas (permitida a elas 17 anos após os homens terem conquistado esse direito), e envolve também os filhos.
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O espetáculo não pretende representar a totalidade do sistema prisional, mas lançar luz sobre algumas de suas camadas mais invisibilizadas. Mais do que um retrato social, Incondicionais é um mergulho na complexidade da experiência humana.
O “teatro documentário”, por Ana Teixeira
Em “Incondicionais”, construímos uma dramaturgia a partir da coleta de testemunhos, escritos, reportagens, artigos. Depois da Trilogia da Guerra, voltamos mais uma vez para o “teatro documentário”. Se em 2008, com o espetáculo “O Dragão”, mergulhamos em um evento histórico (o massacre perpetrado por Israel no campo de Refugiados de Jenin em 2002) agora, com “Incondicionais”, nossa pesquisa volta-se para uma realidade específica: a das mulheres no sistema prisional brasileiro. Nosso objetivo não é didático nem jornalístico. O que desejamos oferecer com o teatro, é uma ruptura no tempo, uma suspenção, um recuo, a possibilidade de lançar um novo olhar sobre uma realidade, interrompendo o fluxo hipnótico e fragmentado das informações e das reações imediatamente esquecidas do mundo virtual.
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Talvez o teatro possa, à seu modo, “iluminar” a atualidade, fazendo surgir personagens e interrogar a realidade através do que eles vêem e sentem. É um lugar onde podemos pensar sobre nós mesmos à medida em que pousamos o olhar sobre o outro. Olhamos para a cena como um espaço de memória que manifesta, mais uma vez, o desejo humano (e político) de não esquecer os esquecidos, de dar voz aos que não conseguem ser ouvidos, de transmitir, partilhar, encontrar. Construímos então uma dramaturgia baseada em testemunhos, abrindo caminho através de verdades esparsas, subjetivas e contraditórias. Uma dramaturgia fundada em “pessoas de carne e osso”. E assim nos confrontamos às múltiplas questões colocadas por essa “máquina do abandono” que são as penitenciárias femininas, sem oferecer respostas prontas. O que nosso teatro documental propõe aqui, antes de tudo, é a partilha da experiência, da qual nem nós, nem as atrizes, saímos ilesas. Nem sempre é fácil, mas nossa missão (assim como disse o Dr. Drauzio Varella), é “manter aceso o interesse pela complexidade das interações humanas”. Em “Incondicionais”, o que está em jogo, são pedaços de vida.
Ficha técnica
Direção e dramaturgia: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco: Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo
Iluminação (criação): Renato Machado
Figurinos: Stephane Brodt
Cenário: Ana Teixeira
Edição de som: Gabriel Petitdemange
Operação de luz: João Gaspary
Operação de som: Anderson Ribeiro
Cenotécnico: Beto Almeida
Produção: Gabriel Garcia
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Fotos de divulgação: Renato Mangolin
Designer gráfico: Dila Puccini
Mídias sociais: Mariã Braga
https://www.amokteatro.com.br
Serviço
Incondicionais | Amok Teatro
Local: Teatro Arena do Sesc Copacabana
Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro
Temporada: 25 de junho a 19 de julho de 2026, quintas e sextas às 20h, sábados e domingos às 18h
Data de sessão com acessibilidade: 27/06 e 11/07
Informações: (21) 3180-5226
Ingressos: R$ 30,00 (inteira); R$ 27,00 (conveniados), R$ 21,00 (credencial plena Sesc); R$ 15,00 (meia entrada para casos previstos por lei – idosos, estudantes, PCD e jovens de baixa renda na faixa etária 15 a 29 anos que apresentem carteira jovem ou CadÚnico; professores e classe artística com registro profissional, convênio e programa Mesa Brasil); Gratuito (público cadastrado no PCG).
Bilheteria: de terça a sexta das 9h às 20h, sábados, domingos e feriados das 14h às 20h.
Lotação: 155 lugares
Classificação etária: 16 anos
Duração: 90 minutos
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