Marcelo Galter - foto: Diego Bresani / Rocinante
Pianista Marcelo Galter lança novo álbum que deságua na inovação e nos processos musicais de Dorival Caymmi. Através de uma profunda pesquisa estética, Galter conduz o seu grupo por uma viagem que expande a sua busca por novos caminhos
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A Gravadora Rocinante apresenta o novo trabalho do pianista baiano Marcelo Galter intitulado “Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi”. Disponível em vinil e nas principais plataformas de streaming, o disco estabelece uma filiação clara do músico aos métodos e processos criativos do grande patrono da música brasileira.
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Dorival Caymmi possuía a genialidade de sintetizar no violão o ritmo e a complexidade de uma agremiação percussiva inteira. Compartilhando dessa mesma leitura criativa, Marcelo Galter utiliza o novo trabalho para aprofundar um método criativo que já é a sua marca registrada. A transposição da linguagem de outros instrumentos para o piano é um processo contínuo em sua carreira, uma reconhecida assinatura estética. Neste projeto, ele expande essa pesquisa para reivindicar sua identificação orgânica com o método de Caymmi e a evidente reverência à linguagem de instrumentos como a viola de machete do Recôncavo, o berimbau e os tambores afro-baianos.
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“Eu precisei beber nessas linguagens para desenvolver meu jeito de tocar piano. A força da oralidade para mim é a transmissão de conhecimento através do corpo, da voz, da convivência, e não apenas da escrita formal. Este é o mesmo espírito que também guiou Caymmi a trazer as suas próprias vivências na Bahia antiga do samba de roda e dos pregões de rua, para desenvolver o seu estilo próprio de compor, cantar e tocar violão”, afirma Marcelo.
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E o álbum traz uma novidade: Marcelo Galter utiliza sua própria voz como instrumento em diversas faixas, desalinhando as barreiras entre a música instrumental e a música cantada. Se expressando de corpo inteiro, o artista mergulha na obra de Caymmi com toda liberdade. “É um pretexto para a minha assinatura como pensador, pesquisador e compositor investigar todas as possibilidades criativas que me aproximam da síntese genial que Caymmi fez do cancioneiro baiano”, descreve o pianista.
Águas
Em “Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi” não há apenas um mar, mas diversas águas que batizam o encontro da obra do compositor baiano com Marcelo e seus companheiros de projeto. Essa vivência que Galter descreve de forma poética como um “piano marítimo” trouxe Mû Mbana, músico de Guiné-Bissau que, com sua voz e flauta fulani, conduz na música ‘Lagoa do Abaeté’ uma imersão aos mais profundos mistérios da Bahia.
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Os companheiros de Galter desenvolveram o projeto amalgamados pela cumplicidade de uma longa parceria criativa. “Esse é um disco feito por baianos. Não somos turistas interessados em folclore. Somos pessoas nascidas dentro dessa tradição e interessadas em levar adiante essa música – que também é a música de Caymmi – e tudo o que ela representa”, resume Marcelo.
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No disco, a musicalidade do candomblé é ressaltada pela presença de Luizinho do Jêje, que além de sua intuição profunda, utiliza instrumentos sagrados e outros inusitados feitos a partir de panelas, por exemplo. Ldson Galter conduz o contrabaixo se misturando à trama dos tambores e ao mesmo tempo se confunde com o próprio vento. Reinaldo Boaventura, além de trazer os seus mil sons, honra a tradição do samba que herdou das mulheres de sua família, vindas do Recôncavo.
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“Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi” não é um tributo reverencial e estático. Em vez de apenas emoldurar o passado, Galter abraça a mesma ousadia e a mesma sede de invenção que fizeram de Dorival um eterno visionário. O resultado é um disco sedutor e surpreendente. “Com este disco, quero convidar a um mergulho nas águas da Bahia para constatar o que o próprio título já anuncia: a beleza de Caymmi é, de fato, infinita”, provoca Galter.
Disco ‘Marcelo Galter investiga a beleza sem fim de Dorival Caymmi’ • Sylvio Fraga • Selo Rocinante • 2026
Canções e compositores
LADO A (21:37)
1. Promessa de pescador (Dorival Caymmi) (7:27)
2. O vento (Dorival Caymmi) (5:25)
3. Sodade matadera (Dorival Caymmi) (7:58)
4. Zoada do batucajé (Marcelo Galter) (0:47)
LADO B (21:48)
1. A lenda do Abaeté (Dorival Caymmi) (7:27)
2. 365 igrejas (Dorival Caymmi) (6:27)
3. A jangada voltou só (Dorival Caymmi) (5:06)
4. Promessa (Marcelo Galter, Ldson Galter, Reinaldo Boaventura) (2:48)
– ficha técnica –
Marcelo Galter: piano, vozes e palmas | Ldson Galter: contrabaixo, vozes e palmas | Reinaldo Boaventura: percussão, vozes e palmas | Luizinho do Jêje: percussão, vozes e palmas | Mû Mbana: voz (1A, 1B e 2B), serdô – flauta fulani (4A e 1B) e palmas | Todos os arranjos são de Marcelo Galter, com exceção de “Promessa” | Direção artística e produção musical: Marcelo Galter e Sylvio Fraga | Direção musical e arranjos: Marcelo Galter | Gravação: Arthur Damásio, Flávio Marcos Batata e Guido Pera no Visom Digital | Assistentes de gravação: Caio Faria, Gelson Jr. Santana e Luís Fernando Marques | Mistura: Pedro Durães | Masterização: Zino Mikorey at Vivid Dreams | Edição: Arthur Damásio | Coordenação artística: Jhê | Coordenação técnica: Arthur Damásio e Flávio Marcos Batata | Projeto gráfico: Celso Longo + Daniel Trench | Fotografias da capa e do pôster: Diego Bresani | Assistência de fotografia: Luca Narracci | Figurino: Masta Ariane | Assistência de figurino: Artemis Ahmadi | Fotografias da contracapa: João Atala, Lucca Mezzacappa e Thiago Pozes | Direção executiva: Bruno Vieira | Produção executiva: Alessandra Ramalho | Assistente de produção: Flora Gaiad | Afinador de piano: Guthenberg Pereira | Assessoria de imprensa: Pantim Comunicação – Dayw Vilar e Tathianna Nunes | Selo: Rocinante | Formato: CD digital / LP vinil | Ano: 2026 | Lançamento: 27 de agosto | ♪Ouça o álbum: Spotify – Deezer – Apple Music – Amazon Music – Youtube – Bandcamp | ♩Compre o LP Vinil: clique aqui.
Marcelo Galter
Pirajá, bairro da periferia de Salvador. Lá nasceu e foi criado o pianista, compositor e arranjador Marcelo Galter.
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Seu convívio com a música da comunidade e um bocado de curiosidade pessoal conduziram-no, adolescente, ao estudo formal de piano e teoria. O mergulho na obra de Bach; as transcrições dos improvisos de Parker, Monk, Miles; a graduação em Piano Erudito pela Universidade Federal da Bahia em 2001; as jam sessions soteropolitanas – tudo isso foi solidificando o apuro técnico que mais adiante o permitiria desenvolver uma linguagem musical inaudita.
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Na primeira década deste século, a jornada do instrumentista foi matizada e ampla: apresentação com a Orquestra Sinfônica da Bahia em comemoração aos 20 anos do Grupo Garagem; com a Orquestra Fina Flor acompanhando Hermeto Pascoal; concerto solo no Festival de Música Instrumental da Bahia; trabalhos com a cantora italiana Maria Pia de Vito e o guitarrista Nelson Veras; gravação do DVD Clássica de Daniela Mercury e ingresso na banda da cantora, com quem excursionou por países diversos; turnê nacional acompanhando Elba Ramalho, Roberta Sá, Paula Lima, Margareth Menezes e, mais uma vez, Daniela no show Elas cantam Chico Buarque; apresentação com o contrabaixista norte-americano Stanley Clarke no Phoenix Jazz Festival etc.
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Mas, para que pudesse unir bagagem prática e arcabouço teórico numa linguagem pianística propriamente afro-baiana, foram determinantes para Galter as passagens pelo grupo Bahia Black do guitarrista Mou Brasil e pelo Letieres Leite Quinteto, formado em 2010.
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Como é sabido, o maestro Letieres abordou as claves rítmicas de matriz africana de modo revolucionário, nos âmbitos criativo e pedagógico. Galter participou desse movimento. Com o Quinteto realizou concertos e workshops no Brasil e no exterior e, finalmente, em 2019, o disco O enigma Lexeu (lançado pela nossa gravadora Rocinante). Aliás, vale mencionar que no mesmo ano, arregimentado pelo maestro, o pianista integrou a banda de Maria Bethânia no show Claros Breus.
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Síntese de toda essa inquietude, Bacia do Cobre, lançado em 2021 pela Rocinante, é o primeiro disco autoral de Galter. Escoltado pelo baixo de seu irmão Ldson e pelas percussões de Luizinho do Jêje e Reinaldo Boaventura, ele amalgama nessa Bacia as claves de matriz africana e os “modos de transposição limitada” (escalas sistematizadas em meados do século XX pelo compositor francês Olivier Messiaen no contexto de uma vanguarda pós-tonal).
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Letieres, o mestre, em texto escrito para a contracapa do álbum, não esconde o próprio espanto diante do som do discípulo: “Até onde sei, não há e nem nunca houve o que Marcelo faz”. Ainda observa que “é o piano com sotaques específicos, fazendo uma arte contemporânea ligada umbilicalmente com os sistemas de oralidade e com a metodologia da diáspora“.
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Seria difícil que sotaques especificamente afro-baianos não preponderassem no toque do artista, afinal estamos falando de um instrumentista que também foi membro das bandas de Carlinhos Brown, Jau e Margareth Menezes; e de um arranjador que trabalhou com Margareth em Autêntica e Afropop, com o baterista Tito Oliveira em Magiô, e nos espetáculos comemorativos do Centenário de Caymmi, dos quais participaram Daniela, Danilo Caymmi e Virgínia Rodrigues.
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Bacia do Cobre é o nome da área de proteção ambiental situada no Parque São Bartolomeu, em Salvador, onde resta um pouco de Mata Atlântica. O fato de um álbum assim batizado ser esteticamente ultra-contemporâneo e cosmopolita não faz outra coisa senão confirmar a vocação de universalidade dos muitos “regionalismos” do Brasil – neste caso, o baiano.
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Marcelo Galter disse ao Caderno 2 do jornal A Tarde: “O meu disco surgiu de um desejo de tocar especificamente com um certo grupo de músicos que admiro muito e que tem concepções bastante originais de sonoridade. São pessoas que possuem vivência musical e que nasceram na mesma origem que a minha, com histórias interligadas. Nossa linguagem e afinidade sonora surgem da nossa raiz e do propósito que temos com a música.”
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Em 2024, a Rocinante lançou três outros discos em que a marca do músico está impressa: Poemas para Trio de Bernardo Ramos (do qual foi co-produtor), Atlântico Negro de Ilessi (em que assina co-produção, arranjos e direção musical) e Mocofaia. Em 2026 foi a vez de Villa-Lobos, em que a pianista Erika Ribeiro interpretou obras do grandioso maestro rearranjadas por Galter – que também foi diretor musical do álbum.
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Voltando ao Mocofaia – trio formado por Galter (teclados e voz), Luizinho do Jêje (percussão e voz) e Sylvio Fraga (guitarra e voz): seu primeiro disco esbanja pique e alegria em repertório inédito criado a seis mãos. Em declaração para a Rolling Stone sobre o trabalho, mais uma vez o pianista nos remete à matriz: “A Bahia aparece como uma influência cultural profunda, algo orgânico e não planejado. Nossa música é uma conexão com o corpo e busca essa expressão verdadeira, que resgata o que há de mais essencial na cultura afro-baiana.”
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Tudo isso nos leva a pensar no tanto de futuros que a velha Bahia guarda.
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Série: Discografia Brasileira / Canção / álbum.
* Publicado por ©Elfi Kürten Fenske/Templo Cultural Delfos
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