COLUNISTA

Riot Grrls e a disputa pelo palco político – Julia Gitirana

Senta, coloca uma setlist de punk rock, de preferência com bandas como Bulimia, Dominatrix, Pussy Riot, Gossip, Bikini Kill e Bratmobile, que lá vem a história.
Você já ouviu falar de um movimento que nasceu nos Estados Unidos nos anos 90 que surgiu como contra-ataque ao machismo do rock, especialmente do punk (sim, o “super alternativo” punk)? Riot Grrl não é uma referência a uma estampa, em tese empoderadora, de alguma camiseta vendida em lojas de departamento. Também não tem qualquer ligação com super-heroínas coloridas de desenhos, séries ou filmes.
Riot Grrl foi um movimento extremamente fluido que proclamou em palavras, gritos, grunhidos, gemidos e ruídos de guitarra que não era mais aceitável que mulheres fossem empurradas para a parte de trás da sala com violência física, sexual, psicológica, simbólica e econômica, enquanto os homens se divertiam no palco principal fazendo mosh. Deu-se um grito alto e claro por rebeldia: “as garotas podem ocupar o palco e também podem comandar o show”. Rebelou-se contra um dos dogmas sacros do mundo do rock: Garotas não são capazes de tocar guitarra, bateria ou baixo tão bem quanto os homens.
Se o punk era agressivo demais para incluir mulheres, foi com o mesmo tom de agressividade que as punks reagiram contra essa misoginia. As Riot Grrls adotaram um feminismo exaltado e contundente que colocava em cheque o estereótipo querido, meigo e frágil de mulheres sem raça e sem classe. As músicas barulhentas e pesadas vociferavam liberdade sexual e questionavam a objetificação do corpo e beleza das mulheres. A heterossexualidade também é bastante questionada, a ponto de se formar uma categoria de riot grrrls que se assumem lésbicas, as dykes.
Através de ferramentas como fanzines, (uma produção escrita, artesanal ao alcance de todos e todas que queiram escrever, divulgar opiniões, bandas, artes, notícias), festivais, atitudes ditas “chocantes”, como levantar a blusa e exibir palavras como “slut” (vadia) e rape (estupro) escritas em seus corpos, roupas que subvertiam a moda mainstream da época, e principalmente a música feroz, o movimento incentivava mulheres a montarem suas próprias bandas, aprenderem a tocar instrumentos sozinhas – sob a base do lema punk “faça você mesmo” (do it yourself – sigla DIY), mas também a reivindicar e lutar pelos seus direitos.

Impulsos criativos e viscerais emanados por Kathleen Hanna, Tobi Vail e Johanna Fateman marcaram cenários músicas e clipes que não passaram no horário nobre da MTV. As Grrls riots, sem “i” mas com vários “Rs”, denotavam garotas assertivas, resolutas e engajadas em questões feministas que buscavam participar como protagonistas no cenário musical – lembrando que a interjeição Grrl em inglês sempre representou raiva. Garotas arruaceiras e rebeldes que buscavam denunciar o lugar intrincado e inquietantes que impediam a auto-representação das mulheres.
As garotas do Riot Grrl que ousavam desnaturalizar o espaço público convencionalmente masculino do mundo punk denunciavam uma modalidade de violência contra a mulheres que ultrapassava a esfera privada. De uma forma não premeditada, esse “movimento sem líderes ou ideologia centralizada” ampliava a conceituação de violência contra a mulher ao incluir a violência política, uma modalidade da esfera pública. Promovia-se um diagnóstico punk feminista de uma forma de violência que resultava do aumento da participação das mulheres na política.
Meu ponto com esse breve relato sobre o Riot Grrrl é que, além de se tratar de uma obra de arte feminina que com a fúria de suas vozes leva ao limite a imagem de garotas “desajustadas”, deprimidas e transtornadas, o movimento expressa uma modalidade de resistência criativa na esfera da cultura e na vida cotidiana. Revoluções, manifestações, insurreições e rupturas não só existem pelas vias tradicionais, mas também pelas práticas e produções de si como meios de transformação.
As garotas rebeldes trazem uma nova perspectiva de como lidar com questões políticas a partir de um ativismo que baseado na subversão diária de uma cena masculina da nossa sociedade patriarcal, por meio da criação de linguagem, berros, corpos, sexo, arte, comunidades, escritas e diálogos.
“O pessoal é político”. Não há um espaço privilegiado para resistir. É preciso inventar (-se) cotidianamente nem que seja através de um excelente setlist…

* Julia Gitirana, colunista da Revista Prosa Verso e Arte. Formada em Direito pela PUC-Rio, especialista em Direito Penal e Criminologia pelo ICPC, Mestre em Direito pela PUC-Rio, Doutoranda em Políticas Públicas pela UFPR e apaixonada por filosofia.

Clique AQUI e leia outras colunas da autora.

Revista Prosa Verso e Arte

Música - Literatura - Artes - Agenda cultural - Livros - Colunistas - Sociedade - Educação - Entrevistas

Recent Posts

Pare de Esperar: Por que 2026 é o Último “Ano Dourado” para Estes 3 Destinos

Por anos, viajantes têm repetido a mesma frase: no próximo ano. No próximo ano eu…

20 horas ago

‘Uma escuta sensível do tempo: Maristela Rocha sobre Chiquinha Gonzaga’, por Paulo Baía

O artigo “Chiquinha Gonzaga: um legado que atravessa o tempo”, assinado por Maristela Rocha, é…

22 horas ago

Andre Correa lança álbum de estreia ‘Seasons’

'Seasons', álbum de estreia do guitarrista e compositor Andre Correa, traz repertório autoral que une…

4 dias ago

Helder Viana lança single ‘Meu Amor, Minha Flor’, com participação do grupo Boca Livre

Com um time de peso formado por músicos como Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Jamil Joanes,…

4 dias ago

Caetano Veloso e Tom Veloso lançam single ‘Mais Simples’, de José Miguel Wisnik

O cantor e compositor Caetano Veloso gravou com o filho Tom Veloso a canção “Mais…

4 dias ago

Carol Pedroso lança EP ‘Eu Canto Minha Força, Meu Lugar’

EP Eu Canto Minha Força, Meu Lugar é um projeto musical de Carol Pedroso, que…

4 dias ago